Entrevista aos Capitão Fausto

Entrevista aos Capitão Fausto

Capitão Fausto

Os Capitão Fausto têm vindo a crescer a olhos vistos nos últimos três anos. Depois de terem lançado em 2011 o primeiro longa-duração “Gazela”, abriram portas a este novo ano com o seu segundo álbum  “Pesar o Sol” e nada melhor do que conversar o mais espevitado destes 5 rapazes lisboetas, o baixista Domingos Coimbra, ou “Lameira” para os amigos, para perceber o que paira na mente dos membros de uma das mais talentosas bandas que Portugal viu nascer na última década.

Com a balança das críticas a pender para o lado positivo e a destacar a vossa fase de maturação, sentem que este segundo álbum trouxe uma jovialidade redefinida aos Capitão Fausto?
Felizmente as pessoas têm gostado muito do disco e é óptimo sabermos disso. Não é nosso objectivo redefinir a música que fazemos ou a jovialidade que delas surge. No entanto, ficamos contentes com a boa reacção ao facto de não ser nosso objectivo fazer discos iguais ou pelo menos muito semelhantes. A nossa tendência será sempre essa.

Estão satisfeitos com a fórmula que usaram nas gravações do “Pesar o Sol”? Ou ainda há pequenos aspectos que gostavam de ter corrigido já depois de as canções estarem produzidas e masterizadas?
O disco foi gravado no Verão de 2012. Ao contrário do Gazela existiu uma preocupação maior em cuidar melhor os sons, as técnicas de captação de instrumentos, a própria utilização de diferentes instrumentos para fins diferentes. Em primeiro lugar foi possível porque tínhamos mais tempo para gravar do que no Gazela. Em segundo lugar porque já conhecíamos melhor o Nuno Roque, que gravou e misturou ambos os discos. Em terceiro lugar, já tinhamos uma ideia mais clara daquilo que queriamos fazer e por isso foi mais fácil alcançar uma série de ambições que tínhamos para o Pesar o Sol. Ficámos muito contentes com o resultado da masterização que acabou por reforçar todos estes factores, o Greg Calbi fez um trabalho muito fixe.

Hoje em dia há sempre coisas que se mudavam, mas o disco é uma fotografia da banda naquele momento e se na altura sentimos que o resultado era o desejado hoje mantemos a mesma opinião. O mesmo em relação ao Gazela.

Contem-nos lá: aquela adega em que gravaram o álbum e as uvas que por lá andam têm mesmo poderes cósmicos ou não?
Altamente cósmicos. Vinho já não se faz na Adega, na verdade fez-se música. Ainda assim quando não se gravava davam-se passeios pelas vinhas, também elas cósmicas, e muito bonitas.

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Já têm as músicas todas alinhavadas e bem ensaiadas para os concertos que aí vêm?
Demorou mas sim, já estão. Há quem diga que somos os maluquinhos dos ensaios mas na verdade deixamos sempre tudo para a última.

Têm tendência para construir o álbum de modo a que este possa ser tocado ao vivo exactamente como foi gravado? Ou gostam de fazer uns quantos overdubs para abrilhantar a coisa?
O disco foi gravado com todos a tocar ao mesmo tempo na mesma sala, e é por isso muito natural e vive da energia dos cinco. Somos por isso capazes de o representar quase na totalidade (infelizmente o Francisco não é um polvo e não consegue utilizar os seis ou sete teclados utilizados para gravar) mas gostamos de acrescentar algo nas músicas em concerto. É fixe um concerto não ser uma representação exacta do disco, são aliás coisas diferentes. Por isso temos esse cuidado.

Neste segundo disco mantiveram a escolha do produtor, o Nuno Roque. Quem vos conhece, sabe que têm um grande carinho por ele. O que é que diferencia o Nuno dos outros produtores que existem no nosso país?
A grande diferença não sabemos, o que sabemos é que é um grande amigo nosso e na música estamos bem quando estamos com pessoas com quem queremos estar. O Nuno tem imensa experiência, já fez parte de grandes bandas portuguesas  e conhece a nossa música melhor do que ninguém.  Já nos atura há uns anos na estrada!  Quando quer contribuir sabemos sempre que é uma opinião para termos em conta. Foi o primeiro a achar boa ideia desmontar o estúdio todo dele para o montar na Adega. Foi muito importante na produção do disco, principalmente a montar estruturas de algumas canções. Não sabemos bem a diferença dos outros produtores, mas gostamos muito de trabalhar com ele.

