Flashback: Santa Sangre

Flashback: Santa Sangre

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Santa Sangre, mais do que um bom filme, pode ser considerado, sem qualquer redundância, uma obra-prima estética e visual. Não é somente um exercício de estilo e de virtuosismo técnico, como por exemplo o glacial Only God Forgives, de Nicolas Winding Refn. Pelo contrário, é uma obra completa, onde a estética de contornos exuberantes não devora qualquer resquício de humanidade, conjuga ambas as características e exalta a intensidade voraz da obra. Não é absolutamente por acaso que esta comparação é feita! Nos inícios dos créditos finais da obra, Refn fez um agradecimento (o que já tinha sido feito em Drive) a Alejandro Jorodowsky, o realizador de Santa Sangre. É verdade que a influência a partir da obra deste multifacetado artista pode não ser muito perceptível. O que, pensando bem, até é muito positivo, pois referência não é um sinónimo de imitação ou algo do género. No entanto, reflectindo bem, torna-se visível a “sombra ou a luz “de Jodorowsky em Only God Forgives, na exaltação quase obsessiva da captação das imagens e na componente musical, onde a banda sonora se torna mais do que um artifício de complemento de composição fílmica e adquire o seu próprio protagonismo, intensificando o carácter dramático de uma cena ou de uma personagem.

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Afinal, quem é Alejandro Jodorowsky? Sim, não é um nome totalmente desconhecido, pelo contrário: escritor, realizador, dramaturgo, poeta, mimo, compositor, escultor, pintor, ilustrador e psicomago de origem chilena. Uma espécie de Leonardo Da Vinci da pós-modernidade. Se é sobrevalorizado? Sim, é um facto mais do que consumado! No entanto, a sua filmografia incluí obras de referência no circuito mais alternativo, como os aclamados El Topo (1970) e Holly Mountain (1973), teve uma parceria (como argumentista) com o célebre ilustrador Jean Giraud (mais conhecido como Moebius) na complexa série de banda  desenhada L’Incal e, finalmente, foi mencionado como referência artística por nomes como David Lynch, Marlyn Manson e Peter Gabriel, entre outros.

Apesar de não ter tido um percurso fulgurante no circuito comercial, Santa Sangre foi alvo de críticas muito favoráveis e foi seleccionado para diferentes festivais de cinema, incluindo a edição de 1989 do Festival de Cannes, onde fez parte da secção “Un Certain Regarde”. Ao longo dos tempos, a obra de Jodorowksy foi ganhando mais admiradores e um estatuto reconhecimento, mais do que merecido. Prova disso é sua inclusão, em 2009, na lista dos 500 melhores filmes de sempre (475ª posição), segundo a revista Empire Magazine.

Santa Sangre relata a saga de Fénix, um jovem adulto internado num hospital algures no México. A sua aparência não indica qualquer perturbação mental, mas o jovem apresenta um comportamento atípico e bizarro: age como um pássaro selvagem, estando quase sempre empoleirado, em posição fetal, num troco de uma árvore posicionada no seu quarto e prefere alimentar-se de peixe cru do que “alimentar-se como um ser “humano”. Para mistificar a insólita personagem, o seu tronco nu revela uma águia tatuada no peito…

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Através de um longo flashback, é descortinada a conturbada e insólita infância de Fénix. Filho de Orgo, um violento atirador de facas e dono de um circo (El Circo Del Gringo) e de uma líder de uma seita religiosa que idolatra Lírio, uma menina que, além de ter sido violada, foi abandonada de braços decepados numa poça do seu próprio sangue – sangue que quase se tornou venerado por diversos seguidores da menina “santa”. Enquanto a relação com o seu pai é quase nula e cimentada em autoridade e ritos de iniciação, Fénix desenvolve um sentimento algo dependente e obsessivo pela mãe e que irá acentuar-se ao longo da narrativa. Com esta premissa, não será difícil tentar adivinhar quais serão as razões do seu trauma.

É impossível não associar Santa Sangre com o incompreendido, mas genial, Freaks de Todd Browning. Mas enquanto a obra de Browning joga com a dualidade do belo e do grotesco através de uma ética moral, humanizando os supostos monstros, Jodorowsky criou um universo no mínimo perverso, onde o surrealismo e um realismo cru se conjugam de uma forma bizarra, no entanto muito convincente. O único traço de humanidade dita pura e inocente (e porque não alguma ponta de esperança na humanidade?) é a relação entre Fénix e o seu amor de infância, Alma, uma jovem mimo surda-muda. Por força de circunstâncias trágicas, foram obrigados a afastarem-se um do outro, mas a omnipresença e a força do destino irão pronunciar-se e talvez juntá-los…

Flashback: Santa Sangre

Para alguma crítica especializada, a obra poderia ser um hipotético remake de Psycho do Mestre Alfred Hitckcoh, segundo o olhar de outro génio da história do cinema, El senõr Luis Buñuel. Uma associação deveras “deliciosa”! A exaltação da psicanálise, do paralelismo entre sonho e pesadelo, uma suave mas incisiva referência à tragédia grega, corrobora perfeitamente com a referida ideia.

Com um leque de interpretações notável, destaca-se, sem dúvida nenhuma, a actriz mexicana Blanca Guerra, no papel da obstinada e talvez pérfida mãe de Fénix. A estrondosa composição musical do inspirado Simon Boswell torna-se um complemento essencial no desenvolvimento do drama e na composição das personagens. Caballo Negro e Grave Business, merecem um especial destaque.

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Santa Sangre é um bom exemplo de um cinema vanguardista, alicerçado na exploração da estética mais profunda, mas capaz de se aproximar de um melodrama e criar um elo entre a obra e o espectador. Só resta agora torcer para que La Danza de la Realidad, última obra do octogenário realizador, estreie nas salas nacionais. Sonhar não custa nada…

Texto por Paulo Lopes

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