Top 10 de 2013 por Sérgio Neves

Top 10 de 2013 por Sérgio Neves

Que ano de merda. Desculpem os mais sensíveis a falta de decoro, mas foi um ano terrível. Não foi o ano mais frio de sempre, como diziam que poderia ser, mas foi um ano cheio de mentiras e futilidades na televisão, cheio de austeridade e carências, cheio de desemprego e de pessoas a ficarem mais distantes, e no fundo, foi um ano terrível e deprimente na maior parte dos sentidos. Mas dizem que para o ano tudo melhorará (todos os anos, de forma tão recorrente como o Benfica ser campeão), e que a fé repousa nos ombros da cultura e da criatividade. Felizmente há um raio de luz no meio de toda esta escuridão assustadora, e é esse o campo cultural, que esta equipa tanto se esforça para vos trazer, para que não percam nada. E se houve coisas animadoras e bonitas, eis a minha escolha de coisas que tornaram o ano menos merdoso, ou vá, suportável. E a espaços, mesmo belo.

#10 Festa do Cinema Italiano

Sendo altamente suspeito, por fazer parte da equipa do festival, esta escolha prende-se principalmente pela alegria e glamour de um evento especializado na cultura e cinematografia italiana, pela caracteristicamente deliciosa comida, pelas pessoas bonitas, pelo trabalho árduo e recompensador, e por uma mão cheia de bons filmes que certamente se perderiam na confusão antes de chegarem ao nosso país. Em crescimento e recomendado.

#9 Daft Punk VS Boards Of Canada

Com a medalha para o melhor álbum do ano há muito entregue (podem discuti-lo, mas o top é meu), esperava-se dos Daft Punk que arrebatassem a segunda posição e que trouxessem controvérsia à questão, pelo mediatismo e expectativa. No entanto, além do flop melómano (bronca), não conseguiram sequer inovar na campanha de comunicação e lançamento. Neste campo foram goleados pelos Boards of Canada, banda que nem sequer é do Canadá, e que colocou a internet inteira em busca de dicas em relação a Tomorrow’s Harvest: inscrições em vinis espalhados pelo mundo, números de série em cassettes pirateadas, referências vagas escondidas aqui e ali que no fim encerraram uma caça ao álbum memorável.

#8 Beach House (TMN Ao Vivo)

Ganhei bilhetes num passatempo muito por acaso, e não esperava nada de mais de uma banda que não havia explorado por aí além, ainda para mais num espaço metálico e sufocante que apenas prima pela boa localização. Mas o concerto que os Beach House vieram dar ao TMN Ao Vivo, no Cais do Sodré, em Março deste ano, foi uma das melhores noites lisboetas do ano, e um dos melhores concertos, por vários motivos, mas principalmente pelo ambiente mágico e em suspense da banda de Victoria Legrand, criando uma dimensão alternativa onde tudo era possível, e até pela gracinha de terem tirado uma objectiva à Rita Carmo.

#7 Sigur Rós (Campo Pequeno)

Uma das melhores prendas de aniversário que provavelmente já me ofereceram, no longíquo mês de Fevereiro. Não podendo estar numa qualquer colina verde e fria, perdida algures na Islândia, os Sigur Rós fizeram a sua música deliciosamente lânguida e acalentada ecoar no Campo Pequeno e nos corações de uma sala cheia, de pessoas e emoções. E houve palmas, e houve lágrimas, e houve gritos e arrepios, e houve pancadaria por uma setlist rasgada. E houve epifanias de vida, como se exigem de um momento transcendental que durou um minuto como uma hora, e que engole homens.

#6 CVTHVUS

Outra coisa para a qual não sou nada suspeito, e algo que a maior parte de vocês não conheçam. A pequena revista de ilustração com edições menos frequentes e com menos tiragens de que há memória, ganhou no entanto interesse e seguidores suficientes para se tornar algo de minimamente importante, e engraçado. O mero conceito de contribuição e confronto com um artista diferente por edição, a teimosia de organizar um lançamento com música e convívio e alegria, tudo gerou um quentinho muito especial de um bebé que é meu, e que motiva a coisas maiores e melhores para ela. E este ano as crias mais pequenas já chegaram a três continentes.

