Adriana Calcanhotto na Culturgest (14/04/2013)

Adriana Calcanhotto na Culturgest (14/04/2013)

Texto por Andreia Vieira da Silva

Ainda não badalavam as 21h e já muitas pessoas se encontravam na Culturgest, talvez pela ansiedade de não querer ficar de fora (um aviso na Bilheteira diz-nos que após o início do espectáculo não entra mais ninguém), talvez para comprar os últimos bilhetes para uma Culturgest esgotada ou para confraternizar com amigos que têm esta artista como um gosto em comum. No início das escadas que nos levam ao Auditório, distribuem-se pequenas brochuras com uma espécie de introdução à digressão da cantora, que vem a solo, e com palavras suas, muito pessoais, sobre o que foi e o que será actuar na Culturgest. Recuando no tempo, foi ali mesmo que ela se estreou em Lisboa, com a sua guitarra, em Outubro de 2000.

Pode ler-se no primeiro texto “Nunca vou esquecer do meu primeiro concerto em Lisboa, sozinha com a minha guitarra (…) De modo que quando recebi o convite para me apresentar no mesmo formato a solo, nas comemorações dos vinte anos da casa, disse sim na mesma hora. (…) Andava doida para retomar a guitarra, portanto para reinventar um roteiro pensado para Portugal, para pegar a estrada, pela janela do quarto, pela janela do carro, trancafiada em quartos de hotel enquanto Portugal está lá fora, tocando compulsivamente para que o concerto seja lindo e inesquecível como só em Portugal pode ser (…).”

Assim, por volta das 21h30, a cantora brasileira subiu ao palco, que se afigurava muito simples. Uma cadeira, com dois holofotes a iluminá-la, duas ventoinhas, e um suporte com um copo de água. E a guitarra a um canto. Ela entra também muito simples, com um vestido longo e leve, em azul petróleo. Parecia quase fadista.

Adriana é muito comunicativa, falando sempre em tom médio/baixo, mas num registo intimista, ela conta-nos histórias sobre as as canções e isso talvez seja um ingrediente fulcral para que este concerto seja tão emocionante. Sentimos que é de facto, para nós, que só nós estamos ali, com ela. Ela fala do jogo do “amigo oculto” que Marisa Monte organizou entre compositores, e que ela só levou uma melodia. Acabou por trocar com outra melodia, de Arnaldo Antunes. Então, num concerto em Lisboa, no Coliseu, Arnaldo Antunes surgiu no camarim com uma letra para a canção, e assim, nasceu em Portugal, a canção “Para Lá”.

A próxima canção, é apelidada da “música mais bonita do sistema solar”, “Sem saída / Long Road”. “Maldito Rádio” é um tema que traz um pormenor especial. De repente entra um senhor em palco com um pequeno rádio, e enquanto ela toca e canta, as interferências, e os diferentes sons que o rádio vai emitindo misturam-se com a letra da canção, conferindo-lhe um ambiente mais realista. Seguem-lhe “Esquadros”, “Mais feliz” e sem interrupção “Vambora”, que dá sinal verde ao público para cantar, e alguns fazem-no ainda que timidamente. Este é talvez o tema mais emblemático da artista, o tema que faz todos lembrarem-se do nome dela.

Termina o alinhamento e ela levanta-se para agradecer as palmas, entre um “Boa noite, Lisboa”. O público não descansa de bater palmas até que ela volte. Alguém diz “Só mais dez”, ao que ela responde “Quê?”, e repetem “Mais dez músicas”, ao que ela diz “Não percebi. Não deve ser comigo”, provocando uma gargalhada geral.

A primeira das duas músicas do encore, “Fico Assim Sem Você”, diz ela que que mais uma vez “parece não ter nada a ver com Portugal, mas tem. E eu a vivi, para o bem e para o mal”. E é uma canção que toda a gente sabe de cor, e que finalmente leva uma plateia muito calada e contemplativa a cantar em uníssono e a juntar a sua voz à da cantora. As ventoinhas ligam-se para a canção final, e as luzes verdes misturam-se no fundo do palco, Adriana solta o seu cabelo, que está bem longo agora, e provoca alguns assobios no público. Canta “Maresia”. E assim se dá por terminado o concerto de pouco mais e uma hora, inserido na digressão “Olhos de Onda” que assim como ela disse que queria, foi “lindo e inesquecível”.

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