Rock In Rio - 2º dia (26/05/2012)

Rock In Rio – 2º dia (26/05/2012)

Texto por João Miguel Fernandes / Fotos por Hugo Rodrigues

No dia de consagração dos anos 90/início de 2000, o público português aderiu em massa, esgotando qualquer cm2 possível do recinto. Alias, foi incrível ver a quantidade de gente presente para ver o primeiro concerto da tarde no Palco Mundo, possivelmente até mais gente do que para assistir a Metallica no dia anterior. Contas à parte, este segundo dia foi claramente superior ao anterior. Não houve nenhum concerto fraco no Palco Mundo e os dois melhores concertos do Rock in Rio até à data aconteceram neste dia, Smashing Pumpkins e Limp Bizkit. Não querendo deixar Linkin Park de fora, que também deram um belo concerto.

Os concertos começaram no palco da Vodafone com os Larkin de Viana do Castelo. Banda com influências de Refused, fazendo por vezes lembrar os lisboetas I Had Plans. Já com alguma escola de concertos ao vivo, isso nota-se na pose que têm em palco. Carregaram baterias como se estivessem a dar o concerto das suas vidas e isso resultou da melhor forma, oferecendo um grande espectáculo a quem estava a entrar no recinto.

Os Larkin foram a banda ideal para abrir a tarde, com garra e energia descomunal, foi portanto uma aposta ganha por parte da Vodafone.

É pena que tivéssemos de esperar quase uma hora para o concerto seguinte, mas, à hora marcada os Murdering Tripping Blues entraram em cena, também no palco Vodafone. Com o seu toque de blues, os lisboetas conduziram bem a sua música, apoiada em influências de White Stripes, principalmente no instrumental. Com pouco tempo para actuarem, a banda encheu a entrada do recinto de boa música, dando uma pequena amostra do que são capazes de fazer. Ficou-se com vontade de ver mais.

19 horas e o recinto já estava com mais pessoas do que na noite anterior. Estivessem ou não ali para ver os Limp Bizkit, a verdade é que o público esteve em êxtase durante todo o concerto e, isso ajudou a criar um enorme espectáculo. Assim que Fred Durst entrou em palco gritando “if only we could fly”, o público entrou num delírio que só acabou no final do concerto. Velho ou não, Fred Durst soube agarrar o público como poucos sabem. Sem se mexer muito, mas sem precisar, cativou a enorme audiência durante todas as suas músicas, elevando o nu metal mais uma vez ao topo, em pleno ano de 2012.

Consta por aí que o concerto do Pavilhão Atlântico não teve nem meio gás do que este teve. Não sabemos o que andou a tomar Fred Durst, mas se olhássemos bem em volta parecia que estávamos no ano 2000.

A escolha de músicas também foi inteligente por parte da banda, que soube além disso criar grande empatia com o público, cantarolando músicas de Offspring e Linkin Park. Fred Durst, bem ao seu jeito, lançava umas bocas ao público e misturava-se com o mesmo. “My Way” e “Break Stuff” foram tocadas de forma pesada, concisa e directa, como se não tivessem passado mais de 10 anos.
E se as duas músicas anteriores levaram as milhares de pessoas que passaram naquele recinto ao rubro, que dizer de “Take a look around”? Música oficial do filme Missão Impossível 2. Quase que arrepiava ver tanta gente a saltar, levada à loucura por uma música que marcou uma geração.

Para terminar, nada melhor que “Nookie”, do álbum “Significant Other” e a sempre brutal “Rollin”.

Resultado final: Os Limp Bizkit deram o melhor concerto do Rock in Rio a par dos Smashing Pumpkins. O revivalismo do nu metal confirma-se perante a forma como o público reagiu a cada êxito. Seja um estilo em decadência ou não, a verdade é que o nu metal conseguiu trazer cerca de 82 mil pessoas ao Rock in Rio, e os Limp Bizkit responderam na mesma moeda, com um concerto bem aos anos 2000, cheio de energia e emoção. Assim vale a pena!

Entre concertos, tempo para dar novamente uma vista de olhos no palco da Vodafone, desta vez para assistir aos Youthless, esse duo que para o Rock in Rio se tornou num trio. Com o seu estilo habitual, bem gozão e brincalhão, os Youthless agradeceram o convite para estarem neste festival, referindo que era a primeira vez que estavam no Brasil. Quem os conhece sabe que é pura brincadeira e que este duo Português/Inglês conhece melhor Portugal que muitos nativos. Brincadeiras à parte, os Youthless investiram forte no som, com um volume bastante elevado e alguns problemas técnicos, nomeadamente a nível de microfones. Com a particularidade de ter apenas um baixo e bateria, tendo em conta que é o baterista que canta, a surpresa é geral. Mas isso resulta muito bem. A banda é já bem conhecida pelo seu rock, bastante inventivo e sempre bem-humorado, conseguindo animar os poucos que se juntaram ao palco Vodafone.

Estão velhos mas não estão acabados. Com pouca conversa mas muita música, os The Offspring souberam, tal como os Limp Bizkit, como “apanhar” o público. Primeiro acertaram na setlist, sem inventar, deram um banho de êxitos ao público. Faltou pouca coisa e não houve músicas “estranhas”, o que só ajudou à performance confiante da banda.

