Julianna Barwick no Maria Matos (23/10/2013)

Julianna Barwick no Maria Matos (23/10/2013)

Julianna Barwick

Texto por João Torgal

Quando, há dois anos atrás, Julianna Barwick pisou o palco da Galeria Zé dos Bois, a sensação que deu foi que se tratou de um concerto muito bonito, mas em que faltou algo para entrar num clube mais restrito dos momentos raros e preciosos. Dado que Nepenthe inclui um conjunto mais alargado de sons e que, em palco, existiriam convidados instrumentais e corais, permitindo um dinamismo e um preenchimento mais difícil de conseguir a solo, era expectável que essa fronteira fosse ultrapassada. Infelizmente, talvez não tenha sido desta.

Parece que continua a faltar algo para esta música desabrochar, para que se abra para outras paragens. Contudo, nada disto tem que ver com a imensa timidez da intérprete americana, que faz com que a comunicação com o público seja feita através de pequenas, mas delicadas e simpáticas palavras, ditas baixinho e para dentro. Esta é música frágil, sensível e espiritual, pelo que essa postura, ainda que não intencional, acaba por ser coerente com o som que se ouve.

Em cerca de uma hora de concerto, o alinhamento foi todo ou quase todo dedicado ao novo álbum. Se a abertura se fez a solo, primeiro apenas com os crónicos loops de voz e depois com a introdução de pequenas linhas de piano, a partir do terceiro tema Julianna passou a estar acompanhada de um guitarrista e de uma violoncelista. Mais do que uma sucessão mais ou menos definida de acordes, os instrumentos são usados como pequenos efeitos, pequenos sons, que servem de cama para os vários efeitos de voz. Acontece em disco e acontece em palco. A meio do concerto junta-se um coro feminino e o efeito vocal passa a ser naturalmente mais imponente, embora tenha faltado alguma amplificação para que o impacto fosse arrebatador.

Na noite de ontem houve também direito a projecção visual, naquele que foi seguramente o ponto mais negativo da noite. Inicialmente, vemos o mar, a neve e o céu e depreendemos que, do ponto de vista imaginário, fomos transportados da Natureza encantadora de The Magic Place para o mar gélido islandês de Nepenthe. Pouco depois aparece uma mulher morta debaixo de água e assim permanece durante largos minutos. Coisa estranha, especialmente porque “Pyrrhic”, talvez o tema mais lúgubre do novo disco, numa progressão fúnebre tão negra e épica quanto maravilhosa, não fez lamentavelmente parte do alinhamento. Da estranheza passamos à incompreensão quando vemos que o filme de cerca de 15 minutos se repete depois em loop, sem nenhuma ligação com a parte sonora. É apenas “ruído” visual e era francamente dispensável.

Houve momentos lindíssimos e grandes arrepios. Sentimo-nos a levitar nas catarses vocais mais agudas e dificilmente ficamos indiferentes às progressões de sons de “Labyrinthine”, “The Hairbinger” ou na maravilhosa quase canção “One Half”, estes dois últimos com a presença do coro (se não estamos em erro). Por outro lado, foi bem bonita a saída antes do encore (a solo), com Julianna Barwick a entregar simbolicamente cravos vermelhos a todos os companheiros de palco. E bem que precisamos deles…

No entanto, ficamos com a sensação que faltou qualquer coisa. Faltou que a levitação fosse completa e não apenas ocasional. Faltaram mais picos emotivos, capazes de globalmente transportarem a música para outra dimensão. Essa falta não se sente (ainda) em disco, mas aparentemente continua a sentir-se ao vivo. Foi bem bonito novamente, mas não deslumbrou.

Arte-Factos

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