Oscars 2014: Previsões

Oscars 2014: Previsões

Oscars 2014

O glamour Hollywoodesco atinge hoje os píncaros, com a noite mais longa do cinema americano. Os dados estão lançados para a cerimónia dos Oscars 2014, Ellen Degeneres prepara-se para a estreia enquanto mestre de cerimónias e nós juntamo-nos à festa.

Eis as previsões e classificações da equipa residente de cinema do Arte-Factos, constituída por Bruna Oliveira, Edite Queiroz, Isabel Leirós, João Torgal, Lúcia Gomes, Paulo Lopes e Salomé Coelho.

Tabela Oscars

João Torgal

Filme. Tal como no ano passado, não há um favorito óbvio na selecção do melhor filme. Na pole-position parecem estar as odisseias sobre a escravatura e a alta finança, o que quer dizer 12 Years Slave e The Wolf of Wall Street. Se a Academia quiser premiar pirotecnia e ilusões em vez de cinema, talvez a escolha recaia em American Hustle, mas esperemos que não. Enquanto isso, o deslumbrante Her corre por fora.

Realizador. Um veterano e um realizador em início de carreira, um mestre do cinema e um outsider vindo das artes plásticas. Eis Martin Scorsese e Steve McQueen, os dois grandes favoritos nesta categoria. Não havendo lamentavelmente Spike Jonze nos nomeados (com um trabalho de laboratório impressionante) e assumindo que não vai haver uma golpada para David O. Russell, a surpresa pode estar em Alfonso Cuarón (Gravity). Tem o mérito de pegar num argumento que parece escrito por uma criança de 7 anos em fase de desinspiração e fazer dele um filme que não é totalmente desinteressante.

Interpretações. A Golpada Americana reúne nomeações nas quatro categorias de interpretação e apetece perguntar: a sério? Independentemente do mérito dos actores, como é que um filme que se desinteressa tanto pelas suas personagens pode atingir tal estatuto? Valha-nos a intuição de que não ganhará nada. Nos principais desempenhos, a coisa parece entregue ao surpreendente Matthew McConaughey (Dallas Buyers Club) e a Cate Blanchett, que, em Blue Jasmine, leva às costas o regresso de Woody Alen aos grandes filmes. Mais aberta será a decisão nas interpretações secundárias. Jared Leto parece o favorito, assegurando a dupla vitória masculina para Dallas Buyers Club. Até porque, depois de dois avassaladores desempenhos em Hunger e Shame, Fassbender surge nomeado com um papel claramente mais discreto. Nas meninas, assumindo que Jennifer Lawrence não faz um bis (moderem-se…), tinha a sua piada que o prémio fosse arrebatado pela ilustre desconhecida Lupita Nyong’o, a principal escrava na obra de Steve McQueen. Seja como for, lamentam-se algumas ausências de peso. Onde andam Joaquin Phoenix ou Mads Mikkelsen (The Hunt)? E, acima de tudo, vale a pena questionar se a academia viu o Prisoners. Hugh Jackman foi nomeado em Os Miseráveis, mas este ano não? De certeza que não viram o filme.

Argumento. É no argumento original que Her tem mais hipóteses. Será justo por muitas razões (e todos os pormenores têm um requinte próprio), mas acima de tudo pela capacidade de construir uma história futurista com tanto do nosso tempo e que leva as fronteiras do amor para algo mais global e existencial. Implica deixar Woody Allen de fora, mas, convenhamos, ele está-se nas tintas para o assunto. Finalmente, era uma notícia surpreendente e interessante que, na categoria de argumento adaptado, a bofetada de luva branca de Stephen Frears à desumanidade católica (Philomena) derrotasse  os filmes de Scorsese e McQueen.

Paulo Lopes

Filme. Com um grupo de nomeados um pouco mais competitivo em relação ao do ano  passado, não deixa de ser um pouco apreensível, pensar que numa lista (enorme) de nove nomeados, tenham sido preteridos alguns filmes de franca qualidade, como por exemplo, Inside Llewyn Davis, Blue Jasmine, August: Osage County,  Prisioners e Saving Mr. Banks… Como francos favoritos perfilam-se 12 Years Slave e os sobrevalorizados American Hustle e Gravity. Pessoalmente considero que 12 Years Slave se destaca a passos largos dos outros, mas também não me incomodaria ver Nebraska a sagrar-se vencedor.