No interior do álbum encontramos um breve agradecimento a poetas como o Cesário Verde, Arnaldo Saraiva e Fernando Pessoa, mas também ao Bob Dylan. São eles que vos inspiram na fase de escrita das letras? Se ouvirmos a “Ideias” com atenção, encontramos, por exemplo, algumas referências ao “Guardador de Rebanhos” de Alberto Caeiro…
Sim, não são propriamente influências directas, nem as bandas que ouvimos o são. Não costumamos pensar nas referências quando compomos ou escrevemos o que quer que seja. O Tomás na altura estava a ler muito esses autores e achou por bem mencioná-los.

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Ainda falando nas vossas referências, há quem vos vá chateando por aparentemente se “colarem” muito à sonoridade dos Tame Impala. Sentiram, nalgum ponto, que a escolha do Greg Calbi- que já trabalhou com os próprios Impala, bem como com os MGMT, Kurt Vile e Bob Dylan- não podia adensar mais esta comparação que tem surgido nos últimos tempos?
A masterização não aproxima discos uns dos outros, a masterização é a fase final da produção sonora do álbum. O que interessa é tudo o que vem detrás, desde as gravações às misturas. O que a masterização faz é assimilar tudo isso e exponenciar seja um álbum de folk, de Rock ou de Punk da taberna da esquina. Escolhemos o Greg Calbi não por ser nosso objectivo soar a esta ou aquela banda, mas porque todos os discos em que ele trabalhou têm uma massa sonora muito interessante e cuidada.

Gostamos muito de Tame Impala, de facto há quem diga que está parecido. Mas não foi de todo a maior referência para este disco. É uma banda que ganhou um carinho muito especial desta geração e é um carinho merecido, são quase a cara da onda revivalista que tem aparecido. Com esta onda há quem ache que Tame Impala é por si só um género, muito devido ao facto de terem trazido esse lado revivalista e soar ainda assim a novo. Mas na verdade também eles vão buscar referências aonde nós vamos desde putos, seja aos Beach Boys, aos The Nazz, aos Zombies, aos Beatles, por aí.

Uma das faixas que encerra o vosso disco anterior homenageia no seu título o José Cid, que vocês admitem admirar sobretudo pelo seu trabalho no “10.000 anos entre Vénus e Marte”. O que acham desta iniciativa da “Mãe do Rock” decidir tocar ao vivo os temas que vos inspiraram a navegar pelas ondas do prog?
Achamos muito bem, é um disco que merece ser tocado ao vivo porque ganhou um carinho especial dos fãs de prog em Portugal. E porque é um disco bom, talvez o último grande grito do prog rock em Portugal.

Gostavam de ser convidados para fazer a primeira parte do concerto?
Talvez um dia te conte a ideia maquiavélica por detrás deste concerto!

Focando-nos ainda nas actuações ao vivo, mas agora nas vossas: sabemos também que em Dezembro deram uma série de concertos para testar as canções do “Pesar o Sol”, o que não é muito comum antes do lançamento dos álbuns. Como é que correu essa mini tour de Norte a Sul e do Litoral ao Interior e porque é que a decidiram fazer à moda antiga?
Correu muito bem. Queríamos pela primeira vez dar uma série de concertos e não voltar a casa. Oldschool. Sentimos que ainda há muitos sítios por onde tocar em Portugal e há muito trabalho a ser feito. Não nos apetece cair na espera de dar poucos concertos mas em espaços maiores ( adoramos claro). Gostámos muito da ideia de tocar em clubes pequenos para menos pessoas mas num formato mais próximo. Vamos repetir.

