Flashback: The battle of Algiers

Flashback: The battle of Algiers

La battaglia di Algeri

Poucos dias depois de invadir o Iraque, em 2003, o Pentágono organizou dentro do seu espaço uma palestra sobre a problemática da guerrilha urbana e da tortura como método eficaz de adquirir informações em cenário de guerra. Convidou à volta de quarenta especialistas militares e civis sobre o assunto e ao invés de uma palestra, esperava-os uma sessão de cinema.

O prato principal era uma obra argelina, datada de 1966, filmada por um italiano, que durante muito tempo fora até banida em França, no Reino Unido e nos Estados Unidos na sua versão original. Aliás, só voltou a passar em terras gaulesas de forma generalizada depois deste evento. O título era clínico, desapaixonado, quase tirado de um relato de notícias: The battle of Algiers. A razão pela qual, de súbito, quarenta das mentes mais influentes no esforço de guerra norte-americano foram convidadas a ver esta obra não se prendia com o seu valor estético ou artístico. Desde que Gillo Pontecorvo a lançara ao mundo, The battle of Algiers ganhara uma reputação  merecida como documento e manual de guerrilha, de tal forma que era sabido que os Black Panthers, movimento terrorista norte-americano que usou a violência na luta pelo direitos civis nas décadas de 60 e de 70, o usara como fonte de aprendizagem. No entanto, o paralelo que realmente interessava ao Pentágono era o contexto histórico da narrativa.

A batalha por Argel referia-se ao conflito entre a Frente de Libertação Nacional argelina e o exército de francês, que entre 1954 e 1962 travaram uma luta onde a independência do país estava em jogo. Terminaria na década seguinte, com a vitória argelina, e seria, sabemos nós hoje, de arrepiante profecia: uma vez mais, um império ocidental decidira ocupar um território árabe, para ocidentalizá-lo, apenas para se ver confrontado e repelido por um movimento popular organizado em pequenas células individuais, que usam a violência como última arma que se auto-justifica, independentemente do número de vítimas.

Tal como França, os EUA sairiam vergados das suas aventuras pelo Médio Oriente, e o folheto distribuído nessa noite de cinema em Washington avisavam sob a forma do título da palestra: “Como ganhar a guerra ao terrorismo e perder a guerra das ideias”.

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The battle of Algiers não é apenas um filme do caraças. Tornou-se importante e influente na História do Cinema. Encontramos marcas suas em filmes tão díspares como Traffic e Black Hawk Down, ou até mesmo Do the right thing. É impossível conceber o trabalho de Paul Greengrass sem o mesmo, e outros realizadores que comentam o quanto se sentiram inspirados por esta potente mistura de cinema verité e engagé são Oliver Stone ou Julian Schnabel.

É curioso, porque durante algumas décadas este foi um filme conhecido apenas nalguns círculos mais académicos e como uma curiosidade dos Óscares, ao ser nomeado nas categorias de filme estrangeiro, realizador e argumento, mas em anos diferentes. O que torna isto espantoso é o seu conteúdo, explicitando com uma franqueza que se equipara ao seu estilo quase documental. Pontecorvo justifica o uso do terrorismo como meio útil para atingir um fim, se este for tão importante quanto a liberdade ou a auto-determinação. A famosa crítica Pauline Kael escreveu que era um filme que conseguia convencer a classe média norte-americana da necessidade de se matar pessoas inocentes com bombas. Fá-lo sem lirismo, inspirado pelo romantismo independentista da década de 60, nos sonhos dos países não-alinhados, um movimento colonialista que se queria como alternativa à bipolaridade de um mundo de Guerra Fria.

No entanto, a formação de jornalista de Pontecorvo aguça a narrativa do filme e transforma-o numa aula. Nela aprendemos não só como funciona a estratégia militar francesa no combate aos insurgentes, mas também como estes se defendem e contra-atacam. A guerrilha como estratégia militar começava a despontar, e os métodos argelinos inspiraram posteriormente os movimentos de independência da Indochina, da Palestina e também as forças de Fidel castro e Ernesto “Che” Guevara.

