Silence 4 na MEO Arena (05/04/2014)

Silence 4 na MEO Arena (05/04/2014)

#25 Silence 4

Texto por Jorge de Almeida / Fotos por Hugo Rodrigues

Há um certo anacronismo em pensar se os Silence 4 teriam hoje o mesmo sucesso que conquistaram em 98. Fora considerações socioeconómicas, é dúbio que hoje beneficiassem do mesmo exotismo com que eram encarados há duas décadas. Apesar de não serem de todo caso inédito de uma banda portuguesa a cantar em inglês, os Silence 4 eram a banda que se elogiava dizendo que “nem parecem portugueses”. Hoje parece-nos estranho, mas era este o Portugal Expo ’98. Certo é que Silence Becomes It vendeu como nenhum outro álbum em toda a década e de um momento para o outro a banda de Leiria tornou-se um fenómeno inescapável.

Catorze anos depois  do lançamento de Only Pain Is Real, o tempo persignou os versos e refrães que cantavam solidão e angústia juvenil e a Meo Arena encheu-se para escutar temas que não pareciam ter envelhecido um único dia. Admita-se no entanto, que é preciso uma grande sede de nostalgia para escutar na mesma noite temas repetidos. Felizmente eram mais de 18.000 a concluir uma travessia do deserto.

Passam quinze minutos da hora prevista e nos ecrãs da Meo Arena exibe-se um pequeno documentário sobre a banda. O relógio retrocede até 1995, a imagem fecha-se, o silêncio instala-se e uma sala confortavelmente cheia antecipa o fim de uma espera de treze anos. A primeira a entrar é Sofia Lisboa, força motriz por detrás desta reunião, David Fonseca, Rui Costa e Tozé Pedrosa seguem no seu encalço. As palmas são mais que muitas e começa então o espectáculo que se haveria de prolongar até aos primeiros segundos do dia seguinte.

#5 Silence 4

“A Little Respect” é a primeira a testar as vozes arrefecidas na plateia. A Meo Arena, sala que amiúde apresenta as qualidades acústicas de uma batata, mostra-se à altura e o público timidamente vai juntando a sua voz à de David Fonseca. No final de “Old Letters” já não havia quem estivesse calado. “Muito obrigado por terem saído de casa nesta noite tão fria”, agradece Sofia Lisboa.

“Borrow”, canção maior do que o seu intento, segue-se a “Die Young” e o maior êxito dos Silence 4 cria o primeiro grande momento da noite. Os bem ditos quatro acordes, que servem como alternativa de engate à “Wonderwall”, soam e não há alma presente que não esteja rendida a um amor e devoção de outrora. Em palco surge a primeira peça de um sincretismo decorativo que ao aquário que nos surge ainda vai juntar uma série de cadeiras penduradas, um automóvel e um farol.

“Don’t” e “Not Brave Enough” (descem as cadeiras) são as primeiras incursões por Only Pain Is Real e são um teste à memória dos presentes. O álbum de consagração dos Silence 4 tem várias virtudes que o colocam acima do álbum de estreia. O sucesso de vendas não é uma delas.

O prólogo de “Sextos Sentidos” serve para David Fonseca explicar como a banda “não existiu” entre 95 e 98. “Alguns de vocês nasceram nesse ano”, repara a certa altura o vocalista. O sonho de trabalhar com um dos heróis da banda concretiza-se em 98 e ontem voltava a tomar forma quando Sérgio Godinho pisa o palco para interpretar o tema sob enormes aplausos.

#15 Silence 4

Desce pouco conspicuamente um automóvel por cima do palco e a todos atravessa a referência a “My Friends”. Intrépido e de megafone em riste David Fonseca sobe ao tejadilho do automóvel e mobiliza as hostes que ameaçam um frenesim e arriscam um pezinho de dança convulsiva.

“To Give”, apontamento mais memorável de Only Pain Is Real, cantado a plenos pulmões por todos, que só versos como “I make lies all day to keep the pain away, away” justificam ter na ponta da língua tantos anos depois. “Cry” e “Ceilings”, seguiram-lhe e deixaram a voz de David Fonseca sem o seu par em palco. Dentro do carro, agora pousado, Sofia Lisboa torna-se espectadora radiante de um momento que sem si não seria possível.

