Ernest et Célestine

Ernest et Célestine

Ernest et Célestine

A história do cinema tem sido pródiga em relatar relações de amizade improváveis ou menos óbvias. Ernest et Celéstine‭ ‬revisita, em tom de fábula, este conceito.‭ ‬Dois mundos vizinhos e inimigos:‭ ‬a cidade dos ratos, no subterrâneo, e‭, ‬na superfície, a cidade dos ursos.‭ ‬Numa mistura de medo e rivalidade (‬modo fofinho‭)‬,‭ ‬este será o cenário da relação de amizade entre‭ ‬Ernest,‭ ‬um urso, aparentemente rezingão, mas com alma de artista, e‭ ‬Celéstine, uma jovem ratinha inteligente e altruísta.‭ ‬Dirigido a três mãos por‭ ‬Stéphane Aulier,‭ ‬Vincent Peter e Benjamin Renner,‭ ‬o filme é uma adaptação dos livros homónimos da escritora e ilustradora belga‭ Gabrielle Vincent.

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Inimigos por circunstâncias da natureza,‭ ‬ambos são‭ ‬outsiders das respectivas sociedades.‭ ‬Celéstine‭ ‬vive num orfanato e é assombrada constantemente pela sua caquética e divertida educadora,‭ ‬com histórias sobre como os ursos podem ser maus e nocivos para a comunidade dos‭ ‬ratos.‭ N‬o entanto, ela não acredita em tais‭ ‬relatos e, pelo contrário, é fascinada pela cidade dos ursos, acreditando que‭ os dois mundos, ‬poderão deixar de ser inimigos.‭ ‬Ernest é um urso músico e artista de circo,‭ ‬que vive isolado da sua‭ ‬cidade,‭ ‬sempre esfomeado e com um quê de mal disposto,‭ ‬deambulando pelas ruas a‭ ‬tentar a sua sorte. Et‭ ‬Voilá‭!‬Por mero acaso,‭ ‬conhecem-se.‭ ‬Como é‭ ‬normal ‬neste tipo de histórias,‭ ‬o primeiro contacto nunca é o mais ‬pacífico,‭ ‬quanto mais‭ ‬quando um urso faminto se‭ ‬depara com uma suposta iguaria nutritiva e tenrinha. Apesar da aparente desvantagem,‭ ‬Celéstine,‭ ‬com uma dose de inteligência, e sangue frio‭ ‬q.b., consegue desenvencilhar-se da situação e os dois tornam-se uma espécie mais fofinha e politicamente‭ ‬correta de Bonnie and Clyde.

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Com uma premissa narrativa e estética fidedigna à obra‭ ‬literária,‭ ‬Ernest et Celéstine, embora inclua uma força motora cimentada num argumento com os já habituais clichés do género,‭ possuí‬ um enredo dinâmico e eficaz,  felizmente sem‭ ‬didatismos e afloramentos desnecessários.‭ ‬De destacar também a composição visual do‭ ‬filme.‭ ‬Parece que estamos a visualizar um livro de ilustrações feito de fotogramas, de‭ ‬cores suaves e de traços aparentemente minimalistas, ‬que, quando menos se espera, auferem uma dimensão mais panorâmica e pormenorizada das imagens:‭ ‬um‭ ‬colírio para os olhos,‭ ‬isento de efeitos‭ ‬3D e derivados.‭ ‬Tudo isto embalado pela parisiense e ternurenta composição musical de Vincent Caurtois.

A transposição dos dois mundos é quase genial e faz lembrar, num sentido mais cómico e‭ ‬colorido(‭ ‬pois claro!),‭ ‬o épico‭ ‬distópico Metropolis, de‭Fritz Lang.‭ ‬A cidade da superfície, habitada pelos ursos, é mais organizada e‭ ‬avançada,‭ ‬enquanto a dos ratos é‭ ‬mais caótica e com uma estrutura social mais‭ ‬proletarizada.‭ ‬E Ernést e Celéstine terão um papel predominante em aguçar os conflitos entre as duas cidades e, talvez mais tarde, em amenizá-los…

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É de louvar que uma obra de animação ofereça algo‭ ‬refrescante e, ao mesmo tempo, nostálgico das histórias da‭ «‬nossa infância‭»‬.‭ ‬Apesar de ser um filme de carácter‭ ‬universal (‬não se restringindo ao público infantil e ainda bem!), ‬Ernest et Celéstine‭ ‬parece não conseguir ultrapassar, por um fio,‭ ‬um estado de‭ ‬limbo que‭ ‬diferencia, ‬o‭ ‬“filme de animação muito bom‭”‬ do‭ ”f‬ilme simplesmente muito‭ ‬bom‭”‬,‭ comparando-o com outras obras, talvez mais completas em todos os sentidos, como ‬Up,‭ ‬Wall-E‭ ‬ou o mais do que completo‭ ‬Les Tripellets de Belleville.‭ ‬A razão‭? A‬ recriação exímia‭ ‬e cândida‭ ‬da obra inspiradora (embora seja uma mais valia) anula a capacidade de nos abstrairmos de estar a ver uma óptima adaptação de um conto infantil e não  mais do que isto.‭ ‬Não é necessariamente um‭ ‬defeito,‭ ‬pois é esta a verdadeira natureza do‭ ‬filme…‭

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Texto por Paulo Lopes

Arte-Factos

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