Milhões de Festa - 1º dia (26/07/2013)

Milhões de Festa – 1º dia (26/07/2013)

Texto por Cláudia Filipe e Emanuel Henriques / Fotos por Cláudia Andrade

Por entre o psicadelismo de Jacco Gardner, a jovialidade de Mikal Cronin ou o peso de Ufommamut, o primeiro dia do Milhões de Festa revelou-se diversificado ao provar que agradar a gregos e tróianos pode correr bem. Também os nossos Black Bombaim, que, à semelhança do ano passado, se apresentaram em mais uma edição do Milhões de Festa com um concerto especial preparado, foram, lado a lado com La La La Ressonance um dos pontos de destaque de todo o festival.

Mas cedo é que se começa o dia, principalmente quando estamos num festival que envolve uma piscina, onde tantos se deixam ficar a tomar banhos de sol para libertação de serotonina e para a cura de qualquer excesso da noite anterior.

E se uns mergulhos na piscina bem cedo conseguem fazer maravilhas, com a entrada dos Juba em palco, cedo se viu um amontoar de corpos, semidespidos e já algo tostados, em frente ao palco para dançar ao som do rock sensual e exótico deste quarteto lisboeta. Não se poderia pedir melhor começo para o primeiro dia do festival, onde a melodia conseguiu ficar presa nas nossas cabeças por bastante tempo. Nem sendo preciso saber as letras.

Mas não muito longe dali, no palco Taina que na noite anterior tinha sido cenário de grande farra, a dupla Quelle Dead Gazelle, que continua a somar e seguir, abriu as honras da tarde. O Pedro e o Miguel são músicos exímios, mestres na arte de manobrar a guitarra e a bateria, e não falham na hora de pôr o público a dançar ao som do seu post-afro-rock-beat-e-mais-um-enorme-conjunto-de-influências-tão-incrivelmente-conectadas-nas-suas-músicas. Ninguém resiste aos ritmos quentes de Lion Meets Gazelle ou Afrobrita.

De volta à piscina e inaugurando o capítulo de duetos improváveis, Igor, que tão bem conhecemos de Throes + The Shine, uniu a sua bateria à guitarra de Yonatan (Monotonix), transportando a jam que os uniu para o palco. Descontracção foi a palavra de ordem que criou um momento bem passado e que juntou alguns curiosos à volta dos músicos, onde o clímax foi mesmo o final do concerto, no qual Igor puxou algumas pessoas do público para se juntarem a ele na bateria. O resultado foi uma enorme batida de percussão acompanhada por uma linha de guitarra extremamente inteligente.

Se o experimentalismo em forma de jam de Yonatan + Igor resultou bastante bem, o post-hardcore melódico de Adorno foi um regalo para os amantes desta sonoridade. Se por agora os Adorno estão um pouco mais parados no que a concertos diz respeito (muito por culpa da geografia), isso em nada afectou o concerto na piscina do Milhões de Festa. Apesar de a voz estar inicialmente um pouco alta de mais, o que se assistiu ali foi a um concerto muito competente, onde se notava a milhas de distância a vontade e o prazer de todos os que estavam em palco. No fim o que sobrou foi sorrisos tanto no palco como na plateia.

Adorno tinha acabado, mas alguns membros nem saíram de palco porque Papaya é isso mesmo: um fruto de Adorno. É um fruto mais tropical e mais dançável que combinou com a tarde de sol que se fazia sentir.

A tarde já ia longa, o sol já tinha aquecido muitos corpos, e o frenesim dos concertos nos maiores palcos já se fazia sentir e, portanto, também já se dava conta da romaria pela cidade. Coube a Papir inaugurar o Palco Milhões deste ano. O trio dinamarquês trouxe até Barcelos o seu rock psicadélico e instrumental, que, longe de ter sido brilhante, conseguiu embalar o público presente, ainda com o pôr-do-sol à vista.