“Angel Song” surge em momento apropriado e lembra a todos a causa maior que esta reunião dos Silence 4 apoia. Sofia Lisboa confessa que julgou nunca mais vir a cantá-la. Agora, vencida a batalha contra o cancro, “Angel Song” é cantada com uma nova carga emotiva.

O palco ganha um novo colorido com “Empty Happy Song” e “Where are You” mantém a toada “upbeat” do momento.

Do fundo interrompe o cenário um farol. David Fonseca explica a vergonha que sentiu quando primeiro apresentou à banda uma canção que havia escrito em português. Mas aquele não era momento para ter vergonha e olhos nos olhos com Sofia Lisboa começou os primeiros versos de “Eu não sei dizer”. Foi bonito.

#20 Silence 4

“Only Pain is Real” e “Sleepwalking Convict” marcam o fim da primeira parte do concerto numa altura em que a lua já vai alta. Pelo menos aquela em palco.

As movimentações da equipa de filmagem e a “suspeita” infra-estrutura montada no meio da Meo Arena eram agora o foco de todas as atenções. Emulando a pequena sala de ensaios onde os Silence 4 deram os primeiros passos a banda encontrava-se confinada àquele pequeno espaço que parecia fechar em si a enorme sala de espectáculos em que se encontravam. Sofia Lisboa, lança-se na dianteira para agradecer à irmã que afirma ter-lhe salvo a vida. “ Um dia sentou-me ao computador, deu-me a mão e pôs a tocar esta música”: ouve-se Invencible dos Muse. Foi o momento alto do concerto. Talvez por reverência, talvez porque a base de fãs de Muse e Silence 4 não se cruza, as rédeas das vozes foram tomadas exclusivamente por Sofia e David enquanto o público serenava e aplaudia somente nos momentos mais emotivos da canção.

“Pronto, agora resta-nos a nós, 18.000 pessoas, descer desta onda emocional”, dava David Fonseca palavras aos pensamentos de todos. Choravam-se lágrimas de alegria no pequeno palco depois das duas irmãs se abraçarem. “ Eu não sei o que hei-de dizer”. Nem nós David, mas obrigado por isto.

#23 Silence 4

Self Sufficient era a primeira das cinquenta canções que não chegaram a ser editadas a ser ouvida. “Silence Becomes It”, faixa homónima que nunca chegou a ser, seguiu-se-lhe e voltando ao álbum de estreia “Goobbye Tomorow” vaticinava outra saída de cena.

De volta ao palco principal “Search Me Not principia o encore. “Breeders” ouve-se em toda a sua pujança quase funk. A propósito do tema, guarde-se umas linhas desta reportagem para dizê-lo: a secção rítmica dos Silence 4 tem em Rui Costa e Tozé Pedrosa os melhores músicos a nível técnico da banda. O final de “Breeders” é um verdadeiro “bassfest”, se me é permitido o termo.

Entretanto sobe a palco o Presidente da Liga Portugesa Contra o Cancro e os Silence 4 passam um cheque que ajudará na batalha contra a doença, cuja importância o presidente faz questão de salientar será empregue na área da investigação.

Recta final do concerto que termina em jeito de “best of best of”, assim mesmo repetido, e tornam-se a ouvirBorrow”, “My Friends” e “A Little Respect”. Desta feita os temas surgem cantados com volume aumentado deste lado do palco. Diz David Fonseca com razão que as canções dos Silence 4 também são daqueles que estão ali presentes na audiência.

A celebração termina com novo retorno a palco para se ouvir mais uma canção. “Vocês desculpem, mas nós somos uma banda pequenina, só temos dois álbuns, e temos que repetir algumas músicas”, ironiza o vocalista. “Angel Song” termina um legado feito em dois álbuns. A noite acaba com vozes gastas e um eco de palmas. A Meo Arena voltou a ser o Pavilhão da Utopia e os Silence 4 a maior banda do momento.

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube