Flashback: 24 Hour Party People

Flashback: 24 Hour Party People

24 Hour Party People

Michael Winterbottom arriscou tudo: fazer um filme/biopic sobre a vida de um dos maiores génios da produção e distribuição musical que marcou e marca várias gerações. Se falar de Tony Wilson não é fácil, como nunca é fácil falar de quem vive mil vidas, mais difícil é incluir no mesmo filme Joy Division, New Order, A Certain Ratio, David Bowie, Iggy Pop, Kurt Reilly, Happy Mondays, Bez, …

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24 Hour Party People é uma homenagem acabada e demasiado perfeita aos anos da Madchester, uma pequena cidade que criou vários movimentos musicais com influência decisiva no panorama mundial. É, indubitavelmente, um clássico e um documento absolutamente obrigatório para se perceber como um homem com visão e uma postura desconcertante consegue mudar a história mundial: individual e colectiva.

Contado na primeira pessoa, com base nos depoimentos do próprio Tony Wilson, poucos anos antes da sua morte, e dos sobreviventes de Madchester, o filme passa pela história de bandas marcantes, dos seus primeiros concertos, da produção dos seus álbuns, da ascensão e queda do The Hacienda Club.

24 HOUR PARTY PEOPLE, 2002, (c) United Artists

Do primeiro concerto de Sex Pistols, onde estavam 42 pessoas (e a menção recorrente ao facto de o jantar mais famoso do mundo – a última ceia – apenas ter tido 12 pessoas e ainda assim não deixar de ser o jantar que toda a gente conhece, representa e/ou exibe representações) à saga interminável de produzir Shaun e Paul Ryder e os Happy Mondays, ao papel que o tráfico de droga desempenhou na alteração do paradigma musical nos anos 80, Tony Wilson, brilhantemente representado por Steve Coogan (e honra lhe seja feita, não existiria ninguém mais indicado para este papel), conta a sua história pessoal – as reportagens ridículas na Granada TV para poder fazer o histórico So it goes, as suas relações com as mulheres, a sua sede de imortalidade, a sua visão única responsável pela divulgação do avant garde, do punk,…) e a história das «suas» bandas: Joy Division, Happy Mondays e New Order.

Em meados dos anos setenta, Wilson, um jovem repórter de Granada TV em Manchester, um Lancastrian dedicado com  um excesso de orgulho cívico e uma ambição de fazer um trabalho sério para o pequeno ecrã.

24 HOUR PARTY PEOPLE, Steve Coogan, Shirley Henderson, 2002, (c) United Artists

A imagem relatada por Winterbottom, de uma forma carinhosa mas nem sempre coerente, traça o percurso errático de Wilson, personagem tão peculiar como intensa e cativante, constantemente dividido entre a sua realidade objectiva – as reportagens sobre o quase ridículo – e a sua formação superior, traduzida nas constantes referências à semiótica e ao pós-modernismo numa superioridade intelectual que chega a ter o seu quê de fascinante. Um filme sem qualquer tipo de moralização, com um olhar objectivo e simples sobre o sexo, as drogas e a música, assim como um relato simples da vida e da morte dos muitos que entretanto se imortalizaram.

A ironia e o sarcasmo, tão típicos de todas estas décadas (incluindo a que vivemos) num filme cuidadosamente construído como se de uma reportagem in the making se tratasse: a narrativa constante de Steve Coogan, de humor refinado com a visão do grande Tony Wilson sobre uma cidade que mudou o mundo.

E não deixa de ser um daqueles filmes a que se regressa, várias vezes, com gosto, com um olhar diferente sobre um ou outro pormenor sobre a construção do imenso património musical e cultural de Tony Wilson e a Factory Records nos deixaram, num verdadeiro pacto de sangue com a intemporalidade dos álbuns nascidos na Madchester.

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E recordo hoje este filme, 14 anos após o seu lançamento e apenas duas semanas depois de o rever e ouvir já sem saber as vezes que o fiz.

Lúcia Gomes

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