Entrevista aos Ella Palmer

Entrevista aos Ella Palmer

Ella Palmer

Passados cinco anos desde o lançamento de “The Longest Journey”, os setubalenses Ella Palmer voltam aos discos com “Heal Wounds, Find Gold”. Estivemos à conversa com estes cinco rapazes, que nos prometem novo sangue e novas canções, mas com o mesmo amor à camisola de sempre.

Porque é que este álbum demorou tanto tempo a chegar às nossas mãos? Sentiram, nalgum momento, que a pressão do “difícil segundo disco” vos levou a deixar para trás algumas músicas que planeavam lançar?
Pelo contrário, estávamos confiantes que o material que estávamos a escrever era melhor que o do “The Longest Journey”. Mas a vida acontece, e todos tivemos que dar passos importantes na nossa vida profissional e o ritmo de ensaios ficou muito afectado. Quando os ensaios são espaçados é complicado compor de uma forma consistente, por isso acabávamos por passar o tempo a tocar covers de Killswitch Engage e a ver filmes do Adam Sandler. Demorámos algum tempo a perceber como podíamos trabalhar mais afincadamente sem ser nos ensaios, mas no verão de 2012 começámos a juntar-nos a dois ou a três para compor num estúdio improvisado. Em poucos meses acabámos os 11 temas e quando voltámos a ensaiar tocámo-los vezes sem conta até estarmos todos em sintonia com o material. Já em 2013 demorámos algum tempo a traçar o plano de gravação, por limitações de tempo e dinheiro. Tivemos vários impasses que ainda hoje não conseguimos compreender a 100% mas acho que aprendemos o suficiente para os evitar no futuro.

A primeira faixa do “Heal Wounds, Find Gold” chama-se, apropriadamente, “Second Starts”. Pode este disco ser um segundo começo para os Ella Palmer?
A “Second Starts” fala sobre ajudar alguém de quem gostamos a ultrapassar um mau bocado e a começar de novo quando tudo se desmorona… Mas sim, o título também é um piscar de olhos ao facto de ser o nosso segundo LP. Ter músicas novas para mostrar faz-nos sempre sentir a começar de novo, de certa forma.

Nos últimos anos temos assistido ao desaparecimento de grande parte das bandas do círculo “Secret Society Of Friends”, em que vocês se inseriram durante algum tempo. Como é que lidaram com o fim de grupos tão próximos a vós, como é o caso dos One Hundred Steps, My Cubic Emotion, Triplet ou Before The Torn? Chegaram a pensar que seriam a banda a seguir?
Pensámos, mas não. Tivemos grandes problemas de disponibilidade, mas sempre que fizemos pausas, acabámos por querer voltar a ensaiar e a fazer música. Sermos todos grandes amigos, sermos pacientes e termos as expectativas controladas no que toca à disponibilidade também ajudou. O caso dos One Hundred Steps é trágico, porque acabaram pouco depois de lançar um álbum excelente que nos inspirou imenso. O dos My Cubic Emotion foi mais um rebranding do que um fim, e os The Year (projecto sucessor de My Cubic Emotion) são uma excelente banda. Quanto aos Triplet e aos Before The Torn, é triste mas também é bom saber que os nossos amigos dessas bandas continuam envolvidos na música – o Ben de Triplet com D’Alva, o João de Before The Torn com os Hills Have Eyes.

Acham que 2014 é um bom ano para lançar um disco nos mesmos moldes que o “The Longest Journey”? O hardcore e o emocore já viram certamente melhores dias no nosso país…
No “The Longest Journey” a ligação com o hardcore e o emocore já era apenas afectiva, não se prendia tanto com o estilo. Há muito que escolhemos um caminho mais rock, que também se pode dizer que já viu melhores dias. Mas o facto de não conhecermos ninguém em Portugal a fazer rock nos mesmos moldes que nós inspira-nos mais do que se fizessemos parte de um movimento enorme e redundante. Há imensas bandas a lançar bons álbuns de rock no Reino Unido todos os anos, pode ser que um dia tenhamos uma nova vaga por cá…

Ella Palmer - Heal Wounds, Find Gold

O “Heal Wounds, Find Gold” vai ter uma edição física, ou é algo a adiar por agora?
Para já ainda não há planos. As coisas estão um bocado diferentes agora; já se vendem auto-rádios e computadores sem leitor de CD, por isso há que repensar um bocadinho as prioridades e o que significa efectivamente lançar um álbum novo. Na prática não sentimos essa necessidade. Estamos curiosos para ver se conseguimos chegar a todas as pessoas que queremos com a edição digital.

Já agora, querem explicar-nos o título do disco?
A ideia inicial era o disco ser homónimo. Começámos a trabalhar com a designer Inês Rato no artwork e no conceito gráfico em torno da mulher que dá o nome à banda, uma enfermeira de campo na Guerra Civil Americana. O que a Inês descobriu foi que, no fim de vida, a Ella Palmer se virou para a mineralogia e encontrou ouro no Colorado. Foi ela que chegou a este título, e achámos que encaixava como uma luva na temática do álbum.

