Flashback: Trois Couleurs: Bleu

Flashback: Trois Couleurs: Bleu

Trois couleurs Bleu
Trois Couleurs: Bleu é o primeiro filme da trilogia Trois Couleurs, realizada por Krzysztof Kieslowski, em 1993. A triologia de Krzysztof Kieslowski – que se segue com Trois Couleurs: Blanc e Trois Couleurs: Rouge – pretende dar palco ao que representam as cores da bandeira francesa: liberdade (azul), igualdade (branco) e amizade (vermelho).

Bleu é o mais conhecido dos três filmes e é também aquele que catapulta o trabalho de Kieslowski, ate aí relativamente desconhecido, ao arrecadar três Leões de Ouro no Festival de Veneza: o de melhor filme, melhor actriz e melhor cinematografia. É também o filme que impulsiona a imensa Juliette Binoche, que interpreta Julie Vignon, personagem principal.

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A cena começa com Anna, a filha de Julie e do seu marido a fazer caretas no carro, enquanto a família vai de viagem. Anna sai do carro e volta. Um grande plano da mancha de óleo que verte do carro, e um rapaz que, entre o nevoeiro, pede boleia. Segue-se o acidente e estão abertas as hostes para a trama. De seguida, vemos Julie a recuperar deste horrível acidente, que resultou na morte do seu marido e de Anna.

Depois da tragédia, Julie dedica-se a tentar libertar-se das memórias do passado: vai morar para Paris, desfaz-se dos móveis e dos bens que ocupavam a casa de família. Leva apenas o candeeiro do quarto azul, o quarto da sua filha.  É uma peça  que a acompanha durante o filme, quase como se tratasse de um objecto transicional entre o passado e a nova realidade de Julie. Ainda nesta tentativa de cortar laços com o passado, Julie destrói a partitura em que o marido, um proeminente compositor, estava a trabalhar antes da sua morte: uma composição musical para celebrar o fim da Guerra Fria e a reunificação da Europa.

Assistimos então à tentativa de libertação máxima de Julie: esquecer-se do trabalho, dos compromissos, do desejo, do parceiro de trabalho que se apaixona por ela, da sua música. Ao contemplarmos Julie sentada sozinha no café, ao mesmo tempo que a câmara nos presenteia com um close-up do torrão de açúcar que se desfaz no café, percebemos que passa a estar mais atenta aos pequenos detalhes em detrimento das pressões a que estava acostumada. Uma nova forma de liberdade, que seria injusto reduzir a uma estratégia de fuga a um luto por fazer.

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Durante esta tentativa de se desvincular do passado e das relações de proximidade, Kieslowski vai introduzindo momentos de fade in e fade out durante cenas-chave do filme que antecedem mudanças na narrativa. Uma delas quando Julie está em recuperação no hospital, e se recusa a responder às perguntas do jornalista. Outra ainda quando Julie descobre que a amante do marido está grávida e resolve ajudá-la, em vez de se deixar levar pela raiva e pelo ciúme. Estes momentos basilares do filme, revelam o estado emocional de Julie, que se pauta por um processo de transformação, que na impossibilidade de rejeitar o passado, o transmuta.

Rico em texturas, uma manobra tão típica do cinema francês, o filme é atmosférico, pejado de símbolos. Tal como se esperaria do título, as cenas estão carregadas de azul, uma cor que permeia o significado do filme, representando a liberdade, mas também uma imensa tristeza, como se ambas estivessem sempre de mãos dadas. Ainda no que toca a simbologias, a par do significado da cor, existem outros elementos que se vão repetindo e que reflectem a construção da personagem principal. É o caso da senhora idosa que tenha colocar garrafas no vidrão e que Julie ignora (liberdade). Nos outros filmes, esta cena repete-se, com reacções diferentes da personagem principal.

A música é um ingrediente fundamental do filme, cujos créditos devemos a Zbigniew Preisner, também responsável pela banda sonora de La Double Vie de Veronique. Julie vê-se assaltada por flashbacks da composição musical do marido, à medida que a tenta esquecer. Mesmo quando mergulha na piscina azul, talvez para a abafar, as notas continuam tão vívidas como antes de saltar. No final, Julie consegue terminar a obra, com a ajuda do parceiro de trabalho do marido, que é tocada integralmente, através de uma montagem que inclui todas as pessoas que Julie foi conhecendo ao longo do filme, apesar de todos os seus esforços para se isolar. É um momento tocante, onde a música é um elo de ligação entre os diversos estados internos de Julie. Na tentativa sôfrega para viver uma liberdade desapegada, talvez para não ficar à mercê de mais sofrimento, Julie volta-se a permitir amar.

Ouve-se o coro e o filme termina. É tempo de Julie sair de casa.

“Ainda que eu falasse a língua dos anjos
Se eu não fizesse amor
Seria como sino ruidoso
Ainda que tivesse o dom da profecia
O conhecimento de todos os mistérios
De toda a ciência
Ainda que tivesse toda a fé
A ponto de transportar as montanhas
Se não tivesse amor
Nada seria.
O amor é paciente
O amor é prestativo
Tudo espera
Tudo suporta
O amor jamais parecerá
As profecias desaparecerão
As línguas cessarão
A ciência também desaparecerá
As profecias desaparecerão
As línguas cessarão
A ciência também desaparecerá
Agora portanto permanecem
A fé, a esperança, o amor
A maior delas porém,
É o amor
A maior delas, porém
É o amor.”

Texto por Rita Torres

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