Caneta Alheia #2: Victoria

Caneta Alheia #2: Victoria

O Arte-Factos faz-se a muitas mãos e na essência do verdadeiro espírito de equipa, contando também com a colaboração dos nossos estimados leitores! João Fabião decidiu (em muito boa hora) contribuir para esta rubrica –  Caneta Alheia – com o arrojado Victoria, um filme rodado num único take.

Fica o nosso agradecimento ao João e o convite a todos os que quiserem contribuir. Estamos à vossa espera em info@arte-factos.net.
De quem é a próxima Caneta Alheia?

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Filmes rodados em take único não são propriamente uma novidade. De Hitchcock, com “Rope” (1948), ou até Iñárritu no oscarizado Birdman (2014), vários realizadores tentaram fazê-lo, embora na maioria dos casos a sensação seja apenas aparente e as transições estejam mais ou menos escondidas por diferentes artifícios. Russian Ark (2002) é talvez a primeira longa-metragem a concretizar verdadeiramente essa ambição, com uma viagem de 96 minutos que atravessa 300 anos da história da Rússia por entre os corredores do Palácio de Inverno de São Petersburgo. Victoria (2015), um filme alemão realizado por Sebastian Schipper, leva o desafio ainda mais além, com um take de 138 minutos ao longo de uma atribulada noite em Berlim.

Tudo começa e acaba com Victoria, uma espanhola com aspecto adolescente e vulnerável (numa extraordinária interpretação de Laia Costa). Nos primeiros momentos vemos Victoria numa discoteca, entre strobes e uma batida de DJ Koze, numa atmosfera que remete imediatamente para os filmes de Gaspar Noé. É na discoteca que Victoria conhece quatro rapazes berlinenses — Sonne, Boxer, Blinker e Fuss —, que se oferecem para mostrar a verdadeira noite de Berlim. O grupo comemora o aniversário de Fuss e parece “boa onda”. E Victoria, que trabalha há três meses em Berlim, não fala alemão e não conhece ninguém na cidade. Sem nada a perder, acaba por aceitar. Só que aquilo que começa como um retrato de uma clássica noite de copos converte-se mais tarde num heist movie, para o qual Victoria se vê arrastada (in)voluntariamente.

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Rezam as crónicas que foram necessários dois meses de ensaios e três tentativas para chegar à versão final. O que parece pouco quando estamos a falar de um take único com mais de duas horas, que atravessa diversas localizações e onde qualquer pequena falha poderia deitar tudo a perder. Perante tantos condicionalismos, surpreendentemente o filme funciona, com uma autenticidade que agarra o espectador desde o início. Talvez porque a maior parte dos diálogos é fruto da improvisação dos actores ou porque a fase inicial do filme reflecte experiências tão comuns como qualquer conversa com estrangeiros ao fim de uma noite no Cais do Sodré. Onde não faltam tentativas de equilibrismo e pontapés na língua inglesa.

No aspecto visual o filme sai claramente vencedor, com um trabalho de câmara que acompanha a acção de uma forma fluída e sem os sobressaltos tão comuns em realizações de câmara ao ombro. O uso constante de planos fechados contribui para a sensação de imersão e reforça a construção dos momentos de tensão. A banda sonora de Nils Frahm, a surgir quase imperceptível nos instantes certos, completa o ambiente de Victoria. Em termos negativos, existem algumas pequenas falhas e buracos no enredo, que embora impeçam o filme de ir mais além não retiram brilho ao resultado final.

Seria o mesmo filme se não fosse rodado num shot contínuo? Definitivamente não, mas ainda assim o seu valor vai muito para lá dos 138 minutos do take que são apresentados como cartão-de-visita.

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Texto por João Fabião
Caneta Alheia #2, Abril 2016

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