Entrevista aos peixe : avião

Entrevista aos peixe : avião

peixe : avião

Ao terceiro tento, os peixe : avião levam a sério o lema da reinvenção e provam ser capazes de contar uma história diferente a cada álbum. Com a chegada do homónimo, a banda bracarense regressa para se afirmar definitivamente como um dos projectos mais desafiantes do panorama musical nacional.

1. Um pouco ao contrário do que é comum na maioria das bandas, só agora decidiram lançar o álbum homónimo. Porquê decidiram fazê-lo? Será este o álbum que melhor define a identidade da banda?
Por estranho que pareça só agora nos fez sentido um álbum homónimo. A identidade dos peixe : avião estará sempre em mutação ao longo do tempo, ou pelo menos assim esperamos, mas de facto este foi o disco em que o conceito de “banda”, enquanto conjunto, esteve mais presente. Foi um disco, ao contrário dos anteriores, composto praticamente exclusivamente na sala de ensaio pelos cinco membros da banda. Foi um disco em que fizemos uma espécie de “back to basics”, apesar de nunca termos tido anteriormente nos peixe : avião essa experiência de banda de sala de ensaios. Nesse sentido, e dada a crueza do som a que chegámos, achámos que não fazia sentido darmos-lhe outro nome que não o nosso.

2. Ao terceiro álbum e passados seis anos desde que editaram Finjo a Fazer de Conta Feito peixe : avião, talvez seja um exagero chamar-vos veteranos mas novatos também não são seguramente. A maturidade que têm com certeza vindo a ganhar e a forma como hoje se conhecem enquanto banda facilitou o caminho na preparação do novo disco?
Sim, sem dúvida. Este processo não teria sido possível há uns anos atrás. Não que não nos déssemos bem pessoalmente ou musicalmente, mas não tínhamos este conhecimento do que somos individualmente e em conjunto do que temos agora. Isto vem de experiências que entretanto tivemos noutros projectos e de um olhar crítico ao que anteriormente fizemos nos peixe : avião e que nos apontou que caminhos seguir e que caminhos evitar. Este processo que aplicámos neste disco também acabou por ser um escape criativo. Uma forma de nos obrigar a fazer diferente.

peixe : avião Capa

3. Deixaram no vosso site a ideia de que estariam a “encontrar novos caminhos musicais”. Entre o 40.02 e o Madrugada acho que enveredaram por caminhos distintos e procuraram fazer diferente. Concordam que no peixe : avião se repetiu a dose? Que “caminhos musicais” acabaram por descobrir e abraçar?
Concordamos absolutamente e esperamos repetir a dose a cada disco que façamos. Neste disco pensámos mais naquilo que não queríamos fazer do que naquilo a que pretendíamos chegar. Sabíamos que queríamos construções harmónicas e melódicas simples, com sequências de acordes curtas, sabíamos que queríamos uma paleta de sons limitada mas invulgar e muito trabalhada, queríamos uma secção rítmica forte e segura. Queríamos acima de tudo reduzir muito nos nossos recursos e fazermos um pouco o inverso do que tínhamos feito no Madrugada. Neste novo disco não há praticamente overdubs e as estruturas musicais são muito mais lineares. É um disco mais físico, mais duro que os anteriores, e mais despido, pela sua contenção e eliminação de tudo o que poderia ser supérfluo.

4. Por entre tanta renovação, se há elemento que aparentemente se mantém mais regular é a voz e a vossa lírica muito própria. Concordam ou será que a mesma reinvenção também acontece pela voz?
Quisemos que se mantivesse este contraste entre a rudeza do instrumental e a leveza da voz. Ainda assim a voz também teve a sua “reinvenção”, como lhe chamas. As letras perderam em grande parte o carácter pessoal que tinham e tornaram-se mais abstractas e de livre interpretação e as linhas vocais tornaram-se mais simples e sem rendilhados. As camadas e camadas de coros que estavam presentes nos discos anteriores, especialmente no Madrugada, também foram eliminadas.

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5. É difícil não encontrar uma crítica, entrevista ou artigo que sobre vocês, que não pegue na comparação com Radiohead. Vêem nisso uma ideia meio disparatada ou será que quando ouviram essa comparação pela primeira vez, não ficaram surpreendidos?
Não ficámos surpreendidos que fizessem comparações com os Radiohead ou com outra qualquer banda quando começámos. É normal que isso aconteça quando se está a tentar referenciar uma banda que ninguém conhece: “conheces os peixe : avião?” “não. é tipo quê?” Estas situações são normais e pelo menos compararam-nos com uma banda excelente. E não digo que não houvessem reminiscências de Radiohead no início, mas hoje em dia é uma ideia meio disparatada. Em todo o caso nunca foi algo que nos preocupasse verdadeiramente.

6. “Avesso”, o primeiro single do novo álbum já anda por aí a rodar. Que tal tem sido a resposta? Por onde vai andar a banda? Quais os próximos passos de peixe:avião?
As reacções tanto ao single como ao próprio disco têm sido óptimas, tanto por parte da crítica como por parte do público, que tem dado um feedback muito positivo.
O objectivo agora é mostrar o disco ao maior número de pessoas possível e temos andado na estrada a apresentá-lo. Os próximos concertos serão no dia 19 de Outubro no Auditório de Espinho, no dia 1 de Novembro em Vale de Cambra e no dia seguinte em Barcelos.

Entrevista por Afonso Sousa

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