#5 Milhões de Festa

Nem toda a chuva do mundo tiraria o encanto do festival da praxe (mas não tentemos o Diabo). Numa edição estranhamente atípica, tanto em entusiasmo como em temperatura, a paixão e o amor de um evento que transcende o calendário e a própria realidade marcaram presença em mais uma edição. A descoberta musical e pessoal, a lendária piscina, os panados do Xispes (que este ano não comi porque as after parties faziam com que fechasse de tarde), tudo acabou por compensar um ano de espera pelo restabelecer e arruinar de energias e espíritos.

#4 Queens Of The Stone Age (SBSR)

O melhor concerto a que assisti este ano, e um dos melhores de sempre, ainda assim efeito totalmente expectável e ao alcance de uma banda portentosa como o são os QOTSA. Vieram a pretexto do lançamento de …Like Clockwork, álbum arrepiante e sinistro, de uma forma viciante, e que ganhou o seu próprio espaço entre os melhores do ano, ao trazer à superfície uma nova vertente do rock árido e repleto de riffs e sedução. Senti-me engolido pela presença de palco, por cada nota dos grandes êxitos e novas malhas, pela emoção de um público que afinal era eu e como eu, a beber cada guitarrada, cada palavra, a reproduzir a letra e a dançar e gritar e esborrachar-se num movimento único de uma mescla que poucas bandas criarão tão bem. E nisto, nota de agradecimento especial aos Surveillance por me terem metido lá dentro; banda que se estreou num grande festival nesse mesmo dia, e que me convidaram a assistir ao seu melhor concerto até agora, mesmo a fazerem com que me sinta orgulhoso.

#3 m b v

O melhor álbum deste ano saiu do fim de uma espera de vinte e um anos, que não posso dizer que tive porque, afinal, só tenho vinte e três de vida. Mas se soubesse então o que sei hoje, seriam uns dolorosos vinte e um anos, mas que provavelmente valeriam a pena. Não sei o que posso dizer, que não tenha já sido dito e repetido umas quantas dezenas de vezes, mas a emoção trémula ao ouvir pela primeira vez esta dádiva, foi algo de especial. A puxar a lágrima do fundo da alma. Ainda assim há menções honrosas (e sem ordenação) para os Atoms For Peace, o álbum fresco dos Toro y Moi, o regresso de Mazzy Star, a pequenina brasileira Nana e os duríssimos Deafheaven, além de todos os outros referidos neste top.

#2 Música Portuguesa

Linda Martini ©Dunya RodriguesPodemos concordar que a música portuguesa deu vários exemplos de boa saúde, vontade e talento. Parece desenvolver-se ainda com mais força pelos meandros de uma crise que entope tudo menos essas mesmas qualidades. Ficam para a posteridade o regresso pela porta grande dos Linda Martini, os Glockenwise lançaram o seu Leeches, Filho da Mãe compôs o seu melhor álbum até agora (Cabeça), os Black Bombaim e os La La La Ressonance uniram-se brevemente, criando uma super-banda de espectacularidade sonora, os Torto acabam de apresentar o seu homónimo, os Surveillance criaram um split ibérico, Jibóia tem agora uma experiência imensa e deliciosa, fomos servidos ainda de Sequin, Ana Figueiredo e uff, é melhor parar antes de ficar sem espaço no parágrafo.

#1 Festas Arte-Factos

Sim. Estou-me nas tintas para o que possa parecer chupismo ou auto-promoção, a melhor coisa deste ano para mim foram as festas da Arte-Factos. Ou o Arte-Factos? Perguntei ao chefe precisamente numa das primeiras festas e ele não me soube dizer o sexo disto. Mas não divagando, está escolhido, pelas bonitas grandes bandas que eram convidadas, pelos menos que bonitos cartazes que me fizeram fazer, e pelas mais que bonitas pessoas e pelos momentos felizes que me proporcionaram, dentro e a partir do saudoso Bacalhoeiro. A grande falha para este ano “lectivo” é mesmo não haver mais. Ou será que haverão?

Arte-Factos

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