Mão Morta no TMN Ao Vivo (01/10/2011)

Mão Morta no TMN Ao Vivo (01/10/2011)

Os Mão Morta iniciaram ontem, num sábado calorento, a sua tournée de promoção do novo registo, chamada Pelux in Motion, na sala TMN Ao Vivo, em Lisboa.

Começamos com “Tiago Capitão”, do álbum mais recente, Pesadelo em Peluche, disco cujas letras revolvem em torno do texto “A feira de Atrocidades” de J. G. Ballard.  Som agressivo e ao mesmo tempo melancólico que põem toda a gente a imitar Adolfo Luxúria Canibal, que levanta um braço no ar, enquanto diz “Vamos em frente, olho por olho, dente por dente, ó capitão!”, incontáveis vezes até ao fim da canção.

“Aum”, já datado de 1988, do LP Mão Morta, começa pouco depois, e é a música que mais se coaduna com as névoas que vão saindo do palco, toldando um ambiente frio e escuro na sala. As luzes tambem estão baixas, mal se vê a cara dos elementos da banda. E é uma bela junção com as batidas a puxar a veia do gótico. Mais uma vez, o final é repleto de frases de protesto, neste caso “O tempo não espera por mim!”, que é subtilmente alterado por “por vós”.

“Tu Disseste” é talvez uma das figuras de proa no repertório da banda de Braga. E o público reconhece isso facilmente, enquanto acompanhava o diálogo entre Adolfo e si próprio de “Eu perguntei: O que é que isso Interessa? E tu disseste: Nada!”, dando os presentes ênfase à palavra final. É um regresso ao início dos anos 2000, mais propriamente a Primavera de Destroços.

“Destilo Ódio”, deu largas a um dos momentos mais sombriamente crepitantes da noite. A repetição escarnecida e inflamada com que Adolfo faz ecoar na sala o título da faixa, fazem-nos transportar para a fase mais antiga da banda, que remonta ao LP de 1990, Corações Felpudos.

Adolfo faz uma pausa no set para nos falar sobre uma banda alemã dos anos 80 que tinha uma canção muito interessante. Sobre uma rapariga, intelectual, com saúde e que visitava uma galeria de arte toda branca, e por que, por ser  intelectual, não estava prevenida para a chegada da fase menstrual. E que então, ele já gostava de ter escrito aquela música que estávamos prestes a ouvir, há muito tempo. A música era “Fazer de Morto”, do mais jovem álbum.

“Novelos da Paixão” continua com a viagem por Pesadelos em Peluche, já num tom mais dançante e, na medida dos possíveis, mais alegre. Ressalve-se o fantástico artwork que vamos vendo no painel gigante por detrás de banda, com várias imagens de ilustrações, que mostram peluches com ossadas de fora, ou ensanguentados.

Toda a banda é competente, soltando um som que nos transporta a vários lugares, ora calmo, ora berrante, mas é de facto, na figura de Adolfo Luxúria Canibal que se centra toda a atenção. Ele não se limita a fazer vocalizações para uma mão-cheia de canções. Ele sente as palavras e entoa-as, sem recorrer a esmerados cantos melódicos. Ele imprime na música, a chamada emoção. Sentimos o ódio, sentimos a paixão, sentimos a loucura, sentimos a depressão. A revolta, que não se coíbe de gritar. É o contador de histórias que ao mesmo tempo emana uma aura de quem acabou de sair de um manicómio interior.

Na canção “1º de Novembro”, o público entoa  cânticos, enquanto que sorrateiramente uma bailarina de dança do ventre se esgueira para o centro do palco, dando um novo impulso a concentração dos olhares naquele espaço de poucos metros quadrados. Com um traje encarnado, abana as ancas ao som dos tons pesados que se ouvem. É um momento em que provavelmente, muitos olhares se desconcentram da banda em si, para este novo elemento fátuo.

Para o final, a banda sai de cena, por três vezes, voltando sempre para “mais uma”, ou “mais duas” como pede o público voraz.  Um êncore a triplicar, mas que tem que terminar, e que melhor maneira do que com “Anarquista Duval”.

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Setlist:
1. Tiago Capitão
2. Aum
3. Tu disseste
4. Velocidade escaldante
5. Destilo ódio
6. Véus caídos
7. Fazer de morto
8. Novelos da paixão
9. Berlim
10. Paris
11. Teoria da conspiração
12. Escravos do desejo
13. E se depois
14. 1º Novembro

Encore 1:
15. Tetas da alienação
16. Vamos fugir

Encore 2:
17. Charles Manson

Encore 3:
18. Anarquista Duval

Texto por Andreia Vieira da Silva
Fotos por Hugo Rodrigues

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