Top 10 de 2012 por Carlos Pinto

Top 10 de 2012 por Carlos Pinto

Chega Dezembro e chega aquela altura do ano que as pessoas como eu mais gostam. “Ah, claro, é Natal” – pensam vocês. Mas a realidade é outra. Final do ano é a altura em que geeks e aficionados por listas – como eu – rejubilam de alegria por poderem comparar as suas com as dos outros, discuti-las e provavelmente mostrar o quão eruditos e ecléticos são. Pois bem, chega o final de 2012 e, seguindo as regras da casa, cá está o meu top final de “melhores/mais relevantes” dos últimos doze meses. Não se enganem, esta lista não é estanque e, muito provavelmente, amanhã já seria ligeiramente diferente. Também fica a ressalva para o facto de ainda não ter ouvido muitos discos editados este ano e a relação com o cinema, já sabemos, é sempre difícil, pois grande parte dos filmes de 2012 só terão distribuição cá, lá para meio/fim do próximo ano. Bem, sem mais conversa, aqui fica o meu top de 2012.

Neurosis - OM

#10 Neurosis / Om
Basta uma razão para os Neurosis estarem em qualquer top de fim de ano, editarem um disco. Mas pensando melhor, nem é necessária nenhuma razão, basta que existam. Este ano deram-nos Honor Found In Decay, um disco que não tem o mesmo impacto na primeira audição, que têm, provavelmente, todos os outros do grupo, mas que esconde momentos extremamente refinados e a par daquilo a que Scott Kelly, Steve Von Till e companhia, nos habituaram ao longo de 20 anos. Quanto aos Om, este é o disco mais completo do trio. Perdoem-me os mais puristas, mas desde que contam com o Lichens eles são bem melhores que no início, bem mais ricos musicalmente e não fazem músicas que são apenas enormes mantras. Este disco é mesmo para contemplar. Estejam no vosso quarto, nas ruas cinzentas numa tarde chuvosa ou mesmo a conduzir numa paisagem quente e desértica.

Shut Up And Play The Hits

#9 Shut Up And Play The Hits
Confesso que cheguei tarde aos LCD Soundsystem. Só no final de 2008 resolvi ouvir o disco que tanta gente dizia ser dos melhores do ano anterior – Sound Of Silver. Uma audição e voilá, fiquei fã do grupo liderado por James Murphy. Dois anos depois editam o terceiro disco, This Is Happening e o mentor decide acabar com o projecto. O funeral fez-se em jeito de celebração – como todos deveriam ser? – e, Shut Up And Play The Hits é o filme-concerto que mostra o enterro e o dia seguinte na vida de Murphy. Existem cenas que parecem ficcionadas, é verdade, mas ainda assim, James Murphy parece ser mesmo aquele gajo gordo, um bocado apático, melómano e cheio, cheio, cheio de dúvidas… Será que os LCD Soundsystem ainda voltam?

Mastodon

Foto por Cláudia Andrade

#8 Mastodon – Coliseu dos Recreios
Que dizer dos Mastodon? Gosto deles desde o primeiro disco, é um amor que resistiu ao tempo portanto, e como todos os amores, teve um início em que ardeu mais fortemente – Remission / Leviathan – uma fase mais moderada – Blood Mountain – e ressurgiu com força perante o reconhecimento de um amor que está lá há alguns anos – Crack The Skye. São 10 anos a aturar um amor e isso (quase) nunca é fácil. Logo no início do ano vieram a Lisboa apresentar o último disco – do qual confesso não ser tão grande fã e nem sequer sei o seu nome… O grupo norte-americano já tinha visitado o nosso país um punhado de vezes e eu nunca os tinha visto. Como justificar tal coisa? Bem, sempre achei que a primeira vez com esse amor teria de ser especial e de facto, penso que, só assim fez sentido ver a banda. Num recinto fechado e com um espetáculo em nome próprio. Foi mesmo muito bom.

Code Orange Kids - Goat#7 Code Orange Kids / Goat
O prémio de revelação do ano é aqui partilhado por dois projectos bem distintos. Os Code Orange Kids editaram pela Deathwish – o que por si só já é suficiente para nos indicar ao que vem – e são um quarteto da Pensilvania que tem média de idades de 18(!) anos. O disco Love Is Love // Return To Dust é um autêntico petardo pontuado com momentos mais introspectivos dignos de registo. A música “Colors (Into Nothing)” ali a meio é uma autêntica pérola. Os Goat… Ai ai os Goat. O primeiro álbum deste misterioso grupo sueco, intitulado World Music é das coisas mais contagiantes e frescas que 2012 nos trouxe. Afrobeat, heavypsych, ritmos à Talking Heads e linhas de baixo saídas directamente da bíblia que são os Black Sabbath. Ouçam. A sério.

Godspeed You! Black Emperor - Dead Can Dance#6 Godspeed You! Black Emperor / Dead Can Dance
Os GY!BE e os Dead Can Dance são os co-protagonistas do chamado “regresso do ano”. A trupe canadiana resolveu gravar e editar um disco e sem dizer nada a ninguém deu-nos Allelujah! Don’t Bend! Ascend!. São apenas 50 minutos mas chegam para nos fazer perceber que, mesmo dez anos depois do último registo, o post rock sem os GY!BE não faz o menor sentido. Já Brendan Perry e Lisa Gerrard voltaram a unir os seus talentos inigualáveis para regressarem com Anastasis, dezasseis anos depois de terem gravado o último disco de estúdio como Dead Can Dance. A grande qualidade do disco é que nos traz tudo de volta, quase como se todos estes anos de paragem não tivessem existido.