The battle of Algiers foi escrito na prisão por um dos líderes da FLN (Frente de Libertação Nacional) e é metódico na elaboração dessa guerrilha, cada passo, cada teste, cada estratégia. Somos representados no filme por Ali Lapointe, um pequeno larápio que se junta à FLN depois de cenas de tortura que vê na prisão (a génese do terrorista a partir do homem comum quando exposto a actos imorais e humilhantes para o seu sentido de identidade). Lapointe vai aprendendo as artes da guerrilha e no fim do filme, é já um dos líderes do grupo terrorista. É um compósito de todos aqueles argelinos de classes baixas que decidem erguer a sua voz. Ele é as ruas da cidade, aqueles que no centro histórico de Algiers, a Casbah, toda a vida viveram na sombra dos ricos bairros de europeus. No momento em que toma as armas, percebe-se que é algo de imparável.

The Battle of Algiers (1966)

Declarações políticas dão lugar a proclamações de ideias e descrições de actos. O exército francês é representado pelo coronel Mathieu, que em declarações a jornalistas e palestras aos seus homens, debita pérolas de sabedoria que não são mais do que linhas de ordem militares. A certa altura, diz: Os interrogatórios tornam-se num método quando conduzidos de forma a obter um resultado. Na prática, demonstrar um falso humanitarismo leva ao ridículo e à impotência. Estou certo que todos os homens entenderão isto e agirão em conformidade.

Para este coronel, a tortura justifica-se e é apenas um meio. Pontecorvo, apesar da reputação do filme como arma de arremesso política liberal, claramente equipara esta tortura como resposta aos atentados. Ambas são justificadas do ponto de vista de quem as usa, e os seus resultados filmados com semelhante intensidade e agouro. Duas sequências em particular demonstram-no. Na primeira, vários insurgentes são torturados de maneira horrenda, com tochas e eléctrodos, com waterboarding, e tudo é mostrado por um lado como documento jornalístico e por outro como cenário de crueldade, porém não sadismo. Numa segunda sequência, três mulheres árabes infiltram-se em cafés no lado ocidental de Algiers e aí depositam bombas que rebentarão em minutos. Demoram-se um pouco a beber café, olhando insuspeitos franceses que em pouco tempo estarão mortos ou feridos, e nessa tensão, musicada com um crescendo de percussão, está o outro grande tema do filme: o custo do jogo do empurra entre um objecto inamovível e uma força poderosa, que é sempre a vida humana.

Não há, na lente de Pontecorvo, uma distinção entre o valor de um homem árabe ou de um francês. A perda de ambos é um choque, é desperdício. Na verdade, existe uma excepção, e aqui a música de Ennio Morricone (experimental, pulsante e , claro, pronta a ser gamada por Tarantino para uma conhecida cena de Inglourious Basterds através do tema que abre o filme) é chave: quando se trata de polícias franceses, símbolos do poder colonial mais imediato, as mortes são surdas, silenciosas; quando o exército bombardeia civis argelinos, a orquestra de Morricone leva-nos à pungência da dor, algo que fará novamente, mas através de um órgão em cenas de tortua.

Pontecorvo tenta fazer um filme equilibrado, mas é sempre traído pela sua paixão revolucionária e simpatias argelinas. Isto não deve ser supresa para uma obra que começa, precisamente, com a tortura de um árabe pelos franceses. O objectivo é claro, o que se segue não pode causar espanto. Ainda assim, os franceses não são retratados como ogres. O coronel Mathieu refere a certa altura que nenhum deles é sádico: alguns estiveram na Resistência Francesa e até nos campos de concentração. No entanto, se França quer manter a Argélia, deve aceitar as consequências necessárias; e no seu modo frio, calculista e calmo, o coronel mostra como, neste género de conflitos, qualquer um dos lados pode distorcer factos e acções de modo a justifar a sua moral como aceitável.

