Reportagem "Night Train to Lisbon" (com Bille August e Jeremy Irons)

Reportagem “Night Train to Lisbon” (com Bille August e Jeremy Irons)

Um homem solitário, uma vida entediante, um caminho saturadamente linear… até quando é possível alterarmos bruscamente o nosso destino e abdicarmos de uma realidade fatalista? Esta é uma das questões fundamentais abordadas no romance Night Train to Lisbon de Pascal Mercier, adaptado agora ao cinema. Esse lado filosófico está de certo modo presente no filme, mas de forma menor, sujeito a uma narrativa dramática com um tom mais simples. O realizador Bille August justifica-o de acordo com as especificidades do cinema enquanto veículo de comunicação: “A literatura é mais intelectual e o cinema é necessariamente mais emotivo. O desafio foi pegar no lado filosófico, mantendo-nos fiéis a essa ideia”.

A personagem principal é o Professor suiço Raymund Gregorius, um ser apagado e introspectivo que, um dia, salva uma jovem prestes a suicidar-se de uma ponte. Quando ela deixa atrás de si um livro de memórias poéticas de Amadeu Prado e bilhetes para Lisboa, Raymund toma a decisão abrupta de deixar tudo para trás e ir de encontro à narrativa do livro. Talvez esta história ganhasse mais em ter uma introdução mais longa, em que conhecêssemos melhor o dia-a-dia da personagem, mas August nega-o: “Apenas precisamos de saber que ele tem uma vida monótona e aborrecida, mal sabemos isso o mais importante é experienciarmos essa mudança brusca, o cortar com tudo traduzido pelo salto para o comboio. Adoro essa parte do livro”.

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O protagonista é interpretado por Jeremy Irons, numa colaboração actor-realizador que se repete vinte anos depois de A Casa dos Espíritos, também rodado em Portugal. A escolha foi inevitável: “Quando pensámos num nome, só surgiu o de Jeremy Irons. Ele é um grande actor e uma pessoa cheia de vida pela frente, plena de curiosidade e guiada por tal”. Essa curiosidade exprime-se num certo lado policial do filme, referenciado por August, de busca da verdade num Portugal marcado pela ditadura do Estado Novo. O actor britânico prefere, contudo, colocar o foco na questão dramática, nas relações humanas e na mensagem de mudança: “É a história de um homem que, ao conhecer pessoas com uma vida que contrasta totalmente com a sua, decide mudar de direcção, mesmo numa idade avançada. É uma importante mensagem, que vamos sempre a tempo de mudar”.

Ao longo da entrevista sobre o filme, Jeremy Irons mostra ser um gentleman  conversador, com um sentido de humor refinado. O lado filosófico do filme inspira-lhe a ideia de como, por vezes, pequenas decisões têm proporções tremendas (“tiny decisions, huge moments”) e apresenta um curioso exemplo: “Podemos estar a fumar um cigarro, dar lume a uma desconhecida e, quarenta anos depois, termos cinco filhos dessa mesma pessoa”. Para além da mudança abrupta, Night Train to Lisbon reflecte sobre outras questões. Num dos momentos mais emotivos do filme, Amadeu Prado tece um discurso inspirador, de idealismo resistente, contra a opressão e o papel cúmplice da igreja. O realizador enquadra esse discurso segundo o olhar de Raymund: “Esse manifesto de libertação é o que ele próprio sente, enquanto procura começar de novo, fugir do passado e encontrar-se a si próprio, são esses os pormenores que ele mais absorve no livro que encontra”.

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Num dos seus últimos filmes, The Words, Jeremy Irons interpreta o autor de um não editado livro autobiográfico (aparece creditado como “the old man”), arrasado pela mágoa de um passado conturbado, tornado público através de um jovem escritor que assume a obra como sua. É um pequeno papel, mas fundamental na trama e como abalo da consciência do plagiador. Entre este velho homem e o professor Raymund, entre o guia e a consciência, entre o protagonista e a personagem secundária, entre quem é influenciado ou influencia profundamente, há simultaneamente um curioso contraste e uma subliminar semelhança. Jeremy Irons concorda, mas destaca um factor mais genérico e disperso sobre a absorção de qualquer papel, sobre “encontrar a verdade da personagem, captar a atenção do público para esse ser humano, para que possa entender e receber toda a viagem que ele transporta”.

Para além da estrela britânica, Night Train to Lisbon conta com alguns nomes importantes do cinema europeu, como Bruno Ganz, Christopher Lee ou Charlotte Rampling. E há também inevitavelmente, pese embora todo o filme ser falado em inglês, um leque de actores portugueses, como Beatriz Batarda, Nicolau Breyner, Marco D’Almeida ou Adriano Luz. O realizador confessa que gostava de ter mais actores nacionais, nomeadamente no período pré-25 de Abril da história, mas “encontraram muito poucos actores portugueses mais velhos a falarem convenientemente inglês”.

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Night Train to Lisbon é uma história dura, marcada pela repressão do Estado Novo, por um período negro da história portuguesa. Mas é também, numa curiosa dicotomia, uma obra marcada pela beleza das imagens de Lisboa, por um certo tom poético, pelo amor e camaradagem. Jeremy Irons traça um paralelo com a realidade, numa certa alma que se acende nos momentos mais difíceis, e dá um exemplo pessoal passado em Praga: “Estive lá antes do muro cair e senti na resistência um espírito colectivo, era realmente excitante. Voltei lá depois e parece que tudo se perdeu. Não acho que tenha de se sofrer para se ser feliz, mas nos momentos mais difíceis o melhor sobressai”. Transpondo isso para o presente e para a noção própria de legado histórico, o actor britânico refere que há, nos dias de hoje, uma certa tristeza global na Europa e que, se há lição que podemos tirar, é que “é preciso mais acção local, mais solidariedade, mais espírito de comunidade”. Palavras sábias num período de crise política, económica e principalmente moral.

Texto por João Torgal

Nota: A entrevista com Jeremy Irons foi feita em simultâneo com o I, a Magazine HD o Hard Musica

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