Começou a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano: Il Racconto dei Racconti (O Conto dos Contos)

Começou a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano: Il Racconto dei Racconti (O Conto dos Contos)

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A sala do cinema S. Jorge, em Lisboa, revelou-se demasiado pequena para o público que acorreu ao toque reunir. Verdade que é já um dos festivais que, sobrevivendo graças ao esforço de uns (muito) poucos e de uma dedicação tremenda, tem registado um número crescente de audiência. Para isso contribui um programa cuidadosamente seleccionado: horários compatíveis com a escola e o trabalho (alerta geral para todos os outros festivais!), uma comunicação atempada, uma imagem sempre irrepreensível e a simpatia italiana irrepetível e inimitável.

Claro que o revés de uma sala com muitos italianos é não se ouvir rigorosamente nada da apresentação da 9ª edição, a cargo do seu director, Stefano Savio, pelo que é forçoso remeter para o site, relembrando apenas as palavras sinceras e sentidas de que o público, visto do palco, «é muito bonito», o que arrancou o maior aplauso da noite (claro).

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Avançando nos dolorosos anúncios, mas obrigatórios, dos patrocinadores (são a prova provada da péssima publicidade que ainda se faz), a 9ª edição abriu com o filme de Matteo Garrone, o realizador do já clássico Gomorra, de 2008, Il Racconto dei Racconti (O Conto dos Contos). Um filme nos antípodas do realismo de Gomorra, que tem vindo a dividir a crítica. Talvez por não ser expectável uma reviravolta destas na realização de Garrone, que foi cruzar o fantástico (lembrando por vezes o universo de Grimm ou de Tolkien), o obscurantismo da época medieval e, sempre, a reflexão sobre a natureza humana, numa clara descrença no espírito e na bondade, tantas vezes retratadas no cinema.

O filme adapta três fábulas napolitanas do século XVII, recolhidas por Giambattista Basile e incluídas num livro conhecido como Pentameron e Garrone não olha a meios: Salma Hayek, Vincent Cassel (mais charmoso do que nunca mas sempre adequado ao seu papel de sedutor ninfómano), Toby Jones, a deliciosa Alba Rohrwacher (que aparece por uns breves segundos), Bebe Cave. Um elenco de luxo para um autêntico freak show, arrebatado por figurinos de Massimo Cantini Parrini e cenários de Dimitri Capuani que dão o toque preciso para toda a negritude e desesperança elegante dos contos.

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A história tem um ponto de partida simples: o ser humano disposto a tudo para conseguir o seu objectivo. Já a concretização revela, em dois dos contos, uma execução tão bem adaptada que acaba por, no caso da história de Violet (Bebe Cave), a princesa que quer conhecer o mundo, e vítima de um pai monarca estranho e possessivo, acaba nas mãos de um ogre, transformar uma quase-idiota de penteado ridícula numa anti-heroína emancipada de causar inveja a muitas feministas do século XXI. Já com Vincent Cassel, o seu papel de Rei de Strongcliff, remete-o novamente para o típico ninfomaníaco que se apaixona por um dedo (sim), sempre agarrado às convenções medievas e actuais do estereótipo da beleza feminina: a juventude, a pele alba, o arquétipo da mulher perfeita. E até onde vão as mulheres? E neste conto, o grotesco assombra todas as personagens. O grotesco emocional, visual e físico, com pormenores que revelam as entranhas mais viscosas do pensamento humano.

Já com Salma Hayek, a rainha de Longtrellis, a história, sendo a visualmente mais forte e apelativa, fica com alguns nós por desatar e uns desfechos mais simplistas que acabam por revelar bem menos do que inicialmente é prometido. É aqui que surge a personagem mais intrigante e soturna, um feiticeiro alto, esguio e furtivo, que aparece e desaparece, vestido de negro, com a solução que todos os que gostamos das séries e filmes que envolvem seres do imaginário dos feitiços já conhecemos bem: magic always comes with a price (já o diz, repetidamente, Rumpelstiltskin). É aqui que surgem as imagens mais intestinas, o desejo mais negro, um espectro mais prometedor de tragédia. É também aqui que Garrone mais falha na concretização. Mas ver Salma Hayek a devorar um coração faz valer bem a pena o que ficou por fazer.

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Comparar as obras de Garrone, neste caso, é um exercício estéril e sem sentido. Aventura-se no fantástico, de forma arrojada e conseguida. A cena final mostra um funambulista numa corda em chamas, unindo o círculo onde, no fim, se reúnem as personagens de todos os contos, como que numa metáfora existencialista do ser humano: um equilíbrio ténue, numa corda em fogo, na tentativa de fazer a passagem entre a vida e a morte.

Foi uma abertura memorável e cá estaremos atentos, para ver se se confirma o epíteto que a Festa se deu a si mesma: italians do it better. Até já.

Lúcia Gomes

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