Realização. Steve Macqueen (12 Years Slave) e Alfonso Cuarón (Gravity) correm na linha da frente para este prémio. Apesar de Gravity ser um filme muito mediano, possuí as suas virtudes, principalmente no quesito de realização. No entanto, considero o trabalho de Steve McQueen mais consistente e artístico. De destacar a merecida nomeação de Alexander Payne (Nebraska) e a ausência de Spike Jonze (Her).

 Actriz principal. Este grupo pauta-se por três grandes interpretações: Cate Blanchet, Judi Dench (Philomena) e Merly Sreep (August: Osage County) e por dois equívocos; as nomeações de Sandra Bullock, num papel muito linear e (odeio dizer isso) a de Amy Adams (American Hustle), uma das melhores actrizes da actualidade, é verdade, no entanto penso que a  sua prestação não é digna desta nomeação. Principalmente, quando uma excelente Emma Thompson (Saving Mr.Banks) foi absurdamente ignorada. Cate Blanchet merece ser distinguida, mas Merly Streep, apesar das suas constantes nomeações, às vezes não  justas, consegue ser arrebatadora e ao mesmo tempo surpreendente.

Actor Principal. Como franco favorito destaca-se Mathew Mcconaughey (Dallas Buyers Club), um actor que ao longo dos anos conseguiu desvincular-se da imagem insípida de galã e que tem surpreendido no quesito talento. No entanto, seria merecidissímo Bruce Dern repetir o feito conseguido no Festival de Cannes do ano passado, com a sua premiação como melhor actor.

Actriz secundaria. Este grupo talvez seja o grupo mais competitivo deste ano, porém o mais irónico é que o favoritismo (e até a nomeação) de Jennifer Lawrence me parece demasiado sobrevalorizado e até injusto. Qualquer das restantes quatro nomeadas mereceu a nomeação, mas seria refrescante ver Lupita Nyong’o a receber o prémio.

Actor Secundário. Ao contrário da ala feminina, a selecção dos nomeados ficou muito a desejar, deixando espaço para Jared Leto (Dallas Buyers Club) “brilhar” e ser considerado o grande favorito. Não desgosto da sua interpretação, mas existem interpretações semelhantes muito superiores (Cillian Murphy em Breakfast on Pluto, por exemplo). A vitória de Michael Fassbender, magistral no papel do execrável vilão de 12 Years Slave, seria uma excelente decisão por parte da Academia.

 Argumento Original. No quesito de argumento original, destacam-se Blue Jasmine (mais um excelente texto de Woody Allen), Her e Nebraska, porém não entendo a nomeação de American Hustle para este prémio, e muito menos a ausência de Inside Llewyn Davis e de Saving Mr Banks no grupo de nomeados.

Argumento adaptado. Nesta categoria não entendo (outra vez) a ausência de August: Osage County, uma adaptação da peça homónima do dramaturgo Tracy Letts. Apesar de achar que não existe nenhum argumento que se destaque dos outros, acredito que 12 Years Slave e Philomena podem arrebatar o prémio.

Filme estrangeiro. Embora não tenha visto dois dos nomeados, The Hunt e La Grande Belleza são os justos favoritos. Pessoalmente prefiro The Hunt, mas La Grande Beelezza também possuí os seus méritos. Mas, não me surpreenderia que acontecesse uma surpresa (É comum o vencedor desta categoria não ser um dos favoritos).

Edite Queiroz

Filme. Apesar da Academia ter indicado apenas nove em dez possíveis nomeados (August: Osage County ou Prisioners poderiam facilmente completar o lote), o ano de 2013 foi frutífero em bons e diversos trabalhos. São no entanto excessivas as nomeações de American Hustle (altamente sobrevalorizado) e de Gravity, que embora seja um filme interessante – e o único nomeado de ficção-científica tradicional (Her também se enquadra no género, embora de uma forma menos normativa) – não preencherá os critérios para um dos melhores do ano. O vencedor provável será 12 years a slave, de Steve McQueen, uma produção que parece ter sido projectada para vencer este prémio e cujo tema agrada certamente aos votantes da Academia. Será um prémio legítimo, é o filme mais completo. Quem deveria ganhar: Her, o belíssimo drama romântico sci-fi de Spike Jonze, que apesar de não ter o fogo-de-artifício que lhe permitiria arrebatar um prémio deste calibre, virá provavelmente a ocupar um lugar no mesmo baú da memória em que guardamos, com carinho, Eternal sunshine of the spotless mind.

