O estranho caso do cinema não pago e premiado: o Leopardo de João Pedro Rodrigues e o seu Ornitólogo

O estranho caso do cinema não pago e premiado: o Leopardo de João Pedro Rodrigues e o seu Ornitólogo

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Não é um chorinho, não é um lamento, não é mais um artigo melancólico sobre os caminhos do cinema português. É uma denúncia. É uma crítica. É aviltante. Já todos estamos fartos de saber que há várias gerações de actores e actrizes, realizadores e realizadoras, técnicos, enfim, uma panóplia de trabalhadores do cinema que são absolutamente excepcionais e têm feito do cinema português uma referência mundial.

A arrebatar prémios pelo mundo fora, só não arrebata o público nacional porque raramente chega às salas, as distribuidoras continuam a apostar em leões da estrela e pátios das cantigas e a promover figuras que se transformaram em estrelinhas sociais e se auto-intitulam de actores e actrizes, sem nunca terem passado por uma escola de interpretação, sem nunca terem estudado nadinha de teatro e cinema, orgulhosamente criados (aos montes) nas múltiplas gerações de morangos com açúcar que poluem as televisões, o cinema, a música, enfim. E neste ciclo, empurram mesmo referências do teatro e do cinema e gente que sabe o que faz para estas produções, porque todos temos que pagar contas.

E, agora, Locarno enche jornais e feeds, rejubilando pelo Leopardo de Prata para o melhor realizador João Pedro Rodrigues com o seu filme, O Ornitólogo. Mas falta contar o resto da história. Por partes:

Em Locarno estavam 14 produções portuguesas: duas longas e quatro curtas a concurso, mais oito títulos fora de competição ou em sessões especiais. E, de Locarno,  O Ornitólogo seguirá para Toronto (8 a 18 de Setembro) e para a competição paralela Zabaltegi-Tabakalera de San Sebastián (16 a 24 de Setembro). A estreia comercial em França está prevista para 30 de Novembro, e, claro, não existe ainda previsão de estreia em Portugal.

Contudo, o ICA – Instituto do Cinema e do Audiovisual, entidade governamental que deu apoio financeiro à produtora Blackmaria permanece sem nada fazer quanto à grave violação que esta produtora (que sem pingo de vergonha chegou mesmo a parabenizar o premiado nas redes sociais) tem vindo a fazer, de há dez meses para cá: recebido o apoio do Estado (e nosso, por consequência), não paga ordenados a alguns dos trabalhadores, incluindo o realizador. E faltam ainda 30 mil euros dos apoios do ICA que, já agora, deveriam ser directamente entregues a estes. Coisa bonita não é?

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E mais, nas palavras do próprio realizador: Sim, nós chegamos aqui sem apoio. Há um apoio que existe para a internacionalização das obras de cinema português, que só pode ser accionado pela produtora do filme. E nós viemos sem que esse apoio tenha sido accionado, pelo menos até agora, que eu saiba.

Só a co-produção francesa permitiu a presença do realizador e de João Rui Guerra Da Mata, director artístico e designer de produção.  É uma coisa que normalmente todas as produtoras fazem, e penso que todas as produtoras que tinham filmes portugueses em Locarno o fizeram, para pagar as viagens, para pagar a estadia, para trazer a equipa. Vim eu e o João Rui porque os bilhetes nos foram pagos pela Film Boutique e pela produção francesa.

Houve várias pessoas da equipa que não foram pagas, há pagamentos em atraso. Isso tem a ver com o dinheiro que existe para o filme, com o orçamento do filme. É uma situação dramática e um pouco escandalosa, até falei nisso ontem quando recebi o prémio.

Mas sabem quem não fala disso? As televisões, a generalidade da imprensa (honrosas excepções), as redes sociais, o ICA e o Governo. O realizador denuncia, denunciam os trabalhadores, denuncia o director artístico e denuncia o sindicato CENA. E agora denunciamos nós.

Porque o cinema só se faz se houver investimento. Porque o cinema só se faz se quem o faz for pago. Porque o cinema só se faz se for visto. E porque, por cá, nós gostamos muito do João Pedro Rodrigues e do João Rui Guerra da Mata e do trabalho deles e não imaginamos o cinema sem eles.

E para lá de os homenagearmos, queremos ver o cinema que fazem, que é a maior homenagem possível.

Lúcia Gomes

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