Milhões de Festa - 3º dia (28/07/2013)

Milhões de Festa – 3º dia (28/07/2013)

Público

Texto por Cláudia Filipe e Emanuel Henriques / Fotos por Cláudia Andrade

O dia acordou triste: que raio é Barcelos em pleno Milhões coberto de chuva? E a piscina? E a Taina? Felizmente a solução foi simples: fazer a festa na mesma, já que ali estávamos todos para isso. E a verdade é que acabou por se tornar num dia inesquecível, exactamente como deve ser, para dizermos até para o ano ao Milhões de Festa já com muitas saudades no peito. Afinal, que Verão é que ainda continua a ser Verão sem a romaria a Barcelos?

Para alguns, o dia começou mesmo na piscina (e alguns deram uns valentes mergulhos em jeito de despedida), com Sequin, membro da família Coronado. O projecto a solo de Ana Miró, e já aqui o tínhamos dito, tem tudo para ser a fórmula certa para o Verão: composições frescas, pouco pretenciosas, acentes na sua envolvente e doce voz ao comando dos sintetizadores com que trilha os caminhos do electro pop. E muito bem. Beijing, que já todos conhecemos, cola-se ao ouvido e pelo mesmo caminho irão temas como Flamingo, também tocado na piscina, ou outros que a própria revela ainda não terem nome. Projecto cuja evolução é para seguir com muita atenção e curiosidade.

O experimentalismo com laivos jazzísticos dos Torto invadiu a piscina para um concerto que, mesmo com a chuva ainda a aparecer timidamente, reuniu bastantes curiosos, ou não fosse este trio composto por nomes firmados na música nacional.

A chuva deu algumas tréguas aos Long Way to Alaska, que até viram o sol começar a espreitar para receber de braços abertos o seu folk “fofinho”. A banda, que lançou o aclamado EP Life Aquatic este ano, viu no entanto a situação levar um revés, tendo sofrido o pesadelo de inúmeros problemas técnicos que teimaram em prejudicar-lhes a actuação. Depois de um começo demorado, acabaram por, infelizmente, ter ficado com um tempo de actuação mais reduzido. A sorte não sorriu aos bracarenses, mas é sempre um prazer na mesma poder sorrir ao ouvir temas como Air ou King of Your Own.

Coube ao projecto de Filipe Miranda, The Partisan Seed, lançar o Palco Milhões no seu último dia. Com o seu mais recente álbum, Spirit Walking, o projecto barcelense deu um concerto muito introspectivo e consciente, quase que a nos lembrar que aquele era o último dia de festival e, por isso, deveríamos aproveitá-lo ao máximo. Ele, os The Partisan Seed, com toda a certeza que o aproveitaram e isso ficou bem patente na sua actuação. Resta-nos esperar para um outro concerto, talvez numa sala mais intimista.

Muito mais se exigia de Dirty Beaches, um dos concertos mais aguardados da noite, mas que acabou por deixar bastante a desejar. Alex Hungtai, acompanhado pela sua banda, formato que decidiu explorar aquando do lançamento do seu último disco, Drifters/Love is the Devil, optou por não fitar o público, criando uma actuação muito fechada em si mesmo, falhando em proporcionar as condições necessárias para a conectividade com o público. Difícil conseguir criar um ambiente tão intimista num festival onde a palavra de ordem é festa. Ficou a tentativa e o desejo de o ver numa sala fechada.

Os Riding Pânico – que são totalistas do Milhões de Festa – subiram pela primeira vez ao Palco Milhões. Já os vimos a dar muito bons concertos, como, infelizmente, outros não tão bons. Talvez pela adrenalina de estarem a tocar naquele palco, este concerto foi provavelmente o melhor de todas as edições em terras da cidade do galo. Com Homem Elefante na bagagem, álbum esse que pode ainda não estar tão presente, os Riding Pânico conseguiram prender desde logo o público. Foi uma actuação exímia, onde o post-rock foi rei e senhor, com direito a encore e tudo. Esperemos que com isto, os Riding Pânico tenham uma postura mais presente na cena musical.