Já as actuações no palco VICE não poderiam ter começado de forma melhor. Um dos concertos mais esperados deste dia era mesmo o de Mikal Cronin. Ventos soprando de Lisboa sussuravam ao ouvido que a noite anterior, no Musicbox, tinha sido um sucesso tremendo. O músico, que também colabora com Ty Segall (nota para os mais distraídos), dono de um tímido mas acessível sorriso deixou a audiência rendida ao seu garage rock e à sua ânsia de preservação da juventude. Percorreu-se ambos os discos, cantou-se aos amores perdidos, celebrou-se a ânsia de aproveitar os melhores anos; toda uma parafernália de dilemas e dores de alma expostos em palco, de uma forma tão simples, mas tão sincera/genuína que chega a ser comovente. Temas como Shout it Out, Get Along ou Weight, já bem conhecidos entre nós, foram dos mais bem recebidos. Para os que desarmaram a guarda, julgando-se já demasiado adultos para o que se estava a passar em palco, perderam um dos melhores concertos do Milhões 2013. Para a próxima, deixem o Peter Pan voar.

Ainda meios extasiados pelo belíssimo concerto de Mikal Cronin, Jacco Gardner subia ao palco para mostrar o seu mais recente álbum, Cabinet of Curiosities. Não bastou muito para que se notassem as suas influências: uma mistura de Pink Floyd e Beatles que é impossível negar ou sequer esconder, e isso nem sempre é bom e em pleno 2013 pede-se mais a uma banda do que apenas replicar os seus ídolos de adolescência.

O ano passado juntaram-se a Gnod em palco numa experiência polarizante. Este ano, os Black Bombaim juntaram-se aos conterrâneos La La La Ressonance para um concerto que deixou uma marca positiva mais unânime. Apesar da colaboração ter ainda bastante espaço para crescer, é visível que assim sim, resulta e poderá advir daqui algo grandioso. Aguardemos para ver o que o futuro reserva, se é que decidirão construí-lo em conjunto.

Os Austra andam a fazer o seu trabalho de casa ao som de Florence + the Machine. Só é pena que nem a postura nem a voz de Katie Stelmanis cheguem aos calcanhares de Florence Welch. Os canadianos, que pisaram o palco para mostrar o seu mais recente disco, Olympia, ganharam pontos a nível visual por todo o aparato de acessórios e vesturário com que se apresentaram em palco, mas deixaram a desejar na hora de reproduzir as suas músicas, tanto pelo instrumental que não traz nada de novo, como pela tremelitante voz de Stelmanis. Primeira grande banda a inaugurar o campo de “não aqueceu nem arrefeceu”.

O kraut dos Camera foi outro momento a reter. Para quem chegou com poucas ou nenhumas expectativas, levou uma chapada de surpresa pelo poderio dos alemães que até no metro de Berlim já tocaram. Intenso, magnífico e hipnotizante são as palavras mais adequadas para descrever este momento que a banda nos proporcionou. Não é de espantar que seja apontado, por tantos, como um dos pontos altos deste ano.

Outro dos pontos altos desta edição eram, sem sombra de dúvida, os italianos Ufomammut. O frenesim à volta deste trio deve-se, em grande parte, pelo concerto fantástico que deram há bem pouco tempo no Amplifest, bem como pelo seu mais recente álbum, Oro. Foi com base neste último disco que os italianos subiram ao Palco Milhões, com toda a sua simpatia e com a potência do seu som, que dá para tudo: ora para viajar de olhos fechados, ora para abanar o pescoço até que não se sinta mais. Entre o Doom e o psicadelismo, o trio consegue ser exímio ao vivo e consegue transparecer todo o sentimento com que fazem a sua música. Mesmo em recinto aberto, onde a intensidade dos Ufomammut não é tão forte, ainda se consegue sentir as vibrações das suas músicas no peito.

A partir de uma certa hora, e quando só há apenas concertos no Palco Vice, nada é certo e nunca se consegue prever o que poderá mesmo acontecer naquele espaço. Otto Von Schirach é a personificação do que se acabou de dizer. O norte-americano é rei e exímio na arte de entreter e fazer com que o público delire e se exceda em danças pouco convencionais. O público não se acanhou e correspondeu à altura do breakcore de Otto, que estava sempre comunicativo. O que ali aconteceu foi simples: milhões de festa.

White Haus é um dos projectos nacionais recentes com mais exposição mediática, ou não fosse ele João Vieira (X-Wife; DJ Kitten). Em versão DJ Set, começou morno mas foi ganhando intensidade com o tempo e conseguiu manter os mais resistentes a dançar até ao fim da noite.

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