Night + Day no Jardim da Torre de Belém (05/05/2013)

Night + Day no Jardim da Torre de Belém (05/05/2013)

Público

Texto por Mariana Coimbra / Fotos por Cláudia Andrade

No passado Domingo rumámos a Belém, aproveitando o sol convidativo à beira-rio, para experienciarmos este primeiro Night+Day de sempre e o primeiro festival desta época, organizado por uns XX que já se apegaram bastante a este pequeno país na ponta da Europa. E, faltas de organização à parte (a inexistência de caixas multibanco no recinto notou-se), o recinto encheu, dançou e vibrou noite dentro, num Domingo memorável para todos os quase 10 mil presentes, de tantas nacionalidades, invadidos por boa música.

O ambiente que se vivia era essencialmente descontraído. Já desde as duas da tarde que junto aos maravilhosos jardins da Torre de Belém (note-se, um local com um potencial incrível!) se começavam a ajuntar fãs e festivaleiros, a fim de obter o melhor lugar. E quando os PAUS subiram ao palco – depois de animados pelo DJ Xinobi (ou Bruno Cardoso) a preparar terreno para mais tarde James Murphy – já o recinto estava muito bem composto.

PAUS

PAUS

Não há como negar que a banda da bateria siamesa é uma das mais promissoras bandas portugueses na actualidade. A sua garra, a sua energia, o seu à-vontade em palco e a comunicação com o público dão aos lisboetas um estatuto especial – que por mais concertos que assistamos deles, dá sempre vontade de viver mais outro, de saltar e gritar bem alto que me tens pela garganta. Claro que não podiam faltar as clássicas “Pelo Pulso” e “Mudo e Surdo”, mas “Muito Mais Gente” do novo álbum é também já uma das obrigatórias. O público vibrou e aplaudiu, e o único ponto fraco foi a mínima meia hora que lhes foi destinada, que deixou muita água na boca – como sempre.

Ao aproximar das sete da tarde, os britânicos Mount Kimbie vieram dar mais vida ao recinto com o experimentalismo do seu recente Cold Spring Fault Less Youth, ainda que não tenham agarrado o público como queriam. Um electropop suave tocou-nos a todos, mas dispersou pela relva: ainda que se vissem pessoas aleatórias a dançar no seu canto, a maior atracção eram sem dúvida as multidões nas filas dos Licores Beirão e Heinekens – que, viríamos a descobrir, durariam toda a noite.

Mount Kimbie

Mount Kimbie

Com os horários a apertar e o sol a desaparecer na neblina de final de tarde, o nosso vizinho espanhol John Talabot veio animar os ânimos com a sua electrónica viciante, e mesmo com um tempo de actuação apertado conseguiu conquistar novos fãs entre a multidão que o ouvia frente ao palco, esperando pelo trio que só se apresentaria mais tarde. Mentira – Romy e Oliver decidiram abrir o apetite e juntaram-se ao músico catalão para cantar “Chained”, uma das principais do seu novo álbum, e remisturada por Talabot. 40 minutos de actuação de um dos músicos mais promissores deste cartaz, que quase esperávamos que ele voltasse pela madrugada e continuasse a festa.

A festa foi animada por Jamie XX no coreto colorido no local oposto ao palco principal, passando depois o testemunho aos Chromatics que, infelizmente, não animaram senão a hora de jantar. Bonitos, mas esquecíveis, as vozes femininas ecoaram por Belém sem apaixonar ninguém – e a ansiedade pelos cabeças de cartaz já se ouvia nas filas da frente. Numa actuação competente e sem falhas, não desiludiram os seus fãs, mas não surpreenderam, de todo, e para muitos o ponto alto deste concerto foi o final – significado que o momento mais aguardado da noite estava para breve.

Chromatics

Chromatics

Pouco depois da hora marcada, as estrelas organizadoras deste evento deram-se a mostrar ao público. The XX já se dão bem com públicos portugueses, e nós já os adoramos há uns bons anos, desde que se apresentaram tímidos na Aula Magna com o seu álbum homónimo ainda meio desconhecido, e mais tarde num concerto mais composto no Optimus Alive – ainda que a timidez fosse preponderante nesses tempos. Agora, até já organizam eventos pela Europa – que orgulho em vê-los crescer! Mas esse orgulho não se revelaria totalmente até os ouvirmos cantar.

“Try” foi a canção que fez Belém vibrar em uníssono com a voz de Oliver Sim, e depois com a orgásmica voz de Romy, que soa tão bem ou melhor ao vivo que em estúdio – e palmas para o sistema de som, absolutamente fabuloso. Desde então o entusiasmo do público foi constante até ao final que pareceu demasiado abrupto. Entre Coexist e The XX, a sua actuação coerentemente perfeita rodou ambos os álbuns, remisturando músicas, experimentando novos ritmos, com passagens a cargo de Jamie, que por vezes mais parecia concerto de dubstep que propriamente a banda dream pop – mas o resultado foi estrondoso. Assistimos ao jogo de luzes de “Heart Skipped a Beat”, ouvimos a muito adorada “Crystalysed” num diferente mas esplêndido registo, mas que mesmo assim arrancou um coro fiel do público, sem descurar fantásticas canções como “Islands”, “VCR” ou a maravilhosa “Shelter” num registo mais lento e apaixonante. Destaco uma menos adorada “Night Time”, mas que assentou em Belém que nem uma luva – a belíssima voz de Romy falando das suas “white lies” ecoou pelo rio Tejo, encantou milhares, e foi acompanhada por uma minimalista mas fabulosa projecção de raios néon frente à Torre de Belém, que provocou um cenário lindíssimo e absolutamente inesquecível. Claro que não poderia faltar algum protagonismo para Coexist, com “Reunion”, “Fiction” ou “Missing”.

The xx

The xx

The XX funcionam como um trio bem oleado. Não podemos dizer que foi a voz viciante de Romy Madley-Croft ou o vozeirão de Oliver Sim que mais nos cativou, ou as passagens e batidas estrondosas de Jamie, mas sim o conjunto de todos. Uma coisa é certa, este trio britânico cresceu bastante e estão bem mais maturos e confiantes em palco desde a última vez que os vi, em Algés em 2010. Mais simpáticos e comunicativos, vozes mais seguras e uma atitude mais cativante, esta actuação foi completamente fascinante, pela voz, pela química entre músicos, pelo espectáculo luminoso, pelo público, pela temperatura, pelo ambiente, e sobretudo por este lugar absolutamente fantástico para um evento destes. Entre agradecimentos à organização, às bandas do cartaz, à Molly dos Young Turks, e, claro está, ao público e à cidade, também o público agradece ao trio em palco com lágrimas no canto do olho, casais apaixonados e euforia total – aquele recinto transbordava felicidade, e mostrou o verdadeiro potencial desta banda que, para todos os efeitos, ainda está em início de carreira. Após um encore mágico com “Intro” e a apaixonante “Angels”, com um grande X desenhado por luzes no palco, ninguém queria que este concerto terminasse. Um belíssimo Night+Day, o primeiro de todos, o memorável, o que se viveu à beira-rio com a Torre de Belém como cenário. Apaixonados pelos XX e por Lisboa, o evento continuou com um “até já”, e muita dança para os resistentes (ou os que não trabalhavam as 8 da manhã de segunda-feira) a cargo de James Murphy.

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