The Nice guys (Bons Rapazes)

The Nice guys (Bons Rapazes)

Bons Rapazes

O título do filme é traduzido por Bons rapazes, mas os filmes de Shane Black têm pouco disso: os seus personagens são montinhos de defeitos, onde algures no meio brilha algum tipo de qualidade. Mesmo a sua incursão em personagens alheios, com Iron man 3, pega no mais imperfeito herói da Marvel, Tony Stark. É uma das essências dos seus guiões, malta que ou sabe que é má ou pelo menos luta com esses sentimentos, e ao longo da aventura, descobre qualquer coisa de bom ou uma espécie de redenção. É parte do código do film noir e dos romances de detectives das décadas de 40 e 50, que são a principal inspiração do argumentista e realizador.

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The Nice guys, o seu novo filme, é basicamente o que Shane Black faz melhor: histórias de detectives no limite entre o ódio e o amor, com atiram uns aos outros falas engraçadíssimas no meio de embrulhadas conspirações na Califórnia. Neste caso, estamos no final da década de 70 e uma mulher aparece morta num acidente de automóvel (algo recorrente também nos seus filmes). Tal despoleta dois casos, que se entrecruzam, assim como os seus detectives: o Jackson Healy de Russel Crowe e o Holland March de Ryan Gosling. Aqui estão dois tipos que nunca trabalhariam em conjunto, mas não por uma dinâmica de amor ódio: é mais um caso de agressão e medo. Crowe é bastante divertido explorando o seu ar e fama de rufião, passando uma genuína vontade em melhorar-se sem que tal afecte a nossa crença de que este é o tipo de homem com quem não gostaríamos de nos meter, porque existe algo de particularmente perigoso sobre ele. Este estilo casa bem com a abordagem de Gosling faz de um March caído em desgraça, nadando num mar de álcool devido a um trauma passado, abusando da emasculação e da comédia física. A sua moral questionável é apenas mantida em xeque pela sua filha, uma Angourie Rice que se inscreve numa das novas adições ao esquema Black: um pré-adolescente mais velho do que a sua idade, com uma frase engraçada e sarcástica na ponta da língua quando é preciso meter os adultos na ordem e uma noção da ironia do mundo.

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Juntos, navegam pelo mundo que Black constrói: tipos duros, capangas, assassinos, actrizes porno, conspirações descabeladas e sem sentido (por vezes, parece que o móbil de uma história é hiperbólico quase como se enquanto homenageia o género, Black quisesse em simultâneo parodiar estas histórias de detectives) e gente que diz coisas como “A mulher é tão cega que se pintasses um bigode num Cadillac, ela diria “Bem, o Omar Sharif conduz muito rápido”, e que fazem parte da fórmula. Ao contrário do citado filme da Marvel e do excelente Kiss kiss bang bang, não há tanto subversão como diversão: as drogas andam no ar e as alucinações propiciam informações fundamentais na trama, mas uma das mais divertidas cenas do filme envolve um antigo presidente norte-americano e uma engraçadíssima performance de Gosling, cujo contraponto à dureza e masculinidade de Crowe surge com um talento inusitado para a comédia física e que me fez desejar vê-lo mais vezes explorando o seu lado cómico.

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Te Nice guys tentar ser sério também, particularmente numa reflexão acerca dos excessos da América pós-Nixon, mas não é bem sucedido nesse capítulo, porque, e falando como fã, o mais interessante está nas desventuras de detectives e nas pequenas curiosidades, como ver Crowe e Kim Basinger juntos novamente depois de L.A. Confidential, um clássico moderno do género. Há arcos de personagem bastante interessantes, nomeadamente o de March, mas tal serve apenas para dar alguma seriedade aos acontecimentos claramente bizarros e criados com o propósito de nos baralhar, divertir e confundir, para no final entreter. O filme esteve muito tempo fechado numa gaveta, como projecto fetiche de Black, e apenas o bilião de dólares feito pelo terceiro Iron Man permitiu que saltasse. É um filme pessoal, no sentido em que é precisamente o cumprimento das fantasias blackianas. Assenta nos meus princípios que garantem o sucesso ou insucesso das obras anteriores: piadas engraçadas e referenciais, uma dupla de personagens que choca e causas faíscas do catano e aquele submundo detectivesco da era dourada de Hollywood transplantado para outro espaço temporal. Quando resulta, it’s a Shane Black Black. Quando resulta, é divertido para caramba; e The Nice guys resulta.

7,5estrelas

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.