127 Hours

127 Hours

127 Hours, de Danny Boyle, 2010

Danny Boyle tentou criar uma viagem épica pelos caminhos da sobrevivência humana extrema à maneira de “Into The Wild” de Sean Penn. Esqueceu-se porém do conteúdo.
Estamos perante uma tentativa de recriar o sofrimento humano no seu expoente máximo, numa situação catastrófica e sem qualquer solução à vista. Boyle explora a forma como o ser humano, neste caso Aron Ralston (James Franco), tentaria sobreviver de uma situação mortífera claustrofobica.
O erro de Boyle vem logo ao inicio. Sem qualquer apresentação do personagem, o filme começa com Aron a sair de casa e a preparar-se para ir fazer um passeio pelas montanhas. A câmara acompanha todo este seu processo, dividindo o ecrã em três partes diferentes, uma técnica de realização cada vez mais usada mas que serve de pouco mais do que tentar fazer algo diferente sem que tenha um grande objectivo. Sem qualquer apresentação, o personagem segue então para as montanhas onde conhece duas desconhecidas. Aí serve de guia e diverte-se com as miúdas. Após breves minutos, o personagem fica novamente sozinho e caí num buraco, ficando com a mão presa numa rocha. Daí para a frente o filme só piora. Durante uma hora nada mais temos que o personagem a tentar libertar-se da rocha, a lembrar-se de cenas familiares que não têm qualquer nexo nas cenas em questão, visto que não nos dizem nada. Que sentimento pode provocar em nós ver o personagem principal, do qual não sabemos praticamente nada, a lembrar-se de momentos com uma suposta namorada, com os pais e com a irmã? É impossível sentir algo por estas cenas a não ser um grande aborrecimento. Mas Boyle tenta arriscar na realização e novamente os seus fast forwards e zooms são postos em prática, resultando numa chatice ainda maior.
Confesso que a alteração de cenas entre o personagem principal e os seus desejos, tais como de bebidas, aparecendo partes de anúncios a Fanta, são cenas bastante inteligentes, se tivermos um contrato de publicidade com as bebidas em questão. Claro que o fã acérrimo deste filme vai contradizer tudo isto e referir que estas cenas servem para demonstrar o desespero do personagem e a vontade humana pelas necessidades básicas. Pois…
É óbvio que um filme baseado em algo real tem que seguir certas regras de argumento, porém há várias formas de mostrar o mesmo significado.
A 20 minutos do fim somos presenteados com uma cena digna de um qualquer filme do Saw. Talvez a intenção do realizador tenha sido a de demonstrar a crueldade da situação, o desespero de um personagem que prefere cortar o próprio braço a ficar preso naquele local. Claro está que Danny Boyle teve que criar esta cena envolta num visual de violência pura e cruel, com o intuito de chocar. Tendo em conta que em todos os filmes de Boyle podemos ver várias cenas de choque, produzidas apenas para o efeito de criar sensações, podemos dizer claramente que de conteúdo esta cena tem pouco. Violência grátis e sem qualquer conteúdo é igual a promoção barata. Sim, o sofrimento do personagem é imenso e temos aqui um retrato bastante real do desespero humano. Mas isto é interessante? Não.
Um filme que tenta ser sensacionalista, nada mais. Boyle esqueceu-se de que para se fazer um filme é preciso fazer mais do que o óbvio, criar conteúdo interessante e um argumento desafiante. É verdade que por vezes a simplicidade resulta, mas aqui não resulta absolutamente nada.
Melhor parte do filme? A música de Sigur Rós.
Danny Boyle só tem um grande filme até à data, chama-se 28 dias depois, e tudo o resto é palha.

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Texto por João Miguel Fernandes

Arte-Factos

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