Optimus Primavera Sound - 2º dia (31/05/2013)

Optimus Primavera Sound – 2º dia (31/05/2013)

Texto por Afonso Sousa e Cláudia Filipe / Fotos por Hugo Rodrigues

Ao segundo dia só o vento nos separou de um verdadeiro dia de Primavera. Chegámos cedo e cedo nos fomos apercebendo de um certo espírito brit que pairava no ar (ou então foi mesmo só o nosso fanatismo a falar mais alto). Este não se fez sentir pelo tempo cinzentão e chuvoso do costume mas sim pelas t-shirts, umas mais gastas, de tours antigas, outras acabadinhas de estrear ou até as de quem quis levar Gorillaz ao peito. Desse por onde desse, o dia de hoje ia acabar ao som de Song 2. E isso já era qualquer coisa de inacreditável.

Recostados na relva, sobre o já icónico lenço de piquenique laranja, simpaticamente cedido pela organização, e servidos de uma cerveja, foi feitos lordes que embarcámos num início de tarde na companhia de gentes nacionais. Primeiro, estreámo-nos a ver os Dear Telephone que por estes dias andam a promover o lançamento de Taxi Ballad, o álbum de estreia. A pop intimista e misteriosa dos barcelenses é também frágil e talvez sofra um bocadinho dessa fragilidade em palco mas nada que não nos fizesse gostar do concerto. Taxi Ballad tem bons recantos a descobrir e Revelator é provavelmente o melhor de todos, ao sair por um momento do barulhinho controlado que caracteriza a sonoridade da banda e a libertar-se, dando-lhes outra dimensão em palco.

Já perdemos a conta de quantas vezes vimos os Memória de Peixe mas é por canções como 7/4 ou Fishtank que o botão on repeat veio à Terra. A mnemónica do loop, a matemática das guitarras oferecem uma frescura que temos a sorte de ter feito hábito. A dupla Miguel Nicolau e Nuno Oliveira não falha e mostrou até algum material novo. É bom saber que vêm aí coisas novas, melhor ainda se chegarem rápido.

Os OM abrilhantaram o nosso primeiro passeio pelos lados do Palco ATP. Não é que o que façam seja propriamente brilhante, mas surpreendente foi com certeza. Os festivais também servem para sermos surpreendidos e às vezes é mesmo boa ideia começar um concerto na ignorância. Um certo lado diabólico, esotérico, bastante experimental, passeia-se por este encantamento das trevas e nem a luz do dia (má escolha de horário por parte da organização), disturbou uma banda que vamos certamente reter para o futuro.

A primeira e talvez maior decisão entre concertos que tivemos de tomar no Primavera aconteceu às oito das noite deste dia. Daniel Johnston e Local Natives subiam a palco ao mesmo tempo e hesitámos até à última mas o que é certo é que nos ficámos com Daniel Johnston por um bom bocado.

Seja por aquilo que for, Johnston cai nas graças de toda a gente. Ao seu estilo, e repito seu, porque como Johnston não há ninguém, soube bem conhecer “pessoalmente”, um artista que há muito seguimos. Acompanhado de uma banda que o segura nas suas imperfeições, Johnston debitou a sua lírica que tem tanto de simples como de profundo e intenso. Das centenas e centenas de canções que colecciona na gaveta, destaque para Sweetheart Walking the Cow. Soubemos que viria a terminar o concerto com True Love Will Find You In The End. Maior das penas por não podermos guardar essa gigantesca canção na memória.

Apanhámos os Local Natives já estes iam a meio do acontecimento mas ainda assim chegámos ao fim sem que sentíssemos falta do que quer que fosse. Os americanos são uma banda simpática, que faz canções numa folk aprimorada que facilmente seduz o coração. Pode parecer pouco mas estranhamente chega para gostarmos muito deles. Se lhes é característico um certo apego à Natureza, o belíssimo fim de tarde no Parque da Cidade potencio-o ainda mais. Daquilo que ouvimos, foram muitos os temas de Gorilla Manor a marcar presença, sendo o primeiro álbum da banda, uma referência ainda importante com canções como Airplanes ou Sun Hands (fechou o concerto).  Mantendo o juízo, algo nos diz que estamos perante uma banda que veremos com certeza conquistar um público bem mais alargado num futuro próximo.

Aproveitámos a pequena pausa nos concertos para nos fazermos ao bife. Literalmente. Aos habituais kebabs, hamburgueres ou bifanas, o Primavera abre espaço no menu a outras iguarias tão ou menos saudáveis. Surpreendentemente, jantámos uma bela francesinha. Se o prato é também um palco então este concerto foi dos melhores que degostámos. A francesinha veio acompanhada dos habituais companheiros, não apresentou temas novos, limitando-se ao clássico que é como deve ser. O encore veio com um café e estava assim o bandulho cheio para atacar a segunda metade do dia.

Regressámos a uma das encostas do parque, quando era já de noite, para cair na realidade de que os Swans são mesmo uma grande banda. Não lhes conhecemos todos os recantos, mas certo é que ao vivo são umas bestas. É difícil de lá chegar, mas Michael Gira (dança realmente que nem um cisne) tem uma presença em palco que nos fez por momentos lembrar a força de um Nick Cave. Há aqui um rock muito musculado, muito barulhento, quezilento quiçá, demorado na explosão, mas duma intensidade como vimos poucos terem.

