Flashback: The Thin Blue Line

Flashback: The Thin Blue Line

The Thin Blue Line

Pode um filme mudar o mundo? Não, por muito que certos realizadores pós-modernos nos queiram convencer; mas em 1988, Errol Morris conseguiu o que de melhor se pode fazer a seguir: salvar a vida de um homem. Aquele que é hoje um dos grandes documentaristas do cinema mundial criou nesse ano The thin blue line, onde se propunha investigar o caso de um homem esperando pela morte numa prisão texana, acusado de ter assassinado um polícia. Bem antes de Making a murderer ou The Jinx ou mesmo do podcast Serial, todos produtos que têm estado bastante na moda pela sua mistura de caso real, investigação policial e puro entretenimento whodunit como se fossem thrillers que seguimos avidamente, existiu este filme, e nada mais foi o mesmo no cinema documental.

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Morris, que fazia uns biscates como detective privado em paralelo a uma carreira como cineasta, planeava a sua terceira obra depois do sucesso crítico de Gates of heaven e Vernon, Florida, que revelavam o seu gosto por personagens fora do comum mais do que assuntos importantes, sobre os pequeno pormenores que nos fazem humanos, sobre crença e sobre a verdade e as suas valências. Obras como Mr. Death, Tabloid ou Fast cheap and out of control marcariam esta tendência, que o levou a criar uma amizade com Werner Herzog, outro apreciador da idiossincrasias da personalidade. Foi este quem apostou que o norte-americano não acabaria o seu primeiro filme, avançando que comeria o seu sapato se Morris conseguiu. Herzog cumpriu a sua palavra, e nasceu uma amizade para a vida. A personalidade que atraíra a curiosidade de Morris fora James Grigson, um psicólogo usado recorrentemente em julgamentos de homicídios pela Acusação: o seu reflexo pavloviano de declarar qualquer homicida como um potencial psicopata cuja existência seria um perigo para a sociedade deliciava os juízes e jurados de estados com uma apetência singular pela pena capital. Foi nessa jornada que Morris se cruzou com o caso de Randall Adams, um simplório que fora considerado culpado pela morte de um polícia em 1976, quando fora mandado parar por ter um dos faróis do carro fundidos. Seguia com ele outro indívíduo, David Harris, que o acusou do assassinato. Outra testemunha no local não confirmou o relato, mas fez-se fé, e com isto, Adams estava à espera da execução quando Morris tentou falar com ele quase dez anos depois. Confessou-se inocente, mas isso todos dizem; foi apenas quando falou com Harris, que por essa altura, ironia, estava preso e também à espera de ordem de execução numa outra prisão, que se convencei que era este o culpado e que uma enorme injustiça tomara lugar.

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É curioso que um documentário que tenta fazer valer a lei tenha quebrado tantas regras do cinema documental para fazê-lo. Num era onde o género é novamente popular e inventivo, torna-se difícil perceber como é que The thin blue line foi revolucionário. Mas ao cortar com o estilo de cinema verité que dominava o género documental nessa altura, tornou-se anátema. Abdicou dos preceitos de naturalismo de estilo, da remoção de qualquer tipo de agenda pessoal, de ser uma câmara que filma a realidade sem intervir e sempre na torrente do quotidiano. Há no filme um cuidado estilístico deliberado, nas recriações da noite do crime e no uso de uma expressiva banda sonora de Philip Glass, como que conduzindo as emoções do espectador e a sua atenção. Os principais entrevistados no documentário, desde testemunhas a suspeitos, olham a câmara sob indicação de Morris, abdicando de qualquer tipo de não-influência. Vestem um padrão de cores constante, que os identifica: Adams, apesar de prisioneiro, enverga o branco da inocência; testemunhas falsas vestem um vermelho carregado de agouro e desconfiança, cor semelhante ao laranja que banha a sala onde Harris é entrevistado ; e desde o início que o realizador assumiu a sua crença de que Adams era inocente. É talvez um dos mais revolucionários filmes jamais feitos, virando concepções ao contrário, mostrando que mesmo o mais imediato e natural dos géneros pode ser tratado como um objecto de gosto. Tudo isto sem nunca fugir ao seu propósito de contar uma verdade, aquela que se revela ser afinal “a” verdade: usando factos e reencenando o crime mediante os pontos de vista das testemunhas de forma desapaixonada e deixando ao nosso intelecto a tarefa de concluir que o caso não faz sentido, que as provas e os relatos não batem certo.