Como se os anos 90 tivessem sido ontem, as mais de 80 mil pessoas presentes no Rock in Rio aplaudiram os The Offspring e vibraram música após música com aqueles êxitos que marcaram a juventude dos agora bem trintões.

Pegando no “Americana” e misturando-o com o resto dos êxitos, não foi preciso falarem muito nem mexerem-se mais, os The Offspring foram os maiores em cada música que tocaram. Foi impressionante assistir à forma apaixonada como o público reagiu e cantou emotivamente cada música. “Eu ouvi tantas vezes isto em puto”, dizia um homem com os seus trintas.

Os The Offspring continuam a ser a banda que os fãs sempre gostaram, com menos energia, mas com a mesma dedicação. As músicas continuam intactas no tempo e em 2012 continuam a ser grandes. Fã ou não, há que reconhecer o trabalho de uma banda que transformou o punk em algo mundial e o levou a quem nunca tinha ouvido punk-rock.

Podemos referir que os Limp Bizkit e os The Offspring foram bastante aclamados e que cada música sua foi sentida fortemente pelo público, mas os “reis” da noite para a maioria das pessoas eram os Linkin Park.

A provar que o nu metal está mais vivo do que parece, os Linkin Park apostaram numa setlist brilhante, tocando maioritariamente músicas do seu primeiro álbum “Hybrid Theory” e do “Meteora”. Além de diversificarem o conceito de concerto, visto que vieram cá várias vezes em poucos anos, os Linkin Park ofereceram assim aos seus fãs mais antigos um belo presente. Para quem como eu comprou o “Hybrid Theory” com uns 12 anos de idade, sabe bem o que é sentir aquelas músicas ao vivo.

Engrandecidos pela voz e alma que Chester Bennington empresta à banda, assim que variam o tom para algo em que o cantor não berre ou pouco cante, os Linkin Park tornam-se uma banda de rock quase comum.

Para mais de 80 mil pessoas este foi o concerto da noite, onde a banda americana suou muito, agradeceu ao público português, elevou o cachecol do Futebol Clube do Porto (em erro, porventura) e criou ainda mais amor entre eles próprios e Portugal. Acima de tudo os Linkin Park cumprem bem o seu papel. Não são uma banda que espante ou encante um não-fã, mas também não falham em nada. Chester Bennington é um grande vocalista, com uma grande voz e os Linkin Park ainda têm grandes músicas. Foi um belo concerto.

Mas o concerto da noite, e até agora do Rock in Rio, estava guardado para último lugar. Assim que acabaram os Linkin Park foi assistir a uma debandada geral.

Os Smashing Pumpkins têm uma legião devota de fãs em Portugal. Não precisam de conquistar novos fãs nem de agradar a mais ninguém. Não conseguem atrair as massas que os Linkin Park ou The Offspring atraiem, mas conseguem chamar para si fãs como existem poucos, aqueles que os acompanham quase desde 1988.

Billy Corgan é um dos deuses da música dos anos 90. Actualmente continua a ser um grande ícone que carrega aos ombros uma banda que já não é a sua, mas sim uma nova banda com o mesmo nome. Por sorte conseguiu juntar bons músicos, extremamente capazes de recriar as experiências criadas pelos antigos membros dos Pumpkins.

Elevado ao estatuto de deus, Corgan chegou ao palco como é hábito, calado, quieto, sem grande festa. Assim que pegou na guitarra arrancou com o concerto, que é para isso que ele ali estava. E foi com “Zero”, um dos maiores êxitos, que a banda arrancou para um espectáculo épico, que de seguida teve desde “Today” até “The End is The Beginning is The End” (oportunidade rara de ver esta música ao vivo).

Até à primeira música do novo álbum os Pumpkins não pararam. E embora estivesse menos gente no recinto, os que lá estavam, que ainda eram muitos, vibraram loucamente por cada música com o cheiro do rock dos anos 90.

Com as duas novas músicas o ritmo abrandou um pouco, mas não tardou a rebentar de novo com a belíssima “Tonight, Tonight”, interpretada de forma sentida por Corgan. “Ava Adore” e “1979” deram aos fãs aqueles arrepios convencionais de quem vai ver a sua banda preferida e, “Cherub Rock” e “Muzzle” encerraram de forma perfeita o primeiro conjunto de canções, antes do encore.

“Disarm”, uma cover de David Bowie (Space Oddity”) e duas surpresas. A primeira é uma música para os fãs do antigamente, para aqueles que sabem todas as letras, “X.Y.U.”, a segunda foi uma cover dos Kiss, cantada pelo jovem baterista da banda.

Os Smashing Pumpkins são uma das bandas em actividade mais importantes do mundo. Marcaram fortemente os anos 90 e as gerações que se seguiram, criando em torno de Billy Corgan uma espécie de adoração. No Rock in Rio deram o melhor concerto do espectáculo até à data. Demonstrando que os anos 90 ainda têm muito a ensinar às gerações actuais, no que toca a qualidade e técnica musical.

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