Black Bombaim - Process Of Guilt

#5 Black Bombaim / Process Of Guilt
Os Black Bombaim e os Process Of Guilt lançaram respectivamente Titans e Faemin e conseguiram afirmar-se como dois dos projectos mais relevantes no panorama musical português. Titans foi – a par de The Seer e All We Love We Leave Behind – dos discos que mais ouvi em 2012 e os Black Bombaim a banda que mais vezes vi ao vivo também. Agora que penso nisso, Titans foi mesmo o disco que mais ouvi, e que me acompanhou durante mais tempo, ao longo deste ano e, estranhamente, já anseio por mais um concerto (já agora, levem sempre o teclado atrás que a B soa ainda mais intensa, sim?) do trio de Barcelos. Quanto aos Process Of Guilt, este novo disco vem colocá-los junto dos nomes mais importantes no sludge, o que nos leva a pensar onde estariam eles caso tivessem nascido pelos EUA e não no Alentejo. Os dois grupos deram dois concertos absolutamente fantásticos no Amplifest e a prova do que valem é que serão os dois primeiros nomes nacionais a actuar no Roadburn, estando já confirmados para a próxima edição.

Béla Tarr#4 Béla Tarr – Caixa DVD
O cinema de Béla Tarr não é para todos. Pode parecer um pouco elitista e presunçoso afirmar tal coisa mas, a verdade é que, o cinema do húngaro é realmente muito exigente. Este ano estreou nas salas portuguesas – pouquíssimas – o assumidamente “último filme” de Tarr, The Turin Horse (2011) e, para aqueles que não estavam familiarizados com este tipo de cinema e optaram por esta escolha, sem se darem muito ao trabalho de perceber o que iriam ver, o filme pode muito bem ter sido uma forte chapada na cara. A Midas Filmes disponibilizou este ano no mercado nacional uma caixa com aqueles que serão porventura os quatro melhores filmes do cineasta. Assim, a acompanhar o filme já referido, incluem-se ainda, Damnation (1988), Satantango (1994) e Werckmeister Harmoniak (2000). O cinema de Tarr pode ser duro, depurado, esparso e existencialista mas aqui encontram algum do melhor cinema do mundo.

Converge - AWLWLB#3 Converge – All We Love We Leave Behind
Este ano os Converge editaram aquele que é já o seu oitavo disco – All We Love We Leave Behind. Mais uma vez, grande artwork, letras cuspidas como se de sangue se tratasse, riffs monstruosos, uma bateria completamente caótica e o som do baixo de Newton. Aquele som de baixo…! Um bocado ao contrário do que acontece com os Mastodon, o amor pelos Converge arde sempre, de forma bem abrasiva, como a sua música. Sem qualquer tipo de desprezo para os primeiros, a verdade é que em tudo o que os Converge fazem vislumbra-se uma integridade que pouquíssimos projectos podem ousar transparecer. Se atentarmos nos últimos 5 discos do grupo, verificamos rapidamente que todos eles estiveram entre os melhores de cada ano em que foram editados e depois há outra coisa, mesmo com a evolução presente neste colectivo, ainda faz todo o sentido ouvir qualquer um destes registos, tanto hoje como amanhã.

Amplifest 2012#2 Amplifest 2012
A segunda edição do Amplifest veio confirmar aquilo que já sabíamos. A Amplificasom é uma promotora de eventos que trabalha com muito amor àquilo que faz e pensa sempre no seu público. Este ano teve menor número de concertos, para que fosse possível ver-se tudo o que tinham para oferecer, e foi ainda mais ecléctico que no primeiro ano. Bem organizado e com vários tipos de “pacotes” que incluíam quarto – para quem não é do Porto – este festival, que se realiza no Hard Club, vai dando os primeiros passos de maneira a tornar-se um nome de referência na Europa. Os primeiros 200 bilhetes comprados ainda tiveram o miminho de terem um dia zero no Passos Manuel. Godspeed You! Black Emperor, Oxbow Duo, Amenra, Process Of Guilt, Bohren & Der Club Of Gore e Black Bombaim estiveram entre os concertos mais fortes do fim-de-semana.

Swans - The Seer

#1 Swans – The Seer
Quando em 2010, Michael Gira decidiu reactivar os Swans, mais de uma década depois de declarar que a banda estava morta, muitos rejubilaram. My Father Will Guide Me Up A Rope To The Sky já tinha sido um dos melhores lançamentos desse ano, mas agora, dois anos depois, The Seer vê os Swans chegarem ao seu ponto mais alto. O disco é duplo e tem temas com menos de 2minutos e temas com mais de 20 (sendo que o tema título tem mais de 30). Assim, The Seer é uma obra que nos transporta por diversos estados de espírito, muito ritualista, texturada, dinâmica, depuradora e intrigante. The Seer é uma obra absolutamente intemporal, uma autêntica odisseia, tal como a vida.

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