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Mas o maior tabu que Morris quebra é aquele que torna o filme superlativo: o realizador abdica do monopólio da verdade que o cinema verité sempre alardeou: a câmara era um instrumento que procurava a realidade definitiva, caçando aquela definição lapidar e incomensurável do mundo. Neste documentário, no entanto, está tudo nas áreas cinzentas, no subjectivo, no facto de cada um ter os seus motivos e a sua versão dos factos e de, no fim de contas, ninguém se verdadeiramente dono da verdade, o que não significa que, algures, não haja uma razão final. The thin blue line fala da falência dos sistema judicial norte-americano partindo da nossa própria falência e limitação como seres humanos. Convida cada uma a expressar, a partir da aí a sua opinião sobre a validade da pena de morte. Quando a câmara, através da técnica de entrevista em que Morris deixa o entrevistado sozinho olhando-a de frente, é o confessor, é surpreendente o quanto actua como um local de psicanálise e terapia, onde cada um confessa o que normalmente diria, e é assim que o realizador alcança por fim o que realmente se passou em 1976: porque, relaxado, alguém se revela, num assomo desesperado de atenção, o que há muito queria dizer. As pessoas que desfilam à frente da câmara têm as suas necessidades de exposição e validação, desde a testemunha que fala sobre factos a que nunca assistiu simplesmente para ser apaparicada pela polícia até ao procurador que, por convicção, defende a Polícia como a “ténue linha azul” (que dá nome ao filme) protectora dos cidadãos, e para que um crime destes não acabe sem culpado, sacrifica Adams em prol daquilo que considera ser um bem maior. O comportamento humano move o filme, interessa-lhe até mais do que a própria investigação, e é a marca de Morris nos documentários contemporâneos, mais até do que a sua estética ou a técnica de entrevista que se viria a tornar de uso comum. A história torna-se tão fulminante que o seu final, onde apenas é mostrado um gravador passando uma cassete (visto que a câmara avariara no dia da entrevista e seria impossível remarcá-la) é tão arrepiante quanto qualquer expressão facial.

Graças ao documentário, Adams, que estaria para ser executado pouco depois da estreia de The thin blue line, viu primeiramente a sua pena comutada para prisão perpétua; após vários apelos foi libertado: um homem que estava no sítio errado, à hora errada, cuja carreira como pequeno criminoso e más opções o tornaram no bode expiatório perfeito. É um símbolo de todas as vítimas do sistema, um sistema imperfeito porque humano, e essa é a verdadeira conclusão a tirar. O verdadeiro homicida acabou por morrer, mas numa condenação relacionada com outro caso. Apesar do seu impacto, e de ter sido, provavelmente, o único filme no mundo a salvar alguém da morte, não foi nomeado para os Óscares, pelas liberdades que tomou com as convenções do género. Apenas em 2003, com o magistral The fog of war, onde entrevista Robert McNamara, um antigo secretário da Defesa norte-americano, convidando-o a reflectir sobre as suas decisões em tempo de guerra (e onde, cada vez mais, a noção de memória na verdade é perfeitamente inatingível), Errol Morris receberia o prémio, coisa pouca até para quem, seguindo uma meada muito nebulosa (como o nevoeiro da guerra), conseguira uma proeza quase única: revirar dois sistemas, sair vivo para contar a história, transformando sem esperar. O “detective-realizador” fizera o primeiro documentário, segundo a tagline, “do qual dependia uma vida”. Mas na verdade, a linha, azul ou não, não é aquela que prende a vida de um homem, mas que une todas as nossas imperfeições, preconceitos, julgamentos e desumanidades; e como todos os grandes filmes, é essa procura pelo ser humano, mais do que qualquer activismo político ou noção de Justiça e denúncia, que torna The thin blue line num dos filmes definitivos da História do Cinema.

Bruno Ricardo

Gosta de filmes e de Cinema, e num dia viu “The avengers” e “Waltz with Bashir”, e estranhamente nem morreu nem regrediu. Já foi confundido com um professor assistente de Cinema na FLUC, mas também com um sem-abrigo, e bem vistas as coisas, vai tudo dar ao mesmo. Escreve também no seu intermitente blog “Só temos as filas da frente” (www.filas-da-frente.blogspot.com), mas usa o verbo “escrever” de forma muito liberal em relação ao que produz.