Se durante o dia assistimos a uns quantos fortes aguaceiros que ameaçaram muita coisa, a partir da meia-noite o que assistimos ali foi a um verdadeiro furacão. Os responsáveis? Orange Goblin. Eles avisaram que estavam ali para tocar heavy metal e não bastou muito tempo para que o público ficasse louco. Crowdsurf atrás de crowdsurf, moshpit atrás de moshpit (do início ao fim do concerto) e acima de tudo sorrisos e caras de felicidade em todo o lado. Mesmo com todos os problemas que os Orange Gobling tiveram no início da sua tour (carrinha estragada e guitarrista a ter de ser hospitalizado), nada os impediu de, literalmente, partir tudo com o seu stoner rock à homem. Ainda houve tempo, a meio do concerto, de várias trocas de elogios entre público e banda (e vice-versa). A energia era tanta (fosse em palco ou fora dele) que nem parecia que a quarta edição estava a chegar ao fim e que os últimos três dias tinham sido bastante intensos. E muito por culpa desta energia e intensidade toda Ben Ward afirmava que este era o melhor público de toda a tour – sentido ou não, sabe sempre bem ouvir tais elogios, e o público respondeu ainda com mais intensidade. Em jeito de resumo, tanto o público que ali estava como a banda inglesa estavam a precisar de um concerto assim, de encher o peito e nos fazer sentir realmente satisfeitos.

Muito se especulou sobre o que esperar da Jibóia Experience. O projecto de Óscar Silva já dispensa apresentações: já todos dançaram a Manasha, já muitos se cruzaram num concerto, aqui ou ali. Mas para o Milhões de Festa surgiu a oportunidade de preparar algo diferente. A cobra convidou alguns amigos para o acompanharem na transformação das canções para formato banda. Falou-se em cor, bollywood, mas nada, e volto a sublinhar: nada, nos preparou para o esmagador concerto que aconteceu às 2h da manhã, quando já se pensava que nada poderia ser melhor do que dizer adeus com Orange Goblin.

As músicas do EP foram tocadas de forma estrondosa pelo capitão Óscar Silva, que contou com a arrebatadora bateria de Ricardo Martins (Cangarra, Lobster, Adorno, Papaya…), a preciosa intervenção de Zé Pedro (Equations) na percussão, as guitarras cheias de vida de Gonçalo Duarte (Equations) e Cláudio Fernandes (Cangarra), o crucial baixo de Luís Lucena (Lydia’s Sleep, Saur), Pedro Sousa (Canzana) a fazer um caso sério da secção dos sopros e, claro, pela presença que já se tornou obrigatória em todos os concertos: Ana Miró (Sequin), versão odalisca hipnotizante, a emprestar a voz à maioria dos temas. Para fechar houve ainda espaço para uma participação especial de Fábio Costa (Quesadilla), que também se juntou à festa. Juntos, deram-nos uma lição de festa, entrega e amizade. Muito mais que cor e alegria, Jibóia Experience foi uma explosão de honestidade da qual saímos de coração cheio. A merecerem o aplauso da noite, com toda a justiça, para um concerto onde, a única palavra que continua a vir à cabeça todos estes dias depois é: arrebatador.

Verdade seja dita, as forças já nos faltavam mas a curiosidade para ver Mykki Blanco conseguiu fazer com que ficássemos ali, à espera do rapper, para ver o que iria sair dali. Sem qualquer dúvida que o DJ que o acompanha sabe mandar bons beats e fazer excelentes misturas, certo é que Mykki Blanco é um exímio performer e sabe muito bem entreter um público juntamente com as suas bailarinas, no entanto não consegue cantar sem gritar histérica e desafinadamente. É sempre um mau presságio quando, ainda a subir ao palco e a comunicar com o público, desafina a dizer um simples “freedom”. Dali para a frente já se sabia o que esperar: muito show e uma performance muito bem ensaiada, mas pouca música. E era pela música que ali estávamos.

Chegava assim ao fim mais um ano de Milhões de Festa, onde os sentimentos se confundem e misturam e onde a recusa de deixar a cidade é grande. Até para o ano Barcelos. Fazemos tudo de novo? Já estamos a contar os dias. T-360…

Arte-Factos

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