Flashback: Black Christmas (Noite de terror)

Flashback: Black Christmas (Noite de terror)

A harmonia da época natalícia, uma residência de estudantes universitária e um perigoso serial killer, que se esconde dentro da própria casa das suas vítimas e as atormenta com chamadas telefónicas‭ ‬no mínimo perturbadoras – antes de fazer o que mais sabe e gosta (matar) – são os principais fios condutores deste Black Christmas (‬ignorando completamente a insípida tradução portuguesa‭) ‬de Bob Clark.

Realizado em‭ ‬1974‭ ‬no Canadá e inspirado na lenda urbana‭ ‬The Babysitter and the Man Upstairs  ‬e numa série de assassinatos que assombraram a cidade de Quebeque, Black Christmas é considerado um dos percursores e inspiradores do denominado slasher movie.‭ Um popular sub-género de filmes de terror ‬que teve o seu auge nos meados da década de oitenta, com os clássicos‭ ‬Friday the‭ ‬13th (de Sean S.‭ ‬Cuningan), Halloween e A Nightmare on Elm Street (ambos de Wes Craven).‭ ‬O que distingue Black Christmas dos seus‭ ‬herdeiros é o facto de ser isento da excessiva espectacularidade criada à volta dos outros psicopatas e‭ ‬não ter sido feita qualquer sequela (mas apenas um inferior remake de 2006, realizado por Glen Morgan). E o mais importante:‭ ‬a narrativa segue uma linha‭ ‬mais policial e sóbria do que particularmente sanguinária, apesar das cenas dos crimes serem fortes, com toques estéticos interessantes e perturbadores.

A trama inicia-se com um grande plano do exterior de uma grande casa (não se vê o seu interior), mas as luzes, as vozes que ecoam denunciam uma festa de Natal. Uma música alusiva às festividades começa a soar, cada vez mais perto, e apercebemo-nos que o olhar que seguimos é de alguém que não pretende ser visto – a sua respiração é cada vez é mais ofegante e animalesca. Sem ninguém reparar, entra por uma janela e consegue alcançar o sótão. O o terror instala-se, de forma progressiva e muito bem calculada por parte do autor.

Alheias ao perigo à sua volta, as habitantes duma residência feminina despedem-se dos convidados do sexo masculino e de valores cristãos e começamos a conhecer melhor as personagens centrais. De facto, é fácil detectar alguns estereótipos que irão ser decorrentes nos filmes do género. A heroína que pressente que algo de estranho se passa e que vive um drama existencial (estando grávida do seu namorado pianista), a virgem assustadiça que se torna a primeira vítima, a menina rebelde e sem papas na língua em quem ninguém acredita e a amiga que, apesar revelar mais bom senso, não consegue escapar à fúria assassina do serial killer (além de outros tipos mais). Os clichés estão lá, sim senhor, mas de uma forma credível e muito bem interpretada pelo grupo de actores. De destacar a presença de Olivia Hussey, conhecida pela sua Julieta na celebrada interpretação de Romeo e Julieta de Franco Zeffirelli, e de Margot Kidder, mais conhecida como a Loris Lane da primeira saga do Super Man.

As perturbadoras chamadas telefónicas, feitas pelo assassino feitas a partir da própria residência, são intercaladas pelos assassinatos e pela investigação criminal.É clara uma mediação entre o thriller investigacional, o suspense, o terror e até um toque de comédia algo inteligente, sempre com a omnipresença dos festejos de Natal: criancinhas a cantar de forma singela, músicas natalícias, casas e ruas ornamentadas com brilhantes e faustosos enfeites e luzes e camadas de neve incessantes. Um panorama aprazível, que se vai tornando algo sinistro, sem cair no exagero desmedido. Os assassinatos vão-se acumulando (quatro ao todo) e tudo aponta para um suspeito,aparentemente improvável (típico do género). O apogeu dos acontecimentos que se sucedem de forma cada vez mais tensa, culminam com um dos melhores e mais enigmáticos finais de filmes do género…

Depois de quase quarenta anos da sua estreia, Black Christmas foi criticado pela imprensa especializada por ser demasiado violento, pelo argumento considerado inconsequente e outras características similares. No entanto, quanto comparada com outros filmes posteriores, a obra apresenta um refinamento e uma linha sóbria de thriller que a destaca e a torna, muito justamente,n uma obra de culto do cinema do género.

Texto por Paulo Lopes

Arte-Factos

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