Steve McQueen: quando a realização é a verdade que não se vê

Steve McQueen: quando a realização é a verdade que não se vê

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Com uma lista impressionante de curtas-metragens, passando por várias outras áreas da arte e da cultura, Steve McQueen, realizador britânico, escreveu o seu nome no cinema internacional com o filme Hunger (2008).

Uma narrativa sobre os republicanos irlandeses, membros do IRA residentes em West Belfast, que em 1981, após 5 anos dos confrontos conhecidos como «Troubles», surpreenderam o mundo com a sua luta pela independência, a resistência e a tenacidade; estes jovens voluntários, altamente politizados, com pouco mais de 20 anos, passaram dezenas de dias na Crumlin Road Jail, em Belfast, colocados nos chamados «H blocks» (pela forma física do conjunto de celas onde, de um lado, estavam os loyalists, defensores da coroa britânica e do outro os republicanos, com um corredor a meio para os dividir) onde morreram após a greve de fome que encetaram para denunciar as mentiras de Thatcher, o seu tratamento não como presos políticos mas como presos comuns e a matança que imperava contra os defensores da República da Irlanda e a sua unificação.

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A audácia e crueza com que McQueen relatou os blanket protests de Bobby Sands, o nome mais conhecido dos 12 grevistas de fome, eleito parlamentar durante a sua prisão (com mais votos do que Thatcher), valeu ao realizador britânico a Caméra d’Or em Cannes e um prémio no Sydney Film Festival, o Prémio Diesel no Toronto International Film Festival, entre outros. Também aqui a interpretação intensa e marcante de Fassbender marcou uma reunião que tem valido filmes cuja história e imagem se coadunam na perfeição com a intensidade que Fassbender imprime aos personagens que interpreta. Uma visão asséptica da violência, com um grafismo tantas vezes chocante e narrativas (muitas vezes sem palavras) que causam a sensação de se estar a ser torpedeado com a verdade que não se vê.

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McQueen repete o feito em Shame (2011). A história de uma relação estranha, insidiosamente incestuosa entre dois irmãos distantes (Michael Fassbender e Carey Mulligan), desestruturados, que lidam com as suas inseguranças, a sua obsessão com o sexo e a batalha entre alguém que sente a necessidade de ser amado e alguém que apenas é preenchido pelo vazio anestesiante dos não sentimentos. Embora apontado como muitos como a grande obra-prima de McQueen, não é mais aterrador do que Hunger nem tão pouco relata a indiferença que atinge no seu recente 12 Years a Slave (2013).

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Este último filme, já por aqui criticado, aborda uma vez mais as questões raciais nos Estados Unidos (tema recorrente na história deste país, com reflexos evidentes na sua cultura literária e cinematográfica), fala na primeira pessoa e é inequivocamente reflexo do grafismo impressionista das cenas de McQueen. Duas cenas são particularmente evidentes do génio de McQueen como pintor de sentimentos; na primeira, Solomon Northrup (Chiwettel Ejiofor) permanece vários minutos em cena pendurado numa corda, em bicos de pés, movendo-se lentamente para não morrer sufocado, enquanto, à sua volta, a vida corre normalmente no prado do senhor esclavagista seu proprietário. A duração e intensidade do plano dificilmente não terá levado qualquer um dos espectadores a querer levantar-se e cortar a corda; o mesmo acontece quando Fassbender (mais uma vez genial na sua representação do fazendeiro Edwin Epps), no seu delírio racista, manda Solomon chicotear a sua escrava preferida, Patsey (Lupita Nyong’o), tomando posteriormente o chicote nas suas mãos, planos em que claramente se vê a pele a separar-se da carne e a explodir em sangue. Não admira que,  tão poucas semanas depois da sua estreia, seja já em Portugal um filme obrigatório.

Steve McQueen: the 12 Years A Slave director is working on a drama for the BBC

Mas McQueen não se fica por aqui. Já galardoado pelo prémio Turner, criou um memorial a todos os soldados enviados pela Inglaterra para o Iraque, reproduzindo em milhares de selos postais a cara dos soldados mortos.

Não é um realizador que escolha temas fáceis ou pouco polémicos. Não tem medo de retratar o que pensa, independentemente da brutalidade com que o faz. Os exageros (ou supostos exageros) dos seus planos são dolorosos, mas têm a vantagem de quebrar qualquer apatia ou espírito entorpecido nos dias que correm. A sua excepcionalidade, só por estes três filmes, vale-lhe já a capacidade de nos «obrigar» a ver o seu cinema e a ficar com ele a remoer dentro de nós  durante dias, semanas, meses, anos. E a revisitá-lo, se capazes formos de aguentar.

Texto por Lúcia Gomes

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