Entrevista a José Filipe Costa

Entrevista a José Filipe Costa

José Filipe Costa é um realizador português, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho. Doutorado pelo Royal College of Art, em Londres, possui ainda um em mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade Nova de Lisboa. Realizou o filme Entre Muros, de 2002 (exibido na Competição Internacional do Cinéma du Réel 2003, em Paris, e no Festival dei Popoli 2003, em Florença) e as curtas-metragens Domingo, de 2005 (exibida no Hamburg International Short Film Festival 2005, no Festival de Curtas Metragens do Rio de Janeiro 2005 e no canal franco- alemão Arte) Undo, de 2004 e A Rua, de 2008. O autor do livro O cinema ao Poder! é, actualmente, professor de cinema e produção audiovisual no Instituto de Artes Visuais, Design e Marketing .

Falámos com ele a propósito do seu mais recente trabalho, o documentário Linha Vermelha, que recorda a ocupação da herdade Torre Bela retratada pelo filme homónimo de Thomas Harlan. Ainda pudemos fazer uma leve abordagem ao estado do cinema português na actualidade e ao reconhecimento obtido pelas películas nacionais no mercado cinematográfico.

Não é estreante no mundo dos festivais internacionais, mas este ano ganhou o prémio de Melhor Filme Português no Festival IndieLisboa 2011. Esperava tamanho reconhecimento?
Um prémio é sempre algo de inesperado. Contribui para dar visibilidade ao filme, não apenas ao Linha Vermelha, mas também ao Torre Bela, de Thomas Harlan.

Como se sente por ter recebido um prémio que reconhece o valor do cinema português?
É sinal de que a produção cinematográfica portuguesa está numa fase feliz. Basta olhar para o número de filmes portugueses em cartaz presentemente, o que traduz uma interessante diversidade de géneros, de pontos de vista e de modelos de produção.

Considera que a qualidade das películas portuguesas aumentaram, ou o mercado cinematográfico tem aberto horizontes às produções nacionais?
Acredito que existe uma crescente curiosidade pelo olhar que é veiculado pelos filmes portugueses. É um olhar que se liga à história e à geografia do país e também a uma forma particular de construir as imagens. A abertura de horizontes tem também a ver com a forma como nos últimos anos se foram formando públicos diferentes através da acção de festivais como o IndieLisboa ou o DocLisboa. Para esse interesse terá contribuído, por outro lado, a dinâmica dos cineclubes e a apetência de auditórios municipais pela passagem de filmes portugueses. Apesar do investimento estatal no cinema ter vindo a diminuir num passado recente, é preciso não esquecer que tudo isto é possível por causa desse apoio fundamental.

Como professor de cinema e produção visual, o que é, para si, Torre Bela? Um documentário ou uma trama ficcional?
O documentário, seja ele qual for, tem muitas vezes uma estrutura comum a uma ficção. Tem personagens, um arco narrativo e pequenos “sub-plots”. A forma de organizar os materiais é comum às ficções e documentários. E Torre Bela não é nisso diferente.

Quais foram as suas principais preocupações ao realizar Linha Vermelha?
A preocupação era rememorar, confrontar-me e confrontar os protagonistas com as memórias, mesmo que estas às vezes causassem desconforto ou um certo mal-estar. Slavov Zizek diz que “os traumas históricos que não estamos prontos a enfrentar continuam a assombrar-nos ainda com mais força”. Reprimir estes traumas não nos faz esquecê-los. Pelo contrário, continuam a fazer o seu trabalho, a assombrarem o presente.

Foi difícil reunir os protagonistas e a equipa?
Reunir os protagonistas e a equipa exigiu tempo e dinheiro. Daí a necessidade do apoio financeiro do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) para a prossecução do projecto. O tempo longo de maturação de um documentário solícita mais tempo para investigação e para criar relações de confiança entre quem é filmado e quem filma. Foram também necessários meios e tempo para viagens: fizemos duas entrevistas a Harlan na clínica de doenças respiratórias onde ele viveu muitos anos. Entrevistamos o montador do Torre Bela em Itália, no laboratório em Roma, onde o filme foi montado, e passámos algumas semanas nas aldeias à volta da herdade de Torre Bela. Houve mesmo uma fase que quase não filmámos. Nessa altura, com o Pedro Pinho, que realizou parte do trabalho de câmara, dedicámo-nos a encontrar os ocupantes nas aldeias e a discutir as várias possibilidades de inclusão de alguns deles no filme, os que tinham tido menos visibilidade e que estavam nas multidões que se vê nas imagens do Torre Bela.

Como foi reencontrar antigos colegas e figuras com quem já não contactava há tanto tempo?
Fazer o filme foi também uma maneira de colocar em contacto pessoas que já não se viam há algum tempo. Ou seja, eu ia encontrando os protagonistas do filme e as suas equipas e iam falando entre si, dando notícias sobre onde é que cada um se encontrava. Foi também um modo de rememorar e de reactivar uma energia afectiva que os ligou – e liga – uns aos outros.

Acha que o seu filme se pode ver independentemente de se ter visto Torre Bela ou, pelo contrário, são indissociáveis um do outro?
Eu e o João Braz, o montador do Linha Vermelha, tivemos o cuidado de fazer um filme que não necessitasse do visionamento obrigatório do documento em que ele se baseia. Mas é sempre interessante que o espectador veja os dois objectos para estabelecer relações entre um e o outro.

Preocupou-se em seguir a mesma linha de Torre Bela, ou o seu filme envereda por outro caminho sendo, por isso, mais complexo?
Adoptámos, no início, um registo observacional semelhante ao da equipa de Harlan e depois o filme tomou um rumo mais auto-reflexivo, com entrevistas, com a integração de vários extractos de outros filmes de Luís Galvão Teles e de Vítor Silva, fotografias e textos. Mas isso não quer dizer que seja mais complexo, tem apenas a ver com a forma de abordagem adoptada.

Linha Vermelha estreou em Portugal a 12 de Abril. Espera uma boa aceitação por parte das bilheteiras portuguesas?
Assim seja!

O que é que Linha Vermelha veio trazer de novo?
Isso é algo a que só poderei responder daqui a algum tempo, olhando em retrospectiva, tal como o filme faz com o Torre Bela.

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Linha Vermelha continua em sala em Lisboa, Porto, Coimbra e Azambuja e já confirmou mais 20 cidades em todo o país para sessões especiais.

Entrevista por Elisa David

Arte-Factos

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