Dheepan

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Era muita a curiosidade para ver DheepanO pódio de Cannes 2015 já nos tinha dado A Lagosta, uma fabulosa distopia sobre a manipulação dos sentimentos, mesmo os mais extraordinários, como o amor. E, em O Filho de Saúl, o terror dos campos de concentração nazis com um misto de crueza e sensibilidade como poucas vezes o vimos. Faltava o ponto mais alto do pódio, a Palma de Ouro. E Dheepan deixa um travo de alguma desilusão.

Com o fluxo massivo de refugiados e migrantes dos últimos anos, Jacques Audiard traz-nos um filme profundamente actual. É a história de uma “família” proveniente do Sri Lanka e a sua integração em França, num bairro social onde o rastilho está prestes a explodir. Uma “família” criada à força, em que o “pai” é um antigo guerrilheiro dos Tigres do Tamil que, independentemente dos choques culturais em que a língua surge logo em primeiro plano, encontra um cenário de tensão mais próximo do país natal do que seria de esperar.

Dheepan

Se há alguma desilusão não é na essência das personagens. Como mostrou nos filmes anteriores, Audiard sabe construir a espessura dramática suficiente para entrarmos no interior dos protagonistas. E o problema também não está na possível condescendência ou simplismo do olhar de um Ocidental em relação ao Oriente. Dheepan mostra, de forma lenta, os laços criados entre esta “família” num espaço profundamente estranho. E como, sem grande rede de apoio e num microcosmos violento, funciona nestes bairros uma espécie de lei da selva.

Sem grande genialidade narrativa nem cenas antológicas, Dheepan é um filme interessante… até às últimas cenas. Com excepção do Profeta (talvez o melhor e mais equilibrado filme do realizador francês), parece que Audiard perde a mão no final dos filmes. As personagens tornam-se inconsistentes no desfecho de Ferrugem e Osso. E há uma opção de espectacularidade violenta e surrealista no final de De Tanto Bater o Meu Coração Parou que, tal como aqui em Dheepan (neste caso com uns toques mais sonhadores), soa muito forçada e… pouco espectacular.

Significa que Dheepan é um filme fraco e que não merece ser visto? Não. Mas, depois dos belíssimos O Filho de Saúl A Lagostaesperávamos algo arrebatador da Palma de Ouro atribuída, há um ano em Cannes, pelo júri liderado pelos Irmãos Coen. E isso esteve longe de acontecer.

6

João Torgal