Neste vosso novo trabalho há duas faixas cantadas em português (“Antes/Depois” e “Tudo/Nada”). Foi o sucesso do single “Ella” que vos levou a escrever mais canções na vossa língua-mãe?
Sabíamos que com a “Ella” estávamos a abrir uma caixa de pandora. A música trouxe reacções de todo o tipo, mas as positivas ganharam, porque acho que a maior parte das pessoas percebeu que se tratou dum processo de exploração e não duma tentativa de ter uma música na novela. O rock que fazemos não tem grande representação na nossa língua, por isso não existem tantas referências, quer para quem escreve, quer para quem ouve. E voltámos ainda a ter boas reacções com o single “Uma Só Vez”, que lançámos em 2011.

Há algum cuidado especial que tenham quando escrevem em português, ou acham que a composição não depende da língua?
O cuidado de ouvir e avaliar, sobretudo. Experimentámos as duas línguas em quase todas as músicas do disco e algumas letras funcionavam no papel mas não soavam com a música. Temos uma língua muito complicada… Mas por outro lado, alternar entre o inglês e o português dá-nos uma melhor perspectiva sobre as peculiaridades de cada língua.

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Sentem que este trabalho veio a ganhar maior consistência com a entrada do vosso novo baixista, Tiago Martins (Sequin, Surveillance)?
O papel do baixo na nossa banda foi sempre o mesmo, mas neste disco abrimos mais espaço nas guitarras, por isso acaba por ter mais protagonismo nalgumas músicas. O input criativo do Tiago chegou sobretudo em duas ou três faixas específicas, como a “Now & Forever” e a “Have Heart”.

Foi difícil autonomizarem e conciliarem os processos de produção e edição do disco? Imagino que haja uma diferença abismal entre trabalhar em estúdio com um produtor experiente como o Makoto Yagyu e gravar um álbum em casa, sem supervisão e com recursos modestos…
Os dois processos foram muito diferentes, mas este não foi necessariamente mais limitado. A diferença principal passou por termos andado a saltar de estúdio em estúdio com os projectos até à fase de misturas. Captámos as baterias com o Miguel Marques nos Generator Studios, as linhas das guitarras e baixos no nosso estúdio caseiro, e as vozes no estúdio do Francisco Caetano e do Renato Sousa dos Ash is a Robot. Ainda trabalhámos com o Nuno Cunha (The Doups) nalguns arranjos de cordas, piano e synths. No fim passou tudo para as mãos do Miguel Marques para a reamplificação das guitarras e para a mistura. O resultado foi o fim de alguns constrangimentos, que nos possibilitou desconstruir os instrumentais, bem como experimentar uma variedade maior de coisas até que estivéssemos satisfeitos com o resultado, o que nem sempre aconteceu no “The Longest Journey”. Felizmente aprendemos muito sobre produção nos últimos 5 anos.

Vão levar o álbum para a estrada em breve? Já têm alguma data marcada em Portugal ou no estrangeiro?
Por questões de agenda, optámos por lançar o álbum sem nenhuma tour de lançamento. Por um lado também acaba por ser uma experiência, queremos mesmo ver até onde é que a nossa música chega só com o lançamento digital. Vamos começar a arranjar datas para a temporada de Inverno, para que todos tenham tempo de aprender as músicas.

Por fim, como é que descrevem estes quase 10 anos de carreira? Em que fase é que os Ella Palmer se encontram nos dias de hoje e como é que explicam a evolução da música portuguesa nos últimos tempos?
São dez anos cheios de bons momentos. Sentimo-nos muito acarinhados por algumas pessoas, apesar de termos abandonado aos poucos o circuito a que estávamos associados no início. Não fizemos tanto como queríamos desde o “The Longest Journey”; se calhar preferíamos estar agora a lançar o nosso quinto álbum e não o segundo. Nesta altura, por questões práticas, nenhum de nós encara a banda como uma ocupação a tempo inteiro, mas encaramos muito a sério a música que fazemos e queremos continuar a escrever mais e melhores capítulos da nossa história.

Quanto à música portuguesa, está numa fase bastante interessante. A internet evoluiu muito nos últimos 5 anos, não só em largura de banda mas em serviços como o YouTube e o Spotify, que para um povo que gosta de coisas de borla, são uma enorme democratização da cultura musical. Graças a elas, os circuitos mais alternativos estão a crescer muito, e nisso também há que saudar os eventos e plataformas de empresas grandes como a NOS e a Vodafone. Cada marca quer ser mais “cool” que a outra, e parece que estão finalmente a descobrir como. Há 8 anos podia ser mais fácil ter um hit no MySpace, mas hoje temos cada vez mais formas de nos mostrarmos. Os males da economia sentem-se mais no circuito de bares fora de Lisboa e do Porto, mas cabe às bandas trabalhar mais para conquistar o público com estas mudanças de hábitos.

Entrevista por Henrique Mota Lourenço

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