Entrevista a Storylines

Entrevista a Storylines

Silentium

Na antecipação da estreia de Silentium, curta-metragem que terá exibição única a 28 de Junho no Cinema City Classic Alvalade, o Arte-Factos esteve à conversa com os cineastas empreendedores por detrás da Storylines, “marca registada” e “produtora entre muitas aspas,” como a descrevem Pedro Mourão-Ferreira, David Cachopo e Miguel Patrício.

“A Storylines existe desde 2008, mas houve um renascer em 2012 com [a curta] A Lisbon Rendezvous,” explica David Cachopo, “ a partir daí ficámos mais focados nos nossos projectos, produzimos com mais regularidade e investimos mais nas nossas ideias. Não temos qualquer intuito de lucro com os nossos projectos pessoais, queremos apenas poder expressar-nos no cinema e fazer o que realmente gostamos.”

Silentium é a demanda mais recente dessa vontade, “de uma paixão muito forte de fazer este filme,” diz-nos Pedro Mourão-Ferreira, realizador da curta, que desvenda como foi possível fazer um filme com um orçamento condicionado. “Apresentámos a ideia às pessoas e explicámos que este trabalho era todo em prol do filme e que o lucro não nos interessava.” “Existem os big budget films, os low budget e depois há os no budget; o que caracteriza os nossos filmes é o pensamento de que a austeridade relança a criatividade”, remata Miguel Patrício.

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O resultado final revela-se uma obra bem talhada, “uma comunidade de vontades,” que esteticamente procura subir a fasquia dentro das limitações que se impuseram. A título de exemplo, para conseguir um plano desejado “arranjámos uma cadeira de rodas e colocámos o tripé com a câmara em cima,” uma ideia que confessam não ser original mas que é sintomática de uma cultura cinematográfica que bebe e pede emprestado a outros realizadores. De Scorcese a Tarantino, passando por Godard, Sergio Leone e até Lynch, Silentium , percorre referências e alusões intertextuais para nos contar, quase sem palavras e através de um ambiente alucinogénio, a história de um personagem dominado pelo sentimento de vingança e as consequências da sua concretização.

“Sou um grande fã de Sérgio Leone, principalmente do “Aconteceu no Oeste,” que assim por alto, é um filme de vingança; geralmente nos filmes de vingança assim que ela se concretiza fica tudo bem. Então quis pegar na ideia: “E se o filme em vez de acabar com uma vingança começasse com uma vingança” e veríamos tudo o que acontece ao personagem depois disso. Aquele momento que resolveria todos os problemas da vida, nós achámos interessante que não resolvesse,” descodifica o realizador.

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Miguel Patrício, que co-assumiu com os dois restantes membros o papel de argumentista, elucida-nos quanto ao processo criativo por detrás do conceito narrativo. “Nós tentamos reduzir o diálogo ao máximo e tentar contar a história através de imagens. Só através do fluxo das imagens perceber-se a complexidade do personagem. Temos esta fixação por tentar transmitir estados interiores para extados exteriores, daí o Silentium ter um registo alucinatório.”

Quanto à reacção do público revelam-se expectantes. Acreditam na qualidade do produto mas têm curiosidade para saber como um filme deliberadamente ambíguo é visto através de olhos que não os seus. “Nós temos uma interpretação e foi com essa com que trabalhámos. Estamos ansiosos por confrontar as várias interpretações que os espectadores fizerem do filme. Quisemos que o espectador acreditasse que aquele personagem é um monstro que se livrou do peso de ser um homem. Quisemos, no princípio, apresentar um personagem frio, seguro, sem emoções e todo o  filme é a desconstrução dessa primeira imagem. ”

Para o futuro os planos passam por “novos visionamentos depois do verão” e tentar incluir o filme no circuito de festivais de curtas. “ O problema em Portugal é a distribuição; nós fazemos filmes, o problema é mostrá-los,” lamentam, reconhecendo que há, felizmente, um circuito de curtas-metragens bastante forte em que tencionam apostar.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=OOYUHP-E7e4]

Entrevista por Jorge de Almeida

Arte-Factos

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