Flashback: Trois coleurs: Blanc

Flashback: Trois coleurs: Blanc

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Será branca a igualdade? Kiéslowski remete-nos para esta interrogação no segundo filme da triologia Trois Coleurs, Blanc. No flashback de Bleu pode ler-se uma breve sinopse da triologia, que ajudará a contextualizar este filme. Apresentado sozinho poderia correr o risco de parecer ser um filme de argumento pouco consistente ou até forçado.

Blanc é frequentemente apelidado de anti-comédia, e comparativamente ao Bleu e Rouge parece ser o menos cativante e mais ligeiro. Mas não nos deixemos levar pelo engano. A destoar dos restantes pares da triologia, Blanc vai-se gostando aos poucos. Mas quando se entranha, descobrimos que é tão brilhante como os outros. Um filme sarcástico, espaço para um humor negro sagaz – nota introdutória para um humor tipicamente polaco – que é tambem uma crítica politico-social e por último uma história de amor. Uma história crua, sem espaço para rodeios ou inferências. A cor branca assume esperadamente um lugar preponderante, que corrói o filme como se ironicamente o transformasse num conto de fadas. É deveras contrastante a estética do filme, solo para a maneira abrupta e agressiva como se relacionam as personagens. Um filme perfeito para respirar um pouco depois de Blue e antes de Rouge, tão absorventes intelectual e emocionalmente.

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A história centra-se em Karol Karol (Zbigniew Zamachowski), um cabeleireiro polaco .A personagem é-nos introduzida de forma agressiva e bizarra: um homem abespinhado e humilhado perante a audiência de um tribunal de Paris, acusado pela mulher, Dominique (Julie Deply), de ser incapaz de consumar o casamento, pedindo por isso o divórcio. Talvez seja o sentimento de impotência gerado pelo facto de estar num país que não é o seu, em que não fala a língua nativa, numa cidade hostil que confere a Dominique uma posição de poder na relação que depois se alastra ao leito conjugal, a razão para esta situação que parece apenas temporária – a impressão dada ao espectador é a de que o comportamento de Karol é apenas fruto do contexto. Não sabemos. Sabemos apenas que a igualdade não existe, nem num contexto macro, como a sociedade em que se vive, como no seio das relações íntimas. Para os mais atentos, é facil perceber que Kiéslowski  foi pródigo em transmitir que todas as relações se baseiam em jogos de poder. Para Kiéslowski, igualdade é tao fictícia como a candura de Dominique.

Depois da cena do tribunal, Dominique priva Karol dos seus bens, incluindo o passaporte, pega fogo ao salão de cabeleiros de ambos, acusa Karol de o ter feito e finalmente atira-o para as ruas gélidas de Paris. Mas piora. Karol fica sem o seu cartão de crédito. Não suas mãos apenas uma mala com os seus diplomas imaculados e uma estatueta roubada igualmente pálida. Para além de tudo, Dominique regozija-se em massacrar Karol por telefone, ao fazê-lo ouvir os seus gemidos de prazer já com o novo amante. Para Karol igualdade é uma miragem.

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Já na esteira da loucura, Karol encontra o misterioso Mikolaj (Janusz Gajos) no metro de Paris, e ambos formulam um plano inesperado para Karol voltar à sua terra natal – Polónia -, onde aliás conheceu Dominique. Karol é então “embalado” numa mala até Varsóvia, que num pequeno plot twist, é roubada durante a viagem. Os ladrões não ficaram muito entusiasmados quando abrem a mala e vêem um homem meio morto e dois pertences sem valor.Ainda assim, Karol chega ao seu destino e a imagem de um homem ferido e humilhado sumariza a primeira parte do filme.

Na segunda parte, Karol tenta recuperar o poder que foi perdendo na relação com Dominique. Mesmo que Dominique tenha sido peremptória no término da relação, Karol alimenta a esperança de reatar com ela, mas em igualdade. Durante o tempo na Polónia, Karol rejeita a vida que anteriormente levava enquanto cabeleiro e inicia-se num percurso menos convencional. Mikolaj oferece-lhe uma soma avultada de dinheiro para matar um homem que quer morrer, mas não tem coragem de se suicidar.É aqui que Karol inicia o seu pequeno império capitalista, com qual pretende vingar-se da ex-mulher ao fingir a própria morte. Kiéslowski  não deixou passar despercebida a sua crítica acicatada ao neoliberalismo.

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Como já se sabe, os filmes da triologia misturam-se e é possível a repetição de elementos e cenas. Em Blanc, durante a primeira cena no tribunal, avistamos Julie, de Bleu, com a amante do marido. Também ainda no tribunal vemos Michel, o namorado de Valentine, ambos personagens de Rouge. A senhora que tenta colocar uma garrafa no lixo surge novamente, e desta vez a reação de Dominique é jocosa. Em todos os filmes Kiéslowski quer dar-nos uma mensagem diferente, com elementos semelhantes. Inclusivamente a maneira como Kiéslowski envolve o espectador no filme também é diferente. Em Blanc, o espectador observa, mas não de um modo voyeurista como em Rouge, nem de forma tao emotiva como em Bleu. O espectador apenas dá um passeio pelo filme, e pode ser que se divirta.

As diferenças dos filmes que se interligam tão bem, é desde logo simbolizada pelo o uso das cores. Neste caso, o branco que é mordazmente utilizado durante todo o filme. A mais saliente utilização do branco, surge com Dominique. Dominique aparece  frequentemente em tons de branco, como se tratasse de uma deusa, especialmente na cabeça de Karol enquanto recorda o dia do casamento. Sabemos no entanto que esta cor que simboliza a inocência nada tem a ver com Dominique. No entanto, na segunda parte, à medida que Karol se inicia no mundo do crime esta cor passa a estar-lhe cada vez mais associada. Ao longo de todo o filme surgem inúmeras referências ao branco: a recorrente imagem dos pombos, as estações de Metro em Paris, a neve na Varsóvia, o carro branco de Dominique enquanto expulsa Karol de casa, entre tantas outras.

O final é dúbio, como não podia deixar de ser nos filmes de Kiéslowski. Será que Karol consegue vingar-se de Dominique?Será que lhe é restituída a igualdade e poder? Acima de tudo, consegue Karol recuperar o amor de Dominique? Não avanço mais. Se quiserem saber,não percam o Ciclo Krysztof Kiéslowski, que o Nimas nos oferece neste Natal. Não se vão arrepender.

Rita Torres

Arte-Factos

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