Prisoners

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Uma pequena localidade da Pennsylvania, nos Estados Unidos da América, uma amena e feliz reunião de duas famílias em prol do Dia de Acção de Graças e o inesperado desaparecimento de duas crianças compõem e definem o ponto de partida deste thriller policial de fortes contornos dramáticos, cimentando o nome de Dennis Villeneuve como um dos mais promissores realizadores da actualidade.

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Durante a visualização de Prisoners, foi impossível não associar este filme com outras obras, tais como, o poderoso The Hunt de Thomas Vinterberg, o voraz El Secreto de Tus Ojos do argentino Juan José Campanella e, talvez o mais desconhecido, El aura de Fabían Bielinky, também argentino. No entanto, estas leves reminiscências não fazem Prisoners uma obra alicerçada em referências, pelo contrário… O questionamento da essência humana, a impunidade, o eterno duelo entre “o bem e o mal” e o extremo das emoções mais primárias são, no fundo, os principais recursos motores da história mas, cabe à religião (mais especificamente, ao cristianismo) o papel regente. Esta é simbolicamente retratada, de uma forma opressora e simultaneamente alegórica, por exemplo, na revelação das pequenas cruzes tatuadas no corpo do detective Loki (numa interpretação sóbria, mas contundente, de Jake Gyllenhaal) ou nas frequentes leituras de passagens da Bíblia.

A cena inicial dá-nos a conhecer a personagem principal, Keeler Dover (interpretada por Hugh Jackman), um homem simples, com fortes valores morais e pai de família. A sua voz entoa uma espécie de oração enquanto, como pano de fundo, um pequeno veado é vislumbrado, de forma progressiva, numa floresta coberta de neve. A sobriedade envolvente é interrompida pelo disparo de uma arma contra o animal e o retrato de uma família feliz é-nos revelado: Keeler Dover e o seu filho Ralph celebram o feito do jovem. A relação entre pai e filho, a caça como símbolo do início da vida adulta e um cerimonial de laços de fraternidade onde a dominância do mais forte é predominante remetemse à temática transposta em The Hunt.

A estética naturalista, enclausurada em tempestades de neve e chuvas torrenciais, contrasta com as cores quentes que dominam a composição da fotografia, dando a percepção duma inquietude ou da iminência de um perigo. Tudo isto, potencializado pelos lentos e progressivos planos envoltos, no entanto, numa tensão nervosa permanente.

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Tal como em Rear Window de Hitchcock, um olhar omnipresente domina toda a acção narrativa. Em Prisoners, este olhar é absorvido pelas nuances porosas dos vidros dos carros e das janelas, criando uma sensação de fantasmagoria e de ansiedade. O aparente ritmo morno da acção, as suas sub-histórias e as pistas subtis que vão surgindo ao longo da narrativa revelam-se eficientes recursos ilusórios, pois os acontecimentos sucedem-se em catadupa,

O elenco, encabeçado por estrelas de renome, faz o trabalho de casa muito bem feito. De início, a dupla protagonista actua como dois opostos. Jackman é o pai de família que, assistindo ao desmoronar da própria família, entra numa espiral entre a paranóia e a vingança e, num acto de desespero, enclausura o principal suspeito, depois deste ter sido liberto por falta de provas. Gyllenhall, pelo contrário, é o detective centrado e racional que não descura o caso e enceta uma perseguição mas que, ao longo do desenvolvimento da história, também sucumbe à pressão e se envolve numa espécie de jogo do gato e do rato com o desesperado pai. Infelizmente, os outros personagens são remetidos a segundo plano, tendo uns mais destaque do que outros. A curiosidade de ver um pouco mais do desempenho de Viola Davis, de Melissa Leo (quase genial) e do irreconhecível Paul Dano (o rapazinho do pequeno épico familiar Miss Little Sunshine) deixa um sabor algo amargo.

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Prisoners possui um quê de “noir”, não propriamente por se reger completamente pelas regras do género”, mas pela ambiência negra e fatalista e pela intricada investigação policial. No entanto, é aqui que o argumento peca: a lógica investigacional perde a sua magnitude e a sua frieza, a favor da circunstância e do acaso. Apesar deste lapso, o final consegue ter o seu factor surpresa.

Villeneuve pode não ter realizado o melhor filme do ano, mas esteve relativamente perto. Conseguiu entrar no Olimpo hollywoodesco com uma obra muito competente, que inova e oferece novas pistas para a dialéctica do thriller policial, não poupando o espectador a sentir-se surpreendido e quase obrigado a meter-se na pele das diversas personagens da trama. E este predicado, essencial numa obra cinematográfica, foi conseguido!

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Texto por Paulo Lopes

Arte-Factos

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