Rock in Rio Lisboa - 4º Dia (31/05/2014)

Rock in Rio Lisboa – 4º Dia (31/05/2014)

#35 Ambiente

Texto por Cláudia Filipe / Fotos por Hugo Rodrigues

No dia em que o Parque da Bela Vista esteve mais despovoado, assistiu-se aquele que foi talvez tenha sido o concerto que vamos guardar deste festival. Três anos depois, os Arcade Fire voltam a Portugal para nos arrebatar o coração, enquanto apresentaram Reflektor no meio de uma festa incrível, com um super palco e uma super banda, provando, mais uma vez, que são uma das bandas que melhores espectáculos conseguem montar.

Apesar de mais vazio em número de pessoas, ontem foi o dia em que o palco Vodafone conheceu mais público. Os Capitão Fausto, uma das bandas mais acarinhadas no panorama musical português recente, arrastaram uma pequena multidão de curiosos consigo. O psicadelismo indie, caminho pelo qual a banda enveredou a fundo no seu último registo, serviu como pano de fundo para uma actuação onde não faltaram temas como Célebre Batalha de Formariz. Tomás Wallenstein é, para além disto, exímio no que toca a agarrar o seu público.

O Palco Mundo abriu com uma das grandes curiosidades do festival. Alguns dos grandes nomes da música Portuguesa uniram-se para celebrar o legado de António Variações. A primeira a subir a palco foi Gisela João, que abriu o concerto com Anjinho da Guarda. Seguiram-se os Linda Martini que foram responsáveis pelos melhores momentos desta actuação. Primeiro sozinhos, com uma rockeira Toma o Comprimido, e depois em conjunto com Deolinda na altura de lhes passarem o testemunho para fazerem a sua parte da homenagem, onde, em conjunto, tocarem a mais bonita música do legado de Variações, Canção do Engate, onde o estilo das duas bandas se fundiu de forma perfeita. Findo este bonito momento, e talvez o único que mereça ser levado daqui, a homenagem terminou com Rui Pregal da Cunha, protagonista de mais um momento insólito ao dedicar uma trinca numa banana a António Variações.

#19 Homenagem António Variações

Coube aos Wild Beasts fechar o dia no Palco Vodafone. Aquele que é um dos nomes mais sonantes do cartaz para aquele palco, iniciou o concerto com Mecca, numa actuação que acabou por ficar aquém das expectativas. Apesar de terem tocado para uma quantidade de público maior do que a maior parte das bandas que por ali passava, fica a sensação de que faltou mais qualquer coisa, o que provavelmente acabará por acontecer em sala fechada.

Já o concerto de Wild Beasts ia lançado quando no Palco Mundo se apresentava Ed Sheeran, o autor de I See Fire. Para além de alguma música, ouviram-se gritos, muitos gritos, de muitas adolescentes em processo de regulação hormonal que ali se deslocaram de propósito para ver o seu ídolo. Seguiu-se Lorde, a autora de Royals que, apesar de ter o mundo a seus pés, ainda lhe faltam mais alguns quilómetros de estrada e um maior amadurecimento enquanto artista. Apesar do interessante caminho que constrói e da humildade que aparenta, visível também na postura que adopta estando em palco praticamente sozinha, com a sua voz ao sabor da sua pop electrónica, o espectáculo ainda tem um grande espaço para crescer. Numa actuação que, como a sapiência popular diria “não foi má, nem boa, antes pelo contrário”, não comprometeu na recriação dos seus temas, sendo visível o seu contentamento por estar perante uma plateia tão bem composta que sabia grande parte das canções de cor. Visivelmente emocionada, diz que nunca esquecerá aquele momento.

Supreendentemente, a facção mais jovem que pelo Parque da Bela Vista se encontrava, precipita-se para a saída no final do concerto de Lorde, não ficando para assistir ao concerto dos reis da noite, Arcade Fire, que contaram com a ajuda muito especial de Owen Pallett. Não é estranho tendo em conta que grande parte do público se tinha deslocado para os dois músicos anteriores e que os cabeças de cartaz destoavam um pouco neste cenário. Não foi, por isso, complicado chegar à frente para admirar na sua plenitude o espectáculo montado pelos canadianos. Depois de tanto que se ouviu falar sobre a enorme produção que a banda estava a trazer para embelezar a tour do Reflektor. As luzes acabam, os ecrãs acendem para mostrar os robots de Reflektor. Uma figura desce furiosamente pelo slide. Um estrondo, aplausos e aí estão eles a começar a festa com a música que dá nome ao disco. A primeira sensação é a de confirmação do que já se esperava: o último álbum dos canadianos pode não ter reunido consenso, mas funciona ao vivo. Em palco estão mais de 10 músicos. Há muita cor, luz, imagens a passar, mas o destaque é para os dois pilares desta banda: Win Butler, o gigante causador de empatia instantânea, e Régine Chassagne, que torna mais complicado controlar a vontade de subir ao palco para lhe dar um abraço.

#37 Ambiente

A festa segue, com trunfos importantes a serem jogados logo de início: entoa-se muito alto Neighborhood #3 (Power Out) logo seguida de Rebellion (Lies), dois hinos dos tempos modernos. Os Arcade Fire são, aliás, mestres no que toca à criação de hinos: canções fortes, com letras incisivas, um instrumental envolvente que nos toca facilmente ao coração. Músicas às quais nos ligamos de forma tão natural porque falam connosco na primeira  pessoa. E por falar em músicas maiores do que a vida, pouco depois chegava a hora de ouvir Ready To Start, a canção mais emblemática do Suburbs. E, claro, todos os sorrisos do mundo.

Um dos momentos mais caricatos da noite chegou com a Month of May, da qual não se ouviu mais do que o riff inicial. A guitarra não quis colaborar por duas vezes seguidas, portanto Win opta por desistir e começar a cantar a My Body is a Cage acapella. Quem já os viu em ocasiões anteriores sabe que dão sempre concertos grandiosos, com uma cuidada escolha de setlist. Mas aquilo que poucos se podem orgulhar de ter visto ao vivo foi esta mesma música que acaba por ficar demasiadas vezes de fora. Foi lindo ver Butler de pé numa coluna a entoar uma música tão grande em conjunto com perto de 50 mil pessoas. Embalados pela força do momento, segue-se Neighborhood #1 (Tunnels), um hino à amizade incondicional e à união, que nos invade, por momentos, de um sentimento de proximidade inacreditável. No fundo, estamos ali todos unidos pelo mesmo.

Antes da espécie de encore, a coloridade Sprawl II (Mountains Beyond Mountains), onde a doce Regine se assume como centro das atenções, enche o espaço de festa e boas energias, antes da entrada do batuque e entrada dos cabeçudos (um dos quais trazido pela própria Lorde) para um final estonteante onde imperaram Here Comes the Night Time, e o hino dos tempos modernos Wake Up. A música obrigatória de ser ouvida quando cantada a uma só voz.

Épico, épico, épico que foi este concerto de Arcade Fire. É imperativo não voltar a ficar três anos sem aquela que é uma das melhores bandas da actualidade, autores de um dos álbuns mais importantes da música na década passada (o Funeral). É sempre um prazer.

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