O Caso Spotlight (Spotlight) por Lúcia Gomes

O Caso Spotlight (Spotlight) por Lúcia Gomes

O Caso Spotlight

Melhor filme pelo Sindicato de Actores, melhor filme e melhor argumento pelo Critics’ Choice Awards e cinco nomeações para os Óscares, incluindo melhor filme e melhor argumento. Este é o cartão de visita de Spotlight (mais um dos casos em que a tradução era tão, mas tão prescindível).

Antes de mais, a curiosidade que lá para o fim do filme põe a sala de cinema a sorrir: um dos jornalistas diz que é português. Na verdade, é luso-descendente, mas não interessa porque é Mark Ruffalo (que interpreta o jornalista Mike Rezendes) e o sentimento de orgulho e vaidade alheia enche as salas. E justamente, pois.

A história é verídica: o abuso sexual de crianças por parte do clero e a descoberta das suas dimensões por uma equipa de jornalismo de intervenção do Boston Globe, a Spotlight.

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Michael Keaton é Walter ‘Robby’ Robinson, Rachel McAdams é Sacha Pfeiffer, Liev Schreiber é Marty Baron, John Slattery é Ben Bradlee Jr., os jornalistas responsáveis pela investigação e Stanley Tucci é Mitchell Garabedian, o advogado de cerca de uma centena de vítimas.

O filme, na verdade, nada tem de particularmente extraordinário. Nem mesmo as interpretações. Rachel McAdams faz sempre, sempre, sempre o mesmo papel: o de Rachel McAdams. As mesmas expressões, o mesmo tom de voz, a mesma linguagem corporal: nada a distingue das suas personagens em True Detective, Sherlock Holmes: o Jogo de Sombras, Midnight in Paris… já perceberam a ideia.

Já Mark Ruffalo e Liev Schreiber destacam-se: os tiques de Rezendes e a aparente apatia de Marty Baron são exemplarmente retratadas e são o que mais se destaca do filme. E, na verdade, considerando o tema, esperar-se-ia algo mais negro, com mais entranhas, mais centrado até nos relatos das vítimas, nas suas experiências e no que foi a sua vida depois dos abusos sexuais.

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Mas é, na verdade, um filme sóbrio, leve, que se centra essencialmente na actividade e método jornalístico: a descoberta hedionda dos contornos e da dimensão dos abusos sexuais pelos padres em Boston (e do envolvimento da comunidade no seu silenciamento), a sua transformação em comportamento sistémico, a eventual potenciação destes crimes à escala mundial e a forma como deve um jornal investigar e apresentar esta história publicamente, de forma a que a blindagem seja tal que nada nela seja desmentível.

Os cinco membros da equipa Spotlight receberam em 2003 um prémio Pulitzer na categoria de Serviço Público. O Pulitzer nesta categoria atribuída premeia o esforço para melhorar a vida das pessoas, da comunidade humana em geral. A cobertura jornalística durou mais de dois anos e Tom McCarthy descreve tudo isso: não há fulanização de nenhum dos abusadores, o cardeal é retratado como uma personagem cínica mas cordial, os advogados que contribuíram para os vários acordos secretos (e o consequente silenciamento) apresentados como gente que fez o seu trabalho, os juízes que impediram a divulgação pública dos documentos incriminatórios apresentados como guardiões da moral pública e do perigo comunitário da divulgação de detalhes tão sensíveis. Uma análise quase amoral, essencialmente factual, que levou a um extenso trabalho de investigação e fact checking exaustivo e pormenorizado.

Algo que, afinal, acaba por contrastar com uma ideia que paira sobre todo o filme: a ideia de que sempre se soube o que estava a acontecer e ninguém fez nada (seja por acção, omissão ou desinteresse) e o impacto da reportagem na vida das vítimas (como que uma porta aberta, finalmente, para que pudessem ser ouvidas sem medo de retaliações). Há, na verdade, uma crítica que subjaz implicitamente durante todo o filme, mas que não é verbalizada nem materializada, a não ser numa ou outra cena em que se percebe que, no fundo, todos estiveram sempre envolvidos, mesmo não sabendo.

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Uma elegia a um trabalho de jornalismo sério, que dificilmente se encontra, de investigação, de estudo, de persistência. Mas, como filme, não passa de um bonito blockbuster, perfeito para uma plácida tarde de domingo. Não fica grande coisa registada depois deste filme. Spotlight entra com um cartão de visita que promete. Mas acaba por não entregar. E, claro, ao pensar nos filmes que já se debruçaram sobre temáticas idênticas, como A Dúvida, Mystic River e, em alguma medida (o confronto com a Igreja Católica e o jornalismo), Philomena, bem mais ousados e desafiantes, não percebo o hype com este filme.

3,5estrelas

Lúcia Gomes

Tem opinião sobre tudo.
É uma perigosa subversiva.
Não gosta de Woody Allen nem de governos de direita.
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