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9, de Shane Acker, 2009

Um filme de Animação não é objectivamente um filme para crianças. Desengane-se quem olha para bonecos animados como se olhasse para infantilidades adequadas a crianças até aos 12 anos. Há muito tempo que a animação cresceu, passou a juventude e atingiu a maioridade, prolongando-se pela idade adulta de forma coesa.

9 é a continuação de um projecto do inexperiente Shane Acker, escrito e realizado pelo mesmo. Estamos a falar de um realizador cuja experiência mais marcante da sua carreira foi ter participado nos efeitos especiais do 3º filme do Senhor dos Anéis. Não é um demérito, obviamente.
9 inicia-se como uma longa metáfora, repleta de pequenas metáforas. Existe uma clara analogia no ensinamento e aprendizagem do personagem principal como um bebé humano, um redescobrir de novas sensações e capacidades. O mundo, esse é tipicamente pós-apocalíptico, onde o ser humano já não habita, só as suas criações. A metáfora aqui presente é incrivelmente profunda. O ser humano corrompeu-se de tal forma que deixou de existir, mas deixou no mundo um legado indestrutível, o das máquinas. Mais uma vez falamos de máquinas com conotação “Metropolis” ou “Blade Runner“. Máquinas capazes de sentir, criar, transmitir… Máquinas que têm melhorias face aos seres humanos, mas muitos dos seus erros. Uma clara mensagem de que o ser humano não é um ser perfeito, tal como nunca poderá ser uma criação sua.
O personagem principal transmite-nos claramente o seu medo perante um mundo destruído e cheio de maldade.
A imagem de uma mulher e da sua criança mortas transmite todo o sentimento geral: desolação e destruição.
O facto dos personagens não terem nomes mas sim números é um dado curioso, mas bastante intencional. A definição humana sempre nos perseguiu ao longo da nossa existência. Se temos nome então podem seguir a nossa vida. A numeração não altera esse facto, mas torna-os um fabrico em série, transmitido de forma metafórica para os “bonecos”.
A fotografia, baça e meio escura, torna o ambiente do filme algo “steam punk”, repleto de mistério da idade das trevas, numa fusão perfeita do que é a destruição e o desconhecido. A realização, essa, é sempre atenta, tanto na forma como se movem os personagens, como na introdução e descrição visual dos locais.
Os pontos negativos do filme? A aproximação exagerada do quotidiano e reacções dos “bonecos” aos seres humanos; a descrição de acontecimentos passados, que nos retira a hipótese de filosofar sobre o acontecimento, demonstrando-nos assim o óbvio e desinteressante.
Se há um interesse particular de representar não seres humanos, mas sim bonecos, com semelhanças e características idênticas ao do próprio ser humano, então qual o propósito de tudo isso? O erro deste e de outros filmes é o de tornar a máquina/boneco o próprio ser humano. A criação do homem é imperfeita, mas nunca igual a si próprio. Podemos atentar este último facto em filmes como “Blade Runner”, “Terminator” e “Metropolis”, onde embora as máquinas sejam construídas com semelhanças humanas e com propósito de ultrapassarem os próprios humanos, não possuem o dom fulcral do sentimento, o dom do perdão e do arrependimento, ou seja, a capacidade de reflectir racionalmente sobre um erro ou situação errada.
Este é um grande erro de 9. O erro da absorção equiparada de sentimento análogos do ser humano.
Contudo, o imaginário de 9 é algo incrível. Apesar da reciclagem ideológica e visual, existem algumas inovações e picos de criatividade, como quando um personagem é sugado por uma máquina desconhecida. Toda a trama que advém dessa acção é sem dúvida criativa e interessante, tal como as criaturas criadas.
Fantástica também é a relação dos bonecos com a alma do criador, como sendo parte de um todo que é o ser humano.
A cena final onde as almas se libertam, libertando também o mundo, demonstra uma clara relação da nossa humanidade com a própria natureza, apontando um caminho para a morte, o de que as almas regressam à Terra, à natureza que as criou, voltando a criar vida, e com ela esperança.
9 é sem dúvida um bom filme, que apesar de reciclar conceitos e ideologias já muito usados, fá-lo de forma original, sendo criativo em certos aspectos.
Um claro sinal de que o cinema de animação está a mudar, não se chama Disney, e tem muita qualidade.


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Texto por João Miguel Fernandes

Arte-Factos

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