Flashback: Tropa de Elite

Flashback: Tropa de Elite

Tropa de Elite

José Padilha e Wagner Moura são os responsáveis por dois dos filmes brasileiros provavelmente mais vistos por esse mundo fora: Tropa de Elite. Numa sequela em que se pretende dar a conhecer o modo de funcionamento de um corpo de elite do exército, primeiro no combate ao tráfico de drogas e depois no combate à corrupção, este último fenómeno é tratado em ambos os filmes. Uma doença que atravessa muitas estruturas brasileiras, designadamente a polícia federal, a polícia militar, e destrói a missão de proteger e servir a população brasileira.

De um realismo impressionante, os filmes contam a história do eternizado Capitão Nascimento (pelo incrível Wagner Moura), uma espécie de farol de esperança e membro incorruptível das forças de segurança.

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E é essa sua característica que o torna precisamente alvo a abater pelo poder político. Depois de combater com sucesso o tráfico de droga da Favela do Alemão, usando muitas vezes da brutalidade e violência dos criminosos que combate, ao mesmo tempo que Padilha denuncia, brilhantemente, o papel das organizações não governamentais, populadas por «patricinhos» (os nossos «betinhos») e que muitas vezes não são mais do que um balão de oxigénio que permite que o sistema continue tão corrompido e tão podre, disfarçando com acções de caridadezinha, o Capitão Nascimento depara-se com o poder a sério: senadores e deputados, para manter o status quo e as coisas exactamente como estão, não olham a meios para impedir as investigações do Capitão entre governo e grupos paramilitares.

https://www.youtube.com/watch?v=YnoD92ytDcI

Até o Aspirante Mathias (André Ramiro), tão sagaz na sua análise social no primeiro filme, acaba por ser engolido pelas hierarquias e tornar-se numa outra ferramenta corruptora no segundo filme. De acordo com José Padilha «o filme trata da relação entre segurança pública e financiamento de campanha. Faz ligação entre a segurança e a política».

Nascimento, neste segundo filme, depois de resolver uma revolta na prisão (liderada por Seu Jorge, que faz de líder do Comando Vermelho, Beirada, na prisão Bangu 1) é nomeado para o cargo de Subsecretário de Inteligência da Secretaria Estadual de Segurança Pública do Rio de Janeiro. Aí, procede à reestruturação do BOPE – Batalhão de Operações Policiais Especiais ou, simplesmente, a Tropa de Elite -, aumenta o número de efectivos, moderniza o equipamento e melhora, substancialmente o combate ao tráfico,  na maior parte das favelas da Zona Oeste do Rio de Janeiro. Ao fazer isto, cria-se uma nova realidade, a das «milícias», com intensas ligações políticas e proveitos para os políticos corruptos que financiam drogas e armamento, em troca de votos.

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Mas, e na minha opinião, se Padilha conseguiu uma análise social densa com o primeiro filme, já no segundo toma tudo pela mesma bitola, pretendendo dar a entender que qualquer político poderia ser corrupto ou corruptor, deixando de lado uma história sangrenta da ditadura militar no Brasil, entre 64-85, com Castello Branco, Costa e Silva, Emilio Médici, Geisel e Figueiredo, ou a ditadura de Getúlio Vargas (1930 – 1945) da qual resultaram milhares de mortos, de desaparecidos e de exilados (como nos conta Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes, ou  Olga, de Jayme Monjardim, títulos do cinema brasileiro que aprofundaram a história das ditaduras mais severas da história mundial).

Hoje, que a realidade ultrapassa a ficção de Padilha, Wagner Moura sai da tela e junta-se à luta política enquanto aqui assistimos a mais um tristíssimo episódio que revela até onde o Brasil vai, mesmo com a memória de ditaduras ali tão perto.

* Artigo publicado aquando da aprovação impeachment da Presidente Dilma Rousseff pelo Parlamento Brasileiro

Lúcia Gomes

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