LEFFEST 2014 – Meetings with a young poet/ Je ne suis pas mort (Homenagem a Maria de Medeiros)

LEFFEST 2014 – Meetings with a young poet/ Je ne suis pas mort (Homenagem a Maria de Medeiros)

MEETINGS WITH A YOUNG POET, de Rudy Barichello

meetingswithayoungpoet

Paul Susser (Vincent Hoss-Desmarais), um jovem poeta canadiano, consegue marcar encontro com o seu ídolo, Samuel Beckett (Stephen McHattie). Os dois iniciam uma amizade complexa que abrange as duas últimas décadas da vida de Beckett, com um impacto indelével na vida de Paul. Anos mais tarde, após a morte de Beckett, Paul conhece a actriz Carole Thomas (Maria de Medeiros), que pretende encenar Krapp’s Last Tape (1958), encarnando uma das últimas personagens de Beckett – e, no bom humor do autor, um suposto alter-ego.

Escrito em parceria por Marcel Beaulieu e pelo realizador (um confesso apaixonado por literatura e dramaturgia), Meetings with a young poet (2013) é um exercício intelectual que examina a personalidade do poeta, dramaturgo e romancista irlandês a partir desta amizade ficcionada, utilizando como matéria o seu legado literário. Na verdade, a relação entre Beckett e Susser, desenvolvida ao longo de vinte anos em conversas à mesa de café e à frente de um tabuleiro de xadrez, pouco evolui ou acrescenta para qualquer dos lados – Beckett trata o seu discípulo com uma ternura condescendente e Susser, por seu turno, abandona a escrita após publicação do primeiro livro de poesia – porque obcecado com um génio que não poderia igualar. Nesse aspecto, o argumento é facilitista (para além de descaradamente decalcado do livro de Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, uma narrativa epistolar entre um aspirante a poeta e um escritor famoso): As referências aos textos de Beckett são abundantes, integrando as falas na forma de apontamentos, citações ou passagens completas de algumas das obras (especialmente em monólogos da personagem de Beckett), sendo visível a ausência de um trabalho consistente de construção dos diálogos e mesmo das personagens: revisitando a obra de Beckett (e não só) de forma abrangente mas necessariamente superficial, o argumento não acomoda grandes considerações acerca da sua vida pessoal ou do seu processo criativo. Esta constatação não deixa de ser paradoxal num filme que aborda o autor por via da relação com o Outro, no contexto familiar do café-da-esquina.

A química entre os protagonistas é também problemática, em virtude do desequilíbrio entre os desempenhos. A semelhança física entre Stephen McHattie e Beckett é impressionante e favorece muitíssimo a performance do actor, cujo retrato de Beckett é solene, ao mesmo tempo que espirituoso. Por outro lado, a personagem Vincent Hoss-Desmarais é afectada e inexpressiva, parecendo servir apenas para dar sentido ao título do filme – não será de admirar que o seu único livro se chame Diálogos do Silêncio (é importante salientar que a responsabilidade não será inteiramente do actor, já que o próprio argumento não lhe permite grande manobra). A par de McHattie, Maria de Medeiros é o melhor do filme. Uma vez mais no papel de uma actriz, ela protagoniza também uma obsessão com o autor – não com o homem, mas com a obra – e com a personagem de Krapp, que pretende desempenhar mesmo tratando-se de uma personagem masculina. A metamorfose de Carole em Krapp, no final do filme, é um dos momentos altos.

Felizmente, a memória de Meetings with a young poet suplanta o que o filme é e instala-se no que o filme poderia ser, um trabalho inscrito algures entre o biopic e a récita encenada, “inspirado em Samuel Beckett” (conforme nota de intenções), que mais vive do débito de texto do que da narrativa. Não obstante, será matéria interessante para aficionados e, para os restantes, uma introdução fugidia ao mundo do prémio Nobel ou um incentivo para o redescobrir – só por isso, são 85 minutos muito bem empregues.

e5

JE NE SUIS PAS MORT, de Mehdi Ben Attia

jenesuispasmort2

A segunda longa-metragem do argumentista e realizador Mehdi Ben Attia segue a história de Yacine (Mehdi Dehbi), um estudante de ciências políticas argelino, com um part-time de estafeta mas grandes ambições intelectuais e profissionais, que encontra em Richard (Emmanuel Salinger), o professor de filosofia que tanto admira, um amigo e um mentor. Quando Richard morre repentinamente, a sua alma é transportada para o corpo de Yacine. Forçado a ressuscitar num corpo de um trabalhador árabe e com poucos recursos, Richard tem aqui a oportunidade de conhecer uma realidade bem diferente da do seu quotidiano favorecido – e de voltar a conquistar a mulher, Eleonore (Maria de Medeiros), uma glamourosa actriz. Forma-se um triângulo amoroso espectral no mínimo desconcertante, perante a perplexidade do seu vértice feminino e a súbita desaparição da personagem de Yacine a partir do momento em que o seu corpo é “possuído”.

Embora o elenco seja capaz e a história capte a curiosidade do espectador, Je ne suis pas mort cedo se desvela como uma fábula existencial desorganizada com uma mensagem igualmente difusa. A ideia das assimetrias sociais e da xenofobia e da visibilidade destes contrastes numa grande metrópole como Paris tem potencial (apesar de amplamente explorada noutros trabalhos), mas as personagens, pouco delineadas, acrescentam muito pouco aos estereótipos do imigrante pobre (Yacine) e do intelectual burguês (Richard/Eleanore). Mesmo a “experiência transcorporal” de Richard – que consideraremos metafórica, já que a narrativa não é sequer trabalhada de uma forma suficientemente esotérica para poder ser vista como uma fantasia – não parece trazer qualquer conclusão social ou polícia impactante, já que rapidamente o “espírito” de Richard se apercebe das vantagens mundanas de residir num invólucro bem mais jovem e apelativo.

Posto isto, torna-se complicado avaliar os termos de um filme pouco coerente, que não consegue formular convenientemente as suas questões. Apesar das imperfeições do argumento, salva-se a competência do elenco: Emmanuel Salinger domina a primeira parte do filme (desaparece cedo demais) e Mehdi Dehbi, numa interpretação contida, consegue um retrato credível quer do alpinista social de origens humildes, quer do intelectual que lhe entra no corpo. A “nossa” Maria de Medeiros, num papel pouco exigente, abrilhanta o filme com a sua voz doce e beleza exótica.

e4

Textos por Edite Queiroz

Arte-Factos

Webzine portuguesa de divulgação cultural. Notícias, música, cinema, reportagens e críticas. O melhor da cultura num só lugar.

Facebook Twitter LinkedIn Google+ YouTube