Per amor vostro (Anna)

Per amor vostro (Anna)

Per amor vostro

Um dos filmes mais esperados da 9ª edição da Festa do Cinema ItalianoPer amor vostro (traduzido para Anna), foi apresentado por uma das argumentistas e pelo realizador, Giuseppe Gaudino, como uma história sobre as mulheres que não gostam de si próprias, que se anulam, que vivem a sua vida em função dos outros. Um estado que o realizador associou também a uma forma de estar tipicamente italiano.

A história de Anna Ruotolo, magistralmente interpretada (como sempre) por Valeria Golino, mulher de um agiota napolitano, Gigi Scaglione (interpretado por Massimiliano Gallo), num casamento violento, sem amor, com duas filhas e um filho mudo, que se relaciona de forma particularmente intensa com a sua mãe, Anna é contada desde a sua infância e acompanhada por uma banda sonora que, de alguma forma, faz lembrar os cantos de escárnio e mal dizer.

Desde criança, Anna é secundarizada na sua família e, para salvar o irmão de um crime cometido por este, é internada num colégio de freiras e afastada, durante anos, da sua vida. Voa, Anna, voa, enquanto umas asas de anjo a prendem por uma corda e ela salta de uma torre, como se um anjo descesse à terra: esta é a imagem que perpassa todo o filme. Anna, presa ao chão, que alaga à medida que o filme avança, afogando Anna nas suas preocupações e na vida, que esta não escolheu.

As cenas são entrecortadas com planos de ilusões e fantasias, desenhos que se iniciam num esquisso a preto e branco e rapidamente ganham cores garridas para o desenho de um novo capítulo na vida de Anna. Ela que durante décadas fecha aos olhos ao que sabe passar-se na sua vida, designadamente a vida violenta do seu marido, que destrói famílias e pessoas, para proteger a sua família, ela que abnegadamente faz o seu trabalho sem querer destacar-se para que ninguém repare que ela está ali.

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E enquanto o chão que a engole, o mar diante de sua casa que parece querer tudo levar, as pessoas no autocarro que parecem criticar, a todo tempo, Anna e as suas escolhas, esta vai-se deparando com o que pensa ser uma paixão incontrolável e que lhe traz, finalmente, uma razão para se escolher.

Há momentos em que as visões de Anna se imiscuem na sua realidade soturna, como o acompanhar da mãe a uma cave de uma igreja onde se velam e adoram caveiras, em agradecimento pelas bênçãos concedidas. O filme acaba por ser a narração das não escolhas de Anna, dos seus sacrifícios e da eterna questão: vale ou não a pena.

Imageticamente um filme muito bem construído, que varia entre o negro e as imagens demasiado coloridas, com uma banda sonora que vai do Quartetto Cetra a Haendel, numa beleza imensa das danças cantadas por Anna e os seus filhos, na que é, no fundo, a demonstração do amor maior de Anna.

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Lúcia Gomes

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