LEFFEST 2014 - Sono de Inverno / Maps to the Stars

LEFFEST 2014 – Sono de Inverno / Maps to the Stars

SONO DE INVERNO, de Nuri Bilge Ceylan

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Num mundo que circula a 1000 km/h, pleno de estímulos reais e virtuais, o filme do turco Nuri Bilge Ceylan pretende ser um desafio à paciência do espectador. Um filme sem pressas, com mais de três horas, com um ritmo ultra-pausado e que aposta tudo na força dos diálogos. Só que a paciência tem limites…

Em pleno inverno rigoroso, o filme passa-se numa pequena aldeia isolada da Anatólia. Todo ele circula à volta de meia-dúzia de personagens: o dono abastado de um hotel, a esposa muitíssimo mais nova e que se sente enclausurada neste pequeno espaço, a irmã divorciada e frustrada e uma família de inquilinos que vive com imensas dificuldades. Sem qualquer esforço de síntese, a ideia passa por uma reflexão em torno da pobreza, da caridade, dos conflitos de comunicação, da instabilidade emocional, da fé ou da nostalgia de um passado que já lá vai. Só que aquilo que poderia ser um trunfo, a tal forma pausada com que a história se vai desenvolvendo (será que vai?), desfaz grandes partes das pretensões cinematográficas deste peculiar objecto.

Embora frequentemente demasiado arrastados, há diálogos bons. É o caso do beija mão de Hamdi e do pequeno Ilyas, da acesa discussão entre o casal, da visita de Nihal a casa de Hamdi (o grande momento de cinema que aqui anda, ilustrado na imagem de cima) ou o que inclui a deliciosa citação de Shakespeare. Só que tudo se perde numa ausência total de edição e de crivo. Por exemplo, a principal conversa entre os irmãos, com duração de uma boa meia-hora, é de um tédio sem limites.

Nada contra filmes grandes. A anterior Palma de Ouro de Cannes, A Vida de Adele, tinha três horas e via-se sem qualquer esforço (um de muitos exemplos). Mas aqui fica a clara sensação que o filme ganharia com uma redução drástica de tempo, numa revisão forte do argumento que pegasse nos melhores diálogos e os incluisse numa narrativa que fosse efectivamente sólida. Desta forma, pouco mais é que um pequeno punhado de momentos soltos, de relações humanas conturbadas que não se agrupam de forma física ou espiritual.

Posto isto, mesmo tendo em conta a Palma de Ouro de Cannes, vale a pena ocuparmos 200 minutos do nosso tempo a ver este filme? Muitas dúvidas. Ah, calma, o título é Sono de Inverno. Assim, muita coisa fica explicada. E muita gente dormiu (e ressonou) durante a exibição do Lisbon & Estoril Film Festival.

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MAPS TO THE STARS, de David Cronenberg

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Fiel a uma certa tradição sádica, é bem transcendene e bizarro o mapa de Hollywood traçado por David Cronenberg. Até porque não são bem, bem as grandes estrelas que aqui temos retratadas. São as estrelas em decadência ou em pseudo-ascensão e uma ou outra figura de bastidores.

As personagens principais são uma actriz em queda e à procura de voltar à ribalta (Havana, interpretada por Julianne Moore) e uma estrela adolescente em pleno processo de reabilitação de droga (Benjie, interpretado por Evan Bird). Pelo meio, temos os pais e a irmã de Benjie como figuras behind the scenes e um motorista de limousines, desempenhado por Robert Pattinson. E, com um passado tragico ou não (o fogo e a água como elementos dominantes), há fantasmas que perseguem estas figuras.

Maps to the Stars é um filme com uma mensagem dura e cruel. Só que fá-lo com um esporádico sentido de humor. Daquele humor negro à irmãos Cohen, numa lógica oportunista (elogio) em torno dos losers de Hollywood. Logo, estão cá aqueles diálogos non-sense e com uma certa violência subtil.  E, a partir de uma dada altura, a tragédia torna-se, com subtileza (os excessos do passado já lá vão), numa irreversível espiral. Aí, ficamos com a sensação que dificilmente o glamour hollywoodesco poderia ser mais reduzido ao zero.

David Cronenberg continua a filmar com arrojo. Reflexo de uma certa liberdade que, de forma obscura, é também preconizada no final do filme. E, depois do mais convencional Um Método Perigoso e do entediante Cosmopolis, marca o regresso do realizador canadiano ao cinema acima da média. Sem a força narrativa da belíssima dupla anterior (Uma História de Violência e Promessas Perigosas), mas com um tema e uma abordagem singulares e criativas.

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Textos por João Torgal

Arte-Factos

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