O Sonho de Wadjda

O Sonho de Wadjda

O Sonho de Wadjda

Wadjda é uma menina que deseja ter uma bicicleta. Wadjda é da Arábia Saudita.

É fácil perceber logo de início que estamos perante um filme denunciador de uma sociedade ultraconservadora que esconde a mulher, e o que é ser mulher, debaixo de um triste véu e entre as paredes das suas casas. Haifaa Al-Mansour, a corajosa realizadora, filmou “O Sonho de Wadjda” numa Arábia Saudita que proibiu até recentemente o direito da mulher ao voto, onde esta é proibida de viajar, conduzir e até trabalhar sem autorização masculina ou na ausência destes. Com tantas restrições, Haifaa conseguiu, no entanto, retratar o estilo de vida das mulheres sauditas no cinema, fazendo-lhe valer inúmeros prémios e elogios por esse mundo fora.

Wadjda

Desprovido de pretensiosismo ou fórmulas gratuitas de chocar o público, a segunda longa-metragem da realizadora (o primeiro foi o documentário Women Without Shadows, em 2005, onde já tratava este tema) narra a irreverência de Wadjda (Waad Mohammed), a menina que, ao contrário das companheiras de escola, é descontraída na sua aparência (usando as suas inseparáveis all star que vão tendo destaque ao longo do filme), gosta de música e videojogos e não tem papas na língua. Tanto na escola como em casa de Wadjda, somos confrontados com as obrigações de que as mulheres são alvo e ainda sobre as questões da fé e da religião. Isso sucede através de outras personagens, como a colega de escola que, em tão tenra idade, já foi prometida em casamento, ou a questão da poligamia, sendo de destacar a sub-trama do pai e mãe de Wadjda (Reem Abdullah, a única atriz profissional no filme), uma belíssima e simpática mulher que sofre constantemente, tentando, no entanto, esconder o seu sofrimento e mostrar-se em concordância com o que lhe é imposto.

A narrativa de O Sonho de Wadjda não é particularmente elaborada, mas é consistente e sólida, com uma belíssima fotografia e excelente direção de atores. Wadd, a menina que interpreta Wadjda, é encantadora e defende o seu papel com distinção, sendo, por vezes, acompanhada pelo travesso mas simpático Abdulla, o menino por trás do incentivo à compra da bicicleta – a tão badalada bicicleta que é muito mais do que um veículo de duas rodas e pedais, mas um sonho de liberdade.

Wadjda

O Sonho de Wadjda é um filme simpático e inspirador. Notamos que não foi dirigido de maneira hostil, de forma a chocar o público saudita, mas sim para, subtilmente, despertar as mentalidades opressoras através de críticas e não de insultos. A realização de O Sonho de Wadjda já é ela própria um retrato desta mudança. Haifaa Al-Mansour não foi só a primeira mulher a realizar um filme na Arábia Saudita, como gravou-o inteiramente lá, algo também nunca antes feito. Imagine-se até que as mulheres já podem andar de bicicleta (apesar de ainda só em certos parques e, claro, acompanhadas por um “guardião” masculino). Mas se a 7ª arte continuar a acompanhar esta evolução, que, apesar de lenta e gradual, é positiva, e for um meio de revolução, que venham muitos mais filmes sauditas.

e8

Texto por Bruna Oliveira

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube