Top 10 de 2013 por Edite Queiroz

Tendo visto muito pouco cinema no ano de 2013, apraz-me de qualquer forma assinalar que me parece ter sido um ano muito razoável. Correndo o risco de deixar de fora alguns trabalhos que mereciam estar neste top – e que acumulo numa lista interminável de “coisas para fazer” – aqui fica o registo dos dez filmes estreados em Portugal em 2013 que mais me encheram os olhos, me comoveram, me surpreenderam ou me fizeram reflectir. Como no ano transacto, os meus favoritos têm em comum a mão do realizador no argumento (notável, a diferença que isso faz) e, na maioria dos casos, um trabalho de direcção com uma assinatura inconfundível, para além de memoráveis desempenhos de actores estreantes e veteranos. Os dez argumentos versam sobre acontecimentos e histórias comuns, reais ou imaginados, mas expõem-nos de uma forma invariavelmente arrebatadora.

#10 En kongelig affære

#10 En kongelig affæreEn kongelig affære / Um caso real adapta pela primeira vez ao cinema a história do romance da rainha Carolina Matilde (Alicia Vikander) com o médico da corte (Mads Mikkelsen), um caso amoroso que mudou o rumo da história da Dinamarca no final do séc. XVIII, pondo fim à monarquia repressiva de Cristiano VII (um monarca que padecia de violentos distúrbios mentais, aqui soberbamente interpretado por Mikkel Følsgaard). Sólido, com boas interpretações, uma direcção artística de excelência e um argumento fiel aos acontecimentos que relata, é um filme indispensável para apreciadores do drama de época. Na corrida aos Óscares de 2013, foi nomeado para melhor filme estrangeiro. O argumento e o desempenho de Mads Mikkelsen foram premiados no festival de Berlim.

#9 Lore

#9 LoreUma obra sobre a ferida aberta do Holocausto, que neste caso acompanha a fuga de quatro irmãos após a capitulação da Alemanha e, nessa viagem, a descoberta dos paradoxos, fantasmas, mentiras e ilusões criados pelo nazismo. Tem como novidade o foco no impacto do Holocausto nos filhos do regime, uma abordagem pouco explorada e definitivamente desconcertante. Excelente desempenho da estreante Saskia Rosendahl.

#8 Blue Jasmine

#8 Blue JasmineO regresso de Woddy Allen aos Estados Unidos depois de três obras filmadas na Europa afasta-se do registo cómico dos últimos anos e apresenta um conto agridoce sobre a história de uma Blanche Dubois contemporânea. O argumento está certamente entre os melhores já produzidos por Woody Allen e o desempenho incrível de Cate Blanchett decerto que lhe irá valer alguns prémios de interpretação – conta, para já, com uma série de nomeações para prémios em vários certames que, muito provavelmente, culminarão na nomeação para o Óscar de melhor actriz.

#7 Before Midnight

#7 Before MidnightQuase 20 anos depois de se terem conhecido num comboio a caminho de Viena, Jesse e Celine constituíram finalmente uma família. Mas o encantamento inicial já há muito se perdeu e a vida adulta e suas vicissitudes arrefeceu o romance. Como se constrói e se mantém um projecto de vida a dois que resista à passagem do tempo? Richard Linklater fecha com chave de ouro a trilogia da história de Jesse e Celine com um filme mais real do que idealista, expondo os alicerces mas também as fragilidades de uma relação aparentemente perfeita. Os actores, que assinam também o argumento, mostram que a química não se perdeu.

#6 E agora? Lembra-me

#6 E agora Lembra-meO relato de amor e sobrevivência de Joaquim Pinto, que continua a fazer uma brilhante carreira em festivais nacionais e internacionais, não cabe neste campeonato, no entanto, é impossível deixar de mencioná-lo. Extremamente competente do ponto de vista técnico, é um documentário profundamente pessoal muito difícil de condensar numas quantas observações: cada um poderá avaliar o impacto do tanto que nos mostra. É um filme absolutamente obrigatório.

#5 Django Unchained

#5 Django UnchainedCom um elenco de luxo, uma grande banda-sonora e diálogos inspirados e profundamente sarcásticos, como é apanágio do inconfundível estilo de Tarantino, a grande produção de inspiração spaghetti western arrebatou, em 2012, o Óscar de melhor argumento original e o Óscar de melhor actor secundário para Christoph Waltz. Django Unchained é extremamente violento e excessivo, mas também muitíssimo divertido, inserindo a paródia num universo altamente sui generis.

#4 Jagten

#4 JagtenNo filme que valeu a Mads Mikkelsen o prémio de melhor actor em Cannes 2012, Thomas Vinterberg aborda uma vez mais a temática da pedofilia. Jagten / A caça é um drama perturbador sobre o inferno que recai sobre um homem injustamente acusado de assédio sexual. Muitíssimo inteligente, levanta questões pertinentes acerca da presumível natureza inocente das crianças numa sociedade extravasante de informação, que há muito perdeu a capacidade de limitar o acesso simplificado, às crianças, de conceitos que não têm como interpretar. Enorme desempenho de Mads Mikkelsen.

#3 De rouille et d’os

#3 De rouille et d'osNo drama de Jacques Audiard (realizador do aclamado “O profeta”), a estranha história de amor sem romance entre Ali e Stéphanie, duas personagens escoriadas pela vida, desenvolve-se a ritmo lento, por meio de acontecimentos críticos e sempre à sombra do fantasma do desastre. Algo violento do ponto de vista emocional, De rouilleetd’os é um filme atípico nos afectos que suscita, mantendo-se imune ao sentimentalismo barato e abordando a questão do “amor funcional” com uma crueza e lucidez assinaláveis. Com uma belíssima fotografia e um desempenho comovedor de Marion Cotillard.

#2 Le Passé

#2 Le PasséO iraniano Asghar Farhadi apresenta mais um drama familiar poderoso, na linha de Uma separação, que como o seu antecessor analisa a (dis)funcionalidade das famílias, do divórcio e do impacto das desavenças conjugais nas crianças, reforçando os aspectos universais desta temática quando analisados à luz da questão da interculturalidade. Nomeado para a Palma de Ouro, o filme arrecadou o Prémio do Júri Ecuménico em Cannes 2013, festival que premiou ainda o desempenho de Bérénice Bejo no papel do vértice feminino de um subtil triângulo amoroso.

#1 La Vie d’Adèle

#1 La Vie d'AdèleO filme vencedor da Palma de Ouro de Cannes 2013 é um olhar sincero e contemplativo sobre a descoberta do amor e da sexualidade, com um subtexto acutilante acerca das determinantes socioculturais do comportamento e das relações. O seu estilo naturalista, um argumento muitíssimo bem escrito, uma direcção de actores extraordinária e desempenhos de corpo e alma fazem de La vie d’Adèle um filme certamente inesquecível, para lá da celeuma que continua a gerar e da memória dos prémios já arrecadados. A protagonista, Adèle Exarchopoulos, será eternamente… Adèle.

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