12 Anos Escravo (12 Years a Slave)

12 Anos Escravo (12 Years a Slave)

12 anos escravo

No ano recentemente findo,‭ ‬foram exibidas duas obras que‭ ‬revisitaram e  recriaram (‬à sua maneira‭) ‬a história da escravatura nos Estados Unidos.‭ ‬Steven Spielberg,‭ ‬com‭ o tecnicamente‭ ‬aprimorado,‭ ‬embora‭ ‬insosso‭, ‬Lincoln‭ e o delírio‭ ‬kitsch Django Unchained‭, de‭ ‬Quentin Tarantino.‭ ‬Apesar 12‭ ‬Years a Slave‭ ‬poder ser rotulado como‭ ‬um híbrido entre‭ ‬as referidas obras,‭ ‬esta‭ ‬não deixa de ser uma consideração‭ ‬algo redutora e superficial‭ ‬sobre a última estocada‭ ‬fílmica de‭ ‬Steve McQueen,‭ ‬adaptada da autobiografia de‭ ‬Solomon Northup‭ ‬(um importante  activista ‬da abolição da escravatura nos Estados Unidos).‬

Em‏ ‎1841, um homem livre de raça negra‏ ‎é raptado nos arredores de Nova Iorque,‭ ‬numa‭ ‬época em começavam‭ ‬a surgir manifestos‭ ‬sobre a‭ ‬abolição da‭ ‬escravatura,‭ ‬apesar da oposição dos estados‭ ‬sulistas,‭ ‬que viam‭ ‬na prática do trabalho escravo‭ ‬um grande impulso económico.‭ ‬Obrigado pelo seus algozes a mudar de identidade (‬a de um escravo fugitivo da‭ ‬Geórgia‭)‬ e ‬consequentemente vendido como escravo no ‭ ‬Louisiana‭‬,‭ ‬enfrentou uma condição humana que, apesar da sua cor de‭ ‬pele,‭ ‬lhe era completamente alheia.

12 Years Slave 2

Com uma ‭ ‬dialéctica narrativa que  ‬apresenta uma linguagem mais próxima do cinema tradicional ‬do que os seus filmes anteriores,‭ ‬McQueen ‬transpõe a história de Solomon através de diversas elipses temporais que se cruzam entre o‭ ‬passado,‭ ‬o‭ ‬presente e o futuro.‭ ‬A‭ ‬trama inicia-se com‭ Solomonjá na condição de escravo,‭ ‬a‭ ‬trabalhar numa plantação‭, uma sequência de imagens que‭ ‬projecta de uma forma lentamente fotográfica,‭ ‬quase documental,‭ ‬a dura e triste vivência da‭ ‬personagem.

Flashbacks do passado‭ ‬colidem com o presente ‬de uma forma minuciosa e precisa:‭ ‬vemos um extremoso pai de família,‭ ‬que trabalha como carpinteiro e‭ ‬violinista,‭ ‬presenciamos o convite que recebe para fazer uma digressão com uma companhia de circo‭ ‬itinerante até que,‭ ‬numa noite e‭ ‬sem suspeitar de nada,‭ ‬Solomon se vê preso num calabouço.‭ ‬Ao declarar que é um homem livre,‭ ‬a palavra‭ ‬nigger‭ ‬ecoa sem rodeios anunciando que estará constantemente presente,‭ ‬e uma espiral de violência dramática inicia-se sem pedir permissão.

O percurso da personagem é contado tal qual uma saga ou epopeia,‭ ‬onde o‭ ‬herói‭ ‬se cruzará com diversas personagens‭ ‬e  sentirá na pele uma realidade que não conhecia,‭ ‬tudo isto em vagarosos e horríficos‭ ‬12‭ ‬anos.‭ ‬Uma espiral de‭ ‬exercícios de poder‭,‬ em todas as  formas:‭ ‬da agressão física‬ à‭ ‬possessão e ‬à‭ ‬obsessão,‭ ‬passando‭ ‬por músicas com‭ ‬sentido‭ ‬pejorativo e leituras‭ ‬etnocêntricas da‭ ‬bíblia.