A boy carries a toy rifle as he walks with his mother past French soldiers in battle gear at the Bastille Palace in Oran, Algeria, May 4, 1962. Algeria?s eight-year battle for independence had reached a tense cease-fire pending a July referendum. (AP Photo/Horst Faas)

Gillo Pontecorvo foi claramente influenciado pela sua formação como documentarista e também pelo neo-realismo italiano, principalmente Rosselini e  as suas obras Roma: cidade aberta e Paisá, realizadas no mesmo estilo despojado e directo, com carga política inerente e decorrente do sofrimento humano. The battle of Algiers parece tão real em certas alturas que as primeiras cópias chegavam com um aviso: nenhuma das cenas do filme fora retirada de reportagens ou sequer filmada nos momentos que retratava. Tendo em conta que a sua estreia se deu poucos anos depois dos eventos que documenta, é compreensível, para mais quando algumas cenas parecem, de facto, realidade.

Quando as bombas rebentam, são visíveis os estilhaços a voar para cima de figurantes e actores; e quando se trata de filmar multidões, Pontecorvo fá-lo num caos controlado, numa realidade aparente, mas coreografada (na verdade, o realizador riscou com giz no chão as linhas que não podiam ser ultrapassadas pelos fictícios manifestantes). Filma-se de câmara ao ombro, num preto e branco granulado reminiscente do jornalismo de guerra e deitam-se pela janela regras básicas da gramática cinematográfica.

Fora com planos de pormenor e grandes planos, aceite-se o imediatismo da imagem filmada na rua, de se apagar a barreira entre ficção e realidade, e de se funcionar como jornalismo, quando a câmara avança pela linha que separa os manifestantes da polícia, mas sem nunca ultrapassá-la. É por isso que nunca sentimos o seu tempo, o seu confinamento de época histórica: é real e presente em permanência. Tal é reforçado pelo facto de os actores, com excepção de Jean Martin, que interpreta o coronel Mahtieu, serem amadores. Pontecorvo não procurou talentos, mas sim caras, e encontrou em Brahim Haggiag os traços do fogo da revolução, de alguém pata quem a violência é o primeiro e único meio e para quem a liberdade é fogo e uma pistola. Ele é raiva e sofrimento, e representa o argelino comum. Tendo sido financiado precisamente pelo recém-independente governo argelino, The Battle of Algiers quer justificar os meios violentos de vitória através do descontentamento com o Ocidente. No entanto, pelo ênfase dado aos crimes de ambos os lados, e por muito que o seu coração esteja com a causa argelina, Pontecorvo é claro no juízo moral que ambos os lados terão de enfrentar. Isso torna-o, não num propagandista que alguns viram, mas sim num artista preocupado, engajado, mas não sem uma clara noção do objectivo que retrata.

A história mostrou que a França venceu a batalha de Argel mas perdeu a guerra pela Argélia. O legado de tortura e execuções causou escândalos em França e viria a desacreditar o Exército e a assombrar a vida política durante épocas. Os argelinos conseguiram por fim a independência em 1962. Alguns anos depois, o general Massu, a inspiração para o coronel Mathieu, viria a escrever um livro reclamando para a a narrativa de The battle of Algiers, alegando que a tortura fora um mal necessário, algo que muitos dos seus subalternos reforçaram em anos posteriores, com algum júbilo imoral. Massu, no entanto, reflecte a frieza do seu alter-ego fictício, colocando simplesmente o seu uso como lei do Talião. Já em 2001, viria a dizer que, na verdade, o seu uso era moralmente feio, e que França devia não só admitir que recorrera a esse método, mas também condená-lo publicamente. Aqueles especialistas reunidos em 2003 no Pentágono não tiveram a inteligência imediata de aprender esta lição que Massu obtivera na vida real. O visionamento da obra de Pontecorvo não impediu Abu Grahib e Gunatanamo, nem toda uma série de acções absolutamente ilegais e atentatórias à dignidade humana, com o custo profetizado por Pontecorvo.

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Apesar do esmagador poder deste obra, o cinema tem os seus limites na escultura do mundo real. No entanto, a lição de The battle of Algiers não é uma sobre tortura ou sobre guerrilha ou sequer sobre colonialismo: é sobre o poder da união, a perseverança na luta justificada, no valor que existe no acto de um homem que desafia a lógica pervertida e se atreve a proclamar os seus direitos e as suas liberdades. Nesse sentido, bem podiam passá-lo neste momento em Bruxelas que a sua intemporalidade não se apagaria.

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.