Flashback: Network

Flashback: Network

Network

 

“The world is a college of corporations, inexorably determined by the immutable bylaws of business. The world is a business, Mr. Beale. It has been since man crawled out of the slime. And our children will live, Mr. Beale, to see that… perfect world… in which there’s no war or famine, oppression or brutality. One vast and ecumenical holding company, for whom all men will work to serve a common profit, in which all men will hold a share of stock. All necessities provided, all anxieties tranquilized, all boredom amused.”

Arthur Jensen, “Network”

 

Um clássico do Cinema é um filme imortal; mas mais raro ainda é uma obra que seja como a bacia de água onde Nostradamus vislumbrava o futuro e consiga, muitos anos depois de estrear, ser aqueles dois dedos na carótida da Humanidade, captando-lhe o pulso como se adivinhasse o que ainda não chegara. Network, obra-prima de Sidney Lumet, fala a partir de 1976 sobre a televisão e a nossa relação com os media, como se tivesse estreado hoje. É presciente de uma forma que é assustadora, antecipando a reality tv, o papel quase evangelista do pequeno ecrã, as relações perigosas entre o mundo dos negócios e os meios de comunicação, a desumanidade em que se tornou a maior parte do jornalismo, usando a morte de alguém para fazer subir as audiências, e até o surgimento do Youtube, numa altura em que não existia sequer Internet. O guião magnífico e violento para o cérebro pela maneira como está cheio de ideias e conceitos (sem que isso sacrifique o drama das personagens) de Paddy Chayefsky é um dos mais celebrados do cinema norte-americano. Aaron Sorkin é um devoto (e imitador), homenageando-o no seu discurso de aceitação do Óscar de melhor argumento em 2010, por The Social Network. Também Paul Thomas Anderson, que cresceu no meio televisivo, considera Network o seu filme preferido.

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Embora hoje em dia se chame sátira ou farsa a este filme, nunca foi essa a ideia quer do argumentista, quer do realizador. Ambos sempre disseram que era um filme realista, observando os costumes da época, e existem factos que indicam que esta afirmação não é provocadora. Em Network, um pivô de notícias alcoólico e à beira de um esgotamento, Howard Beale (Peter Finch), ao saber que será despedido pela estação onde trabalha, planeia suicidar-se em directo e anuncia-o. A estação despede-o, mas encontra a oposição de Max Schumacher (William Holden), seu amigo, um jornalista da velha guarda, educado por Edward Murrow, o símbolo maior do jornalismo decente nos Estados Unidos pelo seu papel durante a “caça às bruxas” do Senador McCarthy nos anos 50. Convence os patrões aa dar-lhe uma oportunidade de se despedir de forma decente. No entanto, Beale lança-se numa arengada sobre como o mundo está podre e tudo errado, naquela que é a mais famosa cena do filme: culmina com “I’m as mad as hell and I’m not ganne take it anymore”, e transforma Beale não só num protótipo de profeta maluco, como num íman de audiência. A cena é lapidar: quando Beale ordena às pessoas que saiam à janela e gritem este mantra com ele, tal tem um efeito da realidade. É o poder da televisão sobre o espectador, que tudo faz sem questionar, marioneta de um quadrado luzidia onde uma imagem projectada lhe dita ordens.

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A directora de programas, uma gélida e granítica Diane Christensen (Faye Dunaway), cheira a oportunidade e dá a Beale um programa onde assume esta personalidade de alucinado, soltando ao mundo os seus monólogos aparentemente lúcidos. Enquanto que Max Schumacher é o bastião dos valores da decência no entretenimento, no cálculo do risco e preço humanos na hora de entreter e informar,  Christensen representa a televisão mercantilista, procurando a audiência como padrão supremo da qualidade. Os seus objectivos passam por criar programas que coloquem as pessoas à frente da televisão, usando o lema que se tornou numa regra quase inviolável da televisão actual: dêem às pessoas aquilo que querem ver. Esta subversão da democracia leva-a a ter ideias de absoluta demência, como um reality show onde grupos terroristas se filmam em directo a cometer os seus ataques ou a “The Mao Tse Tung hour”, uma série documental sobre um grupo de radicais armados de Esquerda não muito diferente do Exército de Libertação Simbionês.

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Pode ocorrer que existe aqui uma colisão entre ideias políticos, mas o que o filme explica, num monólogo brilhante cujo excerto abre este texto, é que no mundo não existem credos ou ideias, nações ou raças, paz ou guerra: existem negócios e o valor do dinheiro, corporações e monopólios que ditam o que se passa no mundo. Repare-se que Beale, na sua nova roupagem de profeta, diz as coisas mais incríveis sem ser incomodado. No entanto, a direcção da estação traça uma linha e cala-o quando começa a falar de um possível negócio entre a empresa que é dona da estação e a Arábia Saudita. Não se pode mexer com as leis fundamentais da Natureza: o bobo da corte pode falar do que bem entender, excepto da realidade. A televisão (e podemos projectar isto para qualquer meio de comunicação) ajuda a criar uma imagem desta realidade não muito diferente da alegoria da caverna de Platão. Beale, no filme, é a luz que projecta as sombras nos espectadores. Que se livre de de ser sério ou o informativo: o que interessa é o espectáculo. Não é isso que as pessoas desejam? Escapar de uma existência deprimente, onde aparentemente tudo está no limite?

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Nomeado para 10 Óscares, venceu quatro (um de argumento e três de representação, incluindo o primeiro Oscar póstumo da História, para Peter Finch). Perdeu o de melhor filme para Rocky, numa pequena ironia se tivermos em atenção o tema geral do filme. Network causou sensação na altura e o incidente que inicia o filme, o anúncio de um suicídio em directo, baseou-se num incidente real: em 1974, a jornalista Christine Chubbuck, sofrendo de depressão, cometeu esse acto enquanto apresentava o noticiário num estação de televisão local na Florida. Antes de pegar num revólver e encher a boca de chumbo, anunciou “Mantendo a tradição deste canal de estar na vanguarda das notícias com sangue e tripas, e em directo, apresento-vos uma novidade – uma tentativa de suicídio”. Mesmo que o canal nunca tenha mostrado posteriormente as imagens deste horrendo acto, Chubbuck apenas anteviu o que estava para chegar e aquilo que Network dramatizou numa ficção que é retrato da realidade. Estranho que seja uma daquelas obras-primas discretas, mas casa bem com o seu realizador. Sidney Lumet realizou alguns dos mais marcantes filmes do cinema norte-americano, num estilo discreto e de total entrega à narrativa. É ele quem, retirando-se, possibilita que a composição sinfónica de palavra que é o guião de Chayefsky brilhe e ressoe nos seus intérpretes. Faz brilhar a acção, nunca tenta protagonizar. Tal como os monopólios e conglomerados que parecem controlar a televisão, Lumet puxa os cordelinhos que seja muito notado.

E com essa discrição, qual Howard Beale lúcido, anunciou ao mundo que estava chateado como tudo. Plasmou essa raiva em cinema, criando assim um dos melhores filmes norte-americanos de sempre.

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.