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Guardaram dessa pequena digressão alguma história de estrada que supere a epopeia que tiveram com os porcos na A1?
Não foi tão épica como porcos na Autoestrada, mas conhecemos o maior bluesman Português, escondido nos confins de Esposende num bar de pescadores às 7 da manhã que metia o Rodriguez num saco. O Pedro. A digressão chama-se agora “Tour Peter Pedro” entre nós, e havemos de gravar um disco com o Doutor se alguma vez o voltarmos a ver.

Deu para cumprirem as datas da tour sem perder dinheiro? Ou foi difícil por estar Portugal mais perto de “rebentar”, como evocam na “Lameira”?
Felizmente sim, e aí temos de agradecer a quem está a trabalhar connosco. Ao Hélio Morais, ao Paulo Ventura e à Metronomo, à Raquel Lains e à Sony, que trabalharam muito para que tal fosse possível. Temos noção que temos muita sorte em ter esta ajuda, e há muitas bandas que não têm essa possibilidade. Relativamente à Lameira, o que fizémos em relação a isso foi deixar as bandas locais abrirem os nossos concertos sempre que possível. Ou rebentamos todos ou não rebenta ninguém.

Falando noutras coisas: como é que se sentem depois de ter assinado o contrato com a Sony Music? Impuseram-vos algum tipo de condições que vos deixasse mais reticentes? Ou, pelo contrário, deram-vos luz verde para todo o tipo de ideias, sem pôr no vosso caminho barreiras ou filtros?
Mais do que ser uma editora independente ou uma major, queríamos estar a trabalhar com pessoas em quem podemos confiar. Já conhecemos a Paula Homem há muito tempo e queríamos ter a oportunidade de trabalhar com ela. Felizmente foi possível trabalhar não só com ela mas com um grupo fantástico de pessoas de bem. Estamos muito contentes e temos liberdade para fazer aquilo que queremos fazer, caso contrário nunca aceitaríamos nada.

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Acham que o facto de assinarem por uma major pode ser mal interpretado? Ou, tal como os Linda Martini, não se preocupam com isso, até porque a vossa essência continua a mesma?
De todo. Se alterasse o que quer que fosse não o faríamos. É muito fixe editoras maiores apostarem ou em nós ou nos Linda Martini ou em qualquer outra banda que não seja propriamente o “catálogo” mais directo ou imediato. Mostra que também elas estão preocupadas em acompanhar o que se faz por cá nas mais variadas frentes da música portuguesa. Pluralismo, a decisão final será sempre das bandas que podem hoje beneficiar com um crescente número de editoras tanto independentes como grandes que apostam em música portuguesa. Não somos propriamente defensores de uma ou de outra mas este será o ponto essencial a retirar desta questão.

Houve, durante algum tempo, um burburinho incomodativo que previa que todas as faixas deste novo registo de estúdio fossem semelhantes à “Teresa”, acabando vocês por torná-las no exacto oposto, livrando-se dos refrães orelhudos no “Pesar o Sol”. Fizeram-no como reacção directa a essas más-línguas, ou decidiram apenas que estava na altura de crescer musicalmente, o que envolvia cortar com essa parte mais catchy?
Nada foi premeditado. O Pesar o Sol foi composto num curto espaço de tempo e na altura sentimos que as músicas não estavam a caminhar tanto nessa direcção e resolvemos não fazer nada em relação a isso. Foi tranquilo, deixar seguir sem pressão. Mesmo não sendo tão imediatas sentimos que as canções são cantáveis, não existe uma parte que não seja possível de cantar. O disco não vive desse virtuosismo .

Acham que, tal como o navegador que consegue manter o raio de luz solar a passar pelos dois furos na técnica do “Pesar o Sol”, já atingiram o ponto que pretendiam alcançar na vossa carreira? Já tocaram nos palcos principais dos maiores festivais, têm milhares de fãs e casas cheias na maior parte dos sítios por onde passam. O que pode vir a seguir?
Felizmente tem corrido tudo muito bem.Estamos bem. Queremos fazer mais música para as pessoas que nos querem ouvir. Gravar mais discos, tocar mais. Acreditamos que as bandas em Portugal se fazem com uma carreira e não com este ou com aquele disco.

Entrevista por Henrique Mota Lourenço

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