Flashback: Prince of Darkness

Flashback: Prince of Darkness

Prince of Darkness
John Carpenter é um dos grandes mestres do cinema de terror, horror, fantástico ou qualquer que seja o termo que se usa por estes dias. Com Halloween criou a estrutura tradicional do chamado filme slasher, com Escape from New York assistimos ao renascer do anti-herói e em They Live criou uma estética que ainda hoje é reciclada sempre que há alguma espécie de conflito social. Com uma carreira descendente nos últimos 20 anos interessa também relembrar que nesse espaço de tempo fez apenas 5 filmes, o que torna a coisa menos dramática do que pode parecer à primeira vista. Independentemente disso, com tanto presente com que nos acarinhou, há um par de títulos que merecem ser vistos com novos olhos.

Prince of Darkness não foge à tradição de quebrar moldes de pensamento e apresentar maneiras alternativas de olhar para coisas que conhecemos há tanto tempo como nós próprios. Desta vez o alvo foi a religião, ao que parece há uma igreja abandonada em Los Angeles que detém um segredo muito bem guardado pelo Vaticano, até aqui nada de novo, mas e se descobrirmos que esse segredo é um contentor com um líquido verde que não é nada mais nada menos do que o diabo aprisionado? Este é o mote perfeito para juntar um padre, um professor universitário e uma mão cheia de estudantes que dentro deste edifício vão tentar estudar e dar um significado científico à situação.

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Uma das pistas para o desenrolar da trama é também um dos artifícios mais imaginativos com que Carpenter nos brinda, a introdução de mensagens do futuro através dos sonhos das personagens. Estas mensagens chegam através de filmagens VHS e de um narrador que num tom monocórdico pede por ajuda, é uma sequência que aparece várias vezes ao longo do filme mas que nos oferece mais informação à medida que a vamos vendo mais vezes. Há qualquer coisa na estética cheia de grão de uma câmara amadora mal apoiada que funciona neste tipo de histórias e é uma pena que tenha sido usada até à exaustão em tempos mais recentes por pessoas menos capazes, o que resulta durante segundos pode não resultar em hora e meia.

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A estrutura de Prince of Darkness foi engenhosamente planeada para manter uma atmosfera de suspense e terror ao longo de todo o filme, a maioria da acção passa-se numa igreja ao longo de uma só noite, algumas personagens vão sendo possuídas pela entidade, fora da igreja forma-se um cerco de sem-abrigos satânicos e ainda tentamos perceber a mensagem incluída nos sonhos. Mais do que suficiente para nos manter presos ao ecrã durante todo o filme.

Presenças que ajudam a tornar a experiência ainda mais intensa são as de Donald Pleasence e Victor Wong, o primeiro já tinha trabalhado com John Carpenter em “Halloween”, sendo mais conhecido como Sam Loomis, arqui-inimigo de Michael Myers e o segundo tinha acabado de participar noutro clássico entitulado “Big Trouble in Little China” como uma espécie de mentor espiritual para o Jack Burton de Kurt Russel. Ambos servem o propósito de dar credibilidade a um projecto manifestamente mais low budget do que as últimas aventuras do realizador, grande parte do elenco é relativamente desconhecido e este foi um risco e uma aposta criativa para Carpenter. Alice Cooper faz também uma pequena mas memorável presença, um dos sintomas do medo que os estúdios tiveram ao distribuir este filme mais tarde em VHS é o facto de termos a cara do cantor em quase todo o material promocional.

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Prince of Darkness foi filmado de forma totalmente independente em 30 dias e é o segundo filme da trilogia do apocalipse começada com “The Thing”, mais tarde concluída com “In the Mouth of Madness”. O projecto foi tão arrojado para a altura que o próprio Carpenter não quis ser creditado como escritor, preferindo o pseudónimo Martin Quatermass em homenagem à personagem do professor Bernard Quatermass dos filmes Hammer, dos quais era fã. Basicamente a ideia era juntar mecânica quântica e religião num só filme, o resultado não podia ser melhor.

Este não é só um dos melhores filmes do realizador, é também um dos melhores filmes do género e merece uma nova atenção, a atmosfera criada é verdadeiramente única e consegue manter-se como uma das experiências mais assustadoras para qualquer pessoa que o veja de luzes fechadas, uma manta e caneca de chá (manta, caneca e chá são opcionais).

José Santiago