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McQueen‭ ‬é ‬definitivamente um artesão de imagens e um contador de histórias‭ ‬humanamente complexas.‭ ‬Pegando ‭‬num argumento de certo modo‭ ‬simplório e‭ ‬linear,‭ ‬dono de uma temática‭ ‬amplamente explorada e com um final antecipadamente‭ ‬previsível,‭ ‬o realizador utiliza como recursos técnicos uma fotografia ampla,‭ ‬imponentemente absorvida ‬de pormenores e simultaneamente dinâmica,‭ ‬intercalada com nuances musicais variadas que ajudam a compor a atmosfera pretendida. ‭É‭ de ‬realçar a beleza‭ ‬emocional e‭ ‬catártica das músicas gospel aliadas‭ ‬à‭ ‬imagem, enquanto,‭ ‬por‭ ‬outro lado,‭ ‬as melodias mecânicas‭ ‬acentuam o estado de tensão permanente‭ ‬.‭ ‬Um conjunto de descargas sensoriais‭ ‬que não‭ ‬permitem qualquer fôlego ao espectador alternam entre a violência narrativa e os grandes‭ ‬planos de um Louisiana‭ ‬selvagem e de beleza melancólica.‭

Outro ponto‭ ‬de destaque é‭ ‬o‭ ‬conjunto de personagens ‬ que ladeiam a‭ ‬personagem principal e que irão‭ ‬condicionar o seu rumo.‭ ‬ Embora‭ ‬uns sejam mais secundários do que‭ ‬outros,‭ ‬todos‭ ‬correspondem a estereótipos da temática do género‭; ‬no entanto, devido à cuidada‭ ‬direcção de‭ ‬actores,‭ ‬o trabalho competente‭ ‬do elenco‭ ‬ destila entrega e veracidade, sendo  ‬uma das‭ ‬mais-valias do‭ ‬filme e ‬cimentando um universo de personagens marcantes e‭ ‬substanciais no quesito humano.‭ ‬Paul Giammatti, Brad Pitt e Paul Dano‭ ‬são somente alguns nomes que irão aparecer ao longo da narrativa, mas ‬ é importante realçar o trabalho de outros‭ ‬três actores: Michael Fassbender,‭ ‬um habitué‭ ‬da‭ ‬(ainda curta‭)‬ filmografia do realizador,‭ ‬no papel de‭ ‬um execrável e alucinado ‬fazendeiro‭ ‬contaminado‭ ‬pela‭ ‬obsessão desmedida por uma escrava‭;‬ a jovem surpresa Lupita Nyong‭’‬ocuja interpretação dessa escrava é merecedora do Óscar de melhor‭ ‬atriz secundária ou,‭ ‬pelo menos, de uma‭ ‬nomeação para tal; e ‬Chiwetel Ejiofor, sóbrio e‭ ‬verosímil como Solomon.‭

12 Years Slave 1

Revestido da capa de uma produção digna de consagração pela Academia de Hollywood‭ (o que pode‭ ‬afugentar ou despertar‭ ‬o seu‭ ‬interesse‭)‬ McQueen‭ ‬joga com os‭ ‬arquétipos do cinema‭ ‬convencional de forma notável,‭ ‬nomeadamente na‭ ‬temática utilizada, fazendo‭ ‬um‭ ‬exercício de realização‭ ‬inteligente e subversivo.‭ ‬O seu intento,‭ ‬ao jogar com as emoções, não parece ser, de modo algum, despertar o choro ou fazer do espectador um observador‭ ‬privilegiado ou‭ ‬contemplativo,‭ ‬envolto numa‭ ‬espécie de concha‭ ‬aconchegante,‭ ‬mas simplesmente‭ ‬confrontá-lo com uma‭ ‬história brutalmente real‭ ‬que grita à‭ ‬consciência,‭ ‬não permitindo escapatória ‬ou tentativa de alienação.‭

Depois dos contundentes ‬Hunger e Shame,‭ ‬McQueen volta a surpreender e a afirmar-se como um dos nomes do cinema contemporâneo a ter em conta.

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Texto por Paulo Lopes

Arte-Factos

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