Warpaint na Aula Magna (01/03/2014)

Warpaint na Aula Magna (01/03/2014)

#12 Warpaint

Texto por João Torgal / Fotos por Hugo Rodrigues

Após duas presenças bem interessantes em festivais de Verão, a Aula Magna parecia o local ideal para um concerto em nome próprio das Warpaint. Com uma acústica bestial e um espaço perfeito para a emoção e partilha, capaz de se desdobrar em momentos mais frenéticos e festivos, estão na cabeça grandes momentos vistos ao vivo nesta imponente sala da capital (os Mogwai em 2009, os Yo La Tengo em 2013,…). Se a sensação final é agridoce, se as Warpaint pareceram engolidas pela dimensão e formalidade da sala, as razões são difíceis de explicar.

Na primeira parte esteve Sequin (alter-ego de Ana Miró, que aqui surgiu acompanhada pelo habitual colaborador Filipe Paes), revivalismo synth-pop 80’s, apenas com sintetizadores e uma voz que tem muito do que não queremos ouvir. Meio imberbe, com uns trejeitos épicos de festival da canção que nos agradam pouco e algumas falhas de afinação, parece ainda um work in progress. Esperemos pelos próximos capítulos, que incluirão uma edição discográfica pela Lovers & Lollypops.

#4 Sequin

22h, um longo loop sepulcral anuncia a entrada das Warpaint em palco. Um som perfeito para entrarmos no mundo encantado e sombrio do quarteto feminino. Espera-se a apoteose, mas ela tarda em surgir. “Intro” não nos convence como devia e “Keep It Healthy”um dos momentos do novo disco em que as guitarras melancólicas mais nos preeenchem, teima em manter um ambiente relativamente desconfortável. Quando, pouco depois, se sente o primeiro momento de calor humano e musical, graças aos acordes iniciais de “Composure”, conjectura-se que há, muito mais ao vivo do que em disco, um grande desnível entre os novos e os antigos temas. Não só na adesão do público, mas na chama que vem de palco. Logo a seguir, as meninas apelam a que as pessoas se levantem e se manifestem de forma mais convicta. Para tal, convinha que o tema seguinte não fosse o mais depressivo “Feeling Alright”, criando uma espécie de anti-climax pouco feliz. Quando o single “Love Is To Die” surge sem grande força e quase irreconhecível, a nossa conjectura inicial está quase assegurada.

O concerto de Lisboa foi o último da digressão europeia das Warpaint e, a espaços, elas pareceram relativamente cansadas e desconcentradas. Para quem já as viu no passado, sentiu-se uma maior timidez musical e alguns tempos falhados de entrada que, embora existissem no passado (nunca foram, nem importa, um exemplo perfeito de virtuosismo), não tinham tanta preponderância. Também não foram ajudadas pelos efeitos visuais, demasiado minimalistas (para não dizer ausentes) e que não contribuiram para nos transportar mais facilmente para a música poderosa das Warpaint.

#14 Warpaint

Não foi, apesar de tudo, um mau concerto. Para tal, muito contribuíram momentos bem bonitos e até surprendentes resgatados a Exquisite Corpse e The Fool. A inevitável “Undertow” teve um pulsante final improvisado, com a baterista Stella a marcar pontos, e as harmonias vocais de “Billie Holliday” são sempre coisa de arrepiar qualquer um. E, num encore inteiramente entregue ao passado, a maior simplicidade de “Babies”, interpretada a solo por Emily Kokal, teve uma curiosa derivação para “Because the Night” (clássico de Patti Smith), alguns minutos antes da ligeira catarse de guitarra de “Elephants”, com um final mais experimental e arrastado.

Não deram um concerto exemplar, mas as Warpaint acabaram aplaudidas de pé. O novo disco não convenceu ao vivo, mas não faz sentido perdermos, de um momento para o outro, a convicção sobre os seus méritos. Dia 6 de Junho, Primavera Sound Porto… bela altura para tirar as teimas.

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