E enquanto os míticos Swans puxavam os últimos acordes de To Be Kind, entravam a todo o gás no palco ATP os nossos Mão Morta, sobreposição que não deixa de ser curiosa dadas as duas bandas que são. Aum foi o primeiro tema de uma setlist orientada para o ambiente festivaleiro, onde não faltou rock e onde imperaram palavras de ordem, desde o rock and roll de Budapeste, a Oblá ou os já míticos gritos de guerra em 1º de Novembro. Um dos melhores concertos do segundo dia do festival fez-se no palco escondido no cimo do monte e em Português: a jogar em casa, Adolfo Lúxuria Canibal e o resto da sua banda arrastaram uma multidão bastante considerável, rendida a uma das mais importantes bandas nacionais. No final do concerto, já ninguém se lembrava que este lugar era suposto ser de Rodriguez, e o súbito cancelamento acabou por ser um acontecimento positivo.

Aos primeiros acordes, ouvimos alguém dizer: “olha a música da Renault”. Por acaso é da Peugeot, mas publicidade à parte, Two Weeks é ainda o tema mais celebrado dos Grizzly Bear. A banda tem, porém, muito mas muito mais a mostrar que isso. Mesmo que Shields fique a dever um bocadinho à Primavera de Veckatimest, foram temas como Yet Again, Sleeping Ute ou Sun In Your Eyes (belíssima a fechar) que melhor soube ouvir. O som esteve longe de estar perfeito e numa banda em que o pormenor e o detalhe são cruciais, em que tudo ergue com a maior das minúcias, o concerto não conseguiu ter a dimensão que desejávamos. O passado mais distante foi ainda revisitado com a inevitável Knife Veckatimest relembrado com as grandes Ready, Able We Wait For The Others. Apesar de tudo, nota mais que positiva como não podia deixar de ser.

A electrónica de Four Tet invadiu o palco Super Bock e a inteligente gestão do set justificou o largo número de pessoas que até lá se deslocou. Se por um lado era uma actuação bastante aguardada e desejada, por outro os ritmos quentes incendiaram os ânimos (mesmo tendo em conta as temperaturas frias que tomaram conta do Parque da Cidade após o sol desaparecer) e o espaço rapidamente se tornou numa enorme discoteca. Não é em vão que o nome de Four Tet se tornou tão relevante nos últimos anos e se dúvidas havia, dissiparam-se na noite de sexta feira.

Foi por estas horas que demos conta da verdadeira enchente que povoou o Primavera neste segundo dia. Estava por minutos a chegada de uma banda que aprendemos a gostar mesmo antes de sabermos realmente gostar de música. Damon Albarn, seja com Blur ou mais tarde com os Gorillaz, marcou quase como ninguém a nossa geração. Vê-lo subir a palco e não aplaudir histericamente seria quase injusto depois de tudo o que já nos deu. Boys and Girls deu início a uma festa memorável e a multidão soube que assim o seria desde logo. Fez-se a festa como ainda não tínhamos visto acontecer em todo o festival, com Albarn a abençoar as primeiras filas com uma chuveirada de água e a um ritmo estonteante, que nem barata tonta, a contagiar tudo e todos.

O resto da tarefa é fácil: debitar clássico atrás de clássico. Beetlebum, Coffee & TV ou Parklife confirmam a dimensão uma banda que à medida que avançava com cada tema, ia crescendo ainda um pouco mais em nós. Tender terminou com coro por parte da plateia, ao qual Albarn agradeceu com a descida do palco, para cantar Country House  junto ao seu povo. Caramel, uma das melhores e mais bem escondidas canções que os Blur escreveram, foi ainda surpresa no alinhamento. O regresso no encore fez-se com a belíssima Under The Westway e com uma The Universal, épica com o apoio do coro, que começou por selar um difícil e emocionado adeus. Chegaria ainda Song 2, que desde putos lembramos do Fifa98 e que nunca imaginámos ver tocada ao vivo. Song 2 só tem dois minutos mas foram dos dois minutos mais intensos que recordamos ter passado, vivida aos saltos do início ao fim, com direito a very lights e uma fumarada imensa. Foi mesmo inacreditável. Ainda havia mais um dia de Primavera, mas se tivesse terminado logo ali, também não tinha feito mal nenhum.

Ao mesmo tempo de Blur e com uma tarefa ingrata, não foram muitos os que se deslocaram ao palco Pitchfork para receber Do Make Say Think. O contrário não seria de esperar, e são estas as desvantagens das sobreposições: quando menos se espera, está um enorme concerto à espreita, que acaba por passar mais despercebido do que devia. Este foi um dos casos, ou não tivessem os Canadianos dado um estrondoso concerto entre duas baterias, guitarras e saxofones. Tudo em prol do seu post rock tão característico, que combina elementos de jazz e que lhe confere uma dimensão única. A banda aproveitou a oportunidade em palcos nacionais para percorrer a sua discografia. Entre End of Music, Frederia ou Do, mostraram aos presentes que valeu a pena ter deixado temporariamente “Blur” para trás.

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