Flashback especial: Velvet Goldmine

Flashback especial: Velvet Goldmine

Velvet Goldmine

Falar em cinema e em Bowie nem sempre remete para a sua participação em mais de duas dezenas de filmes. Aliás, pode mesmo dizer-se que para uma geração inteira (na qual me incluo), talvez o primeiro filme que vem à cabeça é o Velvet Golmine, de Todd Haynes.

A história começa no ano de 1984, em Nova Iorque. Um jovem jornalista Arthur Stuart (e um jovem Christian Bale) é encarregue de escrever um artigo sobre o hype do Glam Rock, Brian Slade (Jonathan Rhys-Meyers no único papel que interessa em toda a sua carreira, na verdade), que, na sua vida artística assumia a persona Maxwell Demon, assemelhado a um astronauta (rings a bell?) e a banda The Venus in Furs (claro, Velvet Undergound). Ou Ziggy Stardust and the Spiders from Mars.

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Brian, ou Maxwell, durante um concerto havia fingido a sua própria morte, ao contrário de Bowie, que dela sabia, escondendo-a do mundo e encenando todo o seu fim com o incrível Black Star, lançado a 6 de Janeiro e seguido da sua morte a 10 do mesmo mês.

No filme, descoberta a farsa, Maxwell Demon desaparece e cabe a Arthur redescobrir Brian Slade, levando-o numa viagem ao seu passado, à sua vivência da música de Demon and The Venus in Furs (e, de repente, só me lembro de Arthur ser apanhado pelos pais a masturbar-se  no quarto em frente a um poster com Slade e Curt Wild (interpretado por Ewan McGregor) a beijarem-se, numa alusão a um suposto romance entre Bowie e Iggy Pop, à fuga para Manchester e ao breve romance com Curt Wild (vocalista dos Flaming Creatures).

Ao tentar descobrir o que teria acontecido a Brian Slade, mil e uma versões são contadas: as do seu primeiro empresário Cecil (Michael Feast), que foi substituído pelo empresário corporativista Jerry Devine (Eddie Izzard) e da sua mulher Mandy (Toni Collette).

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Arthur, Mandy e Curt Wild, os sobreviventes, são amargurados, tristes e chegam mesmo a mostrar arrependimento pelos comportamentos passados. É emblemática a frase de Mandy que, lembrando-se de Slade, diz que as pessoas são sempre muito mais bonitas quando apenas se consegue ver a sua silhueta a sair pela porta. Para Wild resume-se a isto: “Nós queríamos mudar o mundo, mas acabámos por nos mudar a nós mesmos”.

Uma história que entrecruza o glam, muito glitter, a estética que valeu a Sandy Powell um óscar pelos figurinos, com a decadência de quem não soube lidar com os anos 70 e os excessos (???) do mundo artístico. Um confronto permanente entre um passado sem limites e um presente soturno e cheio de lamentos.

E, em Velvet Goldmine, se tudo brilha, a banda sonora é diamante. Bowie não autorizou a utilização de nenhuma das suas músicas no filme, mas Todd Haynes não olhou a meios para recriar as bandas fictícias inspiradas nas personae de Bowie: The Venus In Furs são Thom Yorke e Jonny Greenwood, vocalista e guitarrista do Radiohead; Andy Mackay, saxofonista e membro original do Roxy Music; Bernard Butler, antigo guitarrista da banda Suede; Clune, baterista que acompanha David Gray e Paul Kimble, baixista do Grant Lee Buffalo.

Wylde Ratttz: Thurston Moore e Steve Shelley, vocalista e baterista de Sonic Youth; Mike Watt, baixista; Ron Asheton, guitarrista e membro original de The Stooges; Mark Arm, vocalista de Mudhoney; Don Fleming, guitarrista e produtor e Jim Dunbar.

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Além das muitas versões originais da década de 70 cantadas por Slade e Wild, e músicas de Roxy Music, T.Rex, Gary Glitter, Cockney Rebel, Lou Reed, The Stooges, a banda sonora de Velvet Goldmine inclui uma passagem da sexta sinfonia de Mahler. Também há músicas compostas para o filme por Shudder to Think, Pulp e Grant Lee Buffalo e, claro, o concerto de Placebo com o icónico 20th Century Boy.

É um filme a que se regressa com grande facilidade. Visualmente a estética é impressiva e transporta-nos imediatamente para o mundo glamouroso das perucas, dos brilhantes, dos olhos excessivamente pintados, dos padrões e das cores berrantes. A banda sonora é memorável. As interpretações de Bale e McGregor completam o ciclo, deixando a Rhys-Meyers o papel perfeito (que vive da sua linguagem corporal e da cara incrível do senhor, que, felizmente, quase não tem falas no filme).

Ao que se conta, Bowie teria o seu projecto filmográfico sobre o glam rock. Do que se diz, não terá gostado do filme e muito menos da história do romance com Iggy Pop. Mas a verdade é que tanto se diz de Bowie e, tal como em Velvet Goldmine, vivemos sempre das suas ficções e muito pouco da sua realidade. Até na morte, Bowie encena todo um acontecimento e vai embora with a bang. Como não podia deixar de ser.

Lúcia Gomes

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