Realizador. Os favoritos serão Steve McQueen e Martin Scorsese, na categoria em que apenas cinco dos realizadores dos filmes nomeados podem ser indicado (é injustíssimo o esquecimento de Spike Jonze neste lote). Quem vai ganhar: Dizem as más-línguas que será Alfonso Cuaron, ainda que ninguém perceba muito bem porquê. Quem deveria ganhar: Scorsese seria o vencedor mais justo, já que por tantas vezes foi ignorado pela Academia e que apesar de ser um dos maiores realizadores de todos os tempos tem apenas um Óscar no currículo (The Departed, 2007). Mas já agora, e como o filme vai levar o prémio, seria louvável se a Academia resolvesse premiar o trabalho de McQueen – que com apenas três filmes no currículo já provou ser um dos mais promissores realizadores da sua geração.

Interpretações. Nas categorias de interpretação, todos os nomeados são merecedores e por isso a escolha será difícil e certamente ditada por critérios mais institucionais e menos artísticos. O número de nomeados é inadequado, e por isso (ou não) há ausências inexplicáveis. Mads Mikkelsen (The Hunt) não merece uma nomeação? E não deem um Óscar ao Joaquin Phoenix, que não vale a pena… Quem vai ganhar: Este poderia ser o ano de Leonardo DiCaprio (que parece votado ao mesmo reconhecimento omisso do seu realizador de eleição), mas tudo indica que a performance e impressionante transformação de Matthew McConaughey em Dallas Buyers Club lhe renderá o Óscar. O mesmo deverá acontecer com o seu companheiro de cena, Jaret Leto, o favorito para o prémio de actor secundário. Quem devia ganhar: Nem todos podem ser recompensados, mas se o prémio de melhor actor fosse parar às mãos de Bruce Dern seria uma bela forma de recompensar não apenas o seu trabalho fabuloso e enternecedor em Nebraska, mas também a sua longa carreira. Nas interpretações femininas, o desempenho superlativo de Cate Blanchett em Blue Jasmine faz dela a vencedora automática, apesar da companhia de pesos pesados como Judi Dench (Philomena) e Meryl Streep (August: Osage Country). Nos papéis secundários, a escolha será mais complicada e irá decidir-se entre a actual “namorada da América” Jennifer Lawrence (cujo papel em American Hustle é simplesmente o melhor do filme) e a queniana Lupita Nyong’o (12 years a slave). Apesar do mérito do seu trabalho para uma estreante, ela será a menos meritória deste lote, tendo em conta os desempenhos das restantes nomeadas. Qualquer uma merece o prémio, mas o trabalho mais arrebatador é o de Julia Roberts, em August: Osage County.

Argumento. Embora haja um argumento de Woody Allen nos nomeados, é justo, justíssimo – e ainda mais depois das outras omissões (realização, melhor actor), que Spike Jonze vença o Óscar de melhor argumento, pelo maravilhoso, imaginativo e contundente texto de Her. Na categoria de argumento adaptado, é provável que a escolha de decida entre John Ridley (12 Years a Slave) e Terence Winter (The Wolf of Wall Street).

Filme estrangeiro. Três filmes maravilhosos integram esta categoria (os outros dois não tive oportunidade de ver). É provável que o prémio seja arrebatado pela Itália, pelo fascinante e virtuoso La grande bellezza, mas quem deveria ganhar seria a Dinamarca com o poderoso drama The Hunt, esse sim, sem dúvida um dos melhores filmes do ano. Pena que a Academia não atribua menções honrosas, porque o belíssimo  The broken circle breakdown, da Bélgica, é certamente merecedor de uma.

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube