Flashback: Brazil

Flashback: Brazil

Brazil

Precedente à vertente de cineasta, Terry Gilliam integrou o seminal ensemble de comédia Monty Python, tomando, numa fase inicial, a responsabilidade de criar os interlúdios animados que faziam a ponte entre sketches, assim como grande parte do grafismo do grupo britânico. Vem a propósito, já que o seu quarto filme, Brazil (1985), é tremendamente influenciado pelo humor britânico, e sentido surrealista do grupo humorístico.

Brazil

No mundo distópico de Brazil, e tal como na obra de George Orwell – uma outra influência -, a gestão da sociedade está entregue a vários Ministérios, num processo burocrático confuso e surreal. Sam Lowry, o protagonista, é um de muitos trabalhadores no Departamento de Registos do Ministério da Informação, a quem, um dia, lhe pedem que corrija uma ordem errada: queria-se a prisão do cidadão Archibald Tuttle (interpretado por Robert DeNiro!), e não Archibald Buttle. O apelido esconde as diferenças, já que o primeiro é um picheleiro freelancer, suspeito de actos terroristas, e o segundo é um pacato e ordeiro sapateiro.

Felizmente, a sombra de 1984 não se faz sentir por muito tempo, já que, à seriedade soturna e rígida da obra de Orwell, Terry Gilliam juntou o humor tipicamente britânico, por via da situação surreal, e assim fez um filme fiel à sua ideia. Os diálogos são ricos, cómicos e expressivos, enquanto que os cenários – os interiores dos ministérios, o apartamento de Lowry, as paisagens suburbanas da cidade – foram magistralmente detalhados e decorados. Brazil é um filme de culto, e muito deve à enorme atenção ao detalhe.

030-brazil-theredlist

Em termos de cinema, há algumas falhas a apontar a este trabalho. Não há duvidas que Gilliam pensou o filme sem subserviência às estruturas formais convencionais, mas pressente-se alguma irregularidade no ritmo da narrativa, sobretudo a partir da primeira hora. Além disso, o alvo romântico de Lowry é uma personagem unidimensional; a quem, aliás, se cortou muitas das cenas porque a actriz não foi de encontro às expectativas do realizador. Supondo que Brazil levara uma edição mais rigorosa, teria certamente uma crítica unânime à obra de Gilliam; como o temos agora, é um óptimo filme, com algumas partes menos eficazes, mas, ainda assim, merecedor da nossa atenção e obrigatório para adeptos de comédias surreais.

Alexandre Júnior

Alexandre Junior

Interesso-me por muitas coisas. Estudo matemática, faço rádio, leio e vou escrevendo sobre fascínios. E assim o tempo passa.

Facebook