LEFFEST 2014 - Retrospectivas: Philippe Garrel

LEFFEST 2014 – Retrospectivas: Philippe Garrel

É intimidante presenciar a abertura de um Festival de Cinema diante do mais jovem cineasta do seu tempo. Philippe Garrel, perante uma plateia demasiado «meio vazia» e uma tradução perdida nela própria, conta como foi realizar a sua primeira curta metragem, seguida de uma longa metragem, em plenos anos 60, a idade de ouro de muitos dos que, hoje não tão jovens, queriam transformar o mundo pela arte.

philippe

Transpondo aquela que é uma consciência colectiva sobre uma época, os filmes de abertura da Retrospectiva dedicada a este autor – Marie pour mémoire e Les enfants désaccordés – acabaram por se confirmar como o prelúdio da revolução que estava por vir. Em ambos os trabalhos, sobressai o inconformismo de uma jovem burguesia esclarecida que quer viver para além das regras sociais, dos bons comportamentos, da formatação induzida por uma sociedade de consumo e de imposições que desde cedo perturbam as consciências mais atentas. O amor avassalador, como sempre, está em cada relação retratada, desde o seu primeiro filme, Les enfants désaccordés, feito quando Garrel tinha apenas 16 anos.

Aqui, dois amigos fogem de casa, roubam um Citröen 2 cavalos, rumo ao campo, onde numa mansão abandonada contam as suas histórias. As histórias de um futuro imaginado para ela e por ela, as histórias de um não futuro para ele. Entre as suas conversas e encenações, surgem as reacções dos pais, dos professores, de conhecidos: sempre souberam que eram crianças diferentes. E não o seriam todas as daquela geração e daquele lugar?

Em Marie pour mémoire, lançado em 68, Garrel testa o sarcasmo até ao limite. Se o objecto é a história de Marie (Zouzou) e Jesus (Didier Léon), casal que quer ficar junto contra a vontade dos pais – ele, operário, ela, intelectual – Garrel encontra nos diálogos filosóficos a ironização das várias correntes de pensamento e intervenção da sua geração: o situacionismo é o ponto de partida, para cujos «seguidores» apenas lhes resta o suicídio (o caso de Jesus), passando pelo moralismo ou, através da personagem cáustica e burocrata, dando umas bicadas no marxismo-leninismo  Para Marie resta-lhe uma profunda infelicidade, fruto da distopia que lhe é provocada pelo mundo que não entende e o amor que não vive.

Marie pour Mémoire

Todo o filme é perpassado por uma ironia tremenda, os diálogos parecem retirados de livros de Guy Débord, Lacan, Nietzsche e Rimbaud. Uma certa sensação profética está presente em várias cenas: um tratamento com electrochoques, música demasiado alta e as pálpebras sem cerrar a Marie (sim, imediatamente nos recorda Laranja Mecânica) para que não queira ter filhos e família (quando terapias idênticas ainda não eram conhecidas no tratamento de doentes psiquiátricos), as linhas de auto ajuda ou como o cinismo de alguns dos revolucionários do Maio de 68 se tornou cenário do dia-a-dia. É o que , de viva voz, nos conta hoje. Garrel.

E, aos 18 anos, num filme que no seu título já indicava ser para memória, conta-nos a esquizofrenia dos filhos de Marx e de Hollywood, a solidão imensa de quem pensa o mundo, a distopia situacionista, enfim, um tratado filosófico com a estética irrepreensível de Garrel, tanto nos actores, como nos figurinos e na fotografia. Todo o cinema de Garrel já ali estava. E toda a história da sua geração também.

E não é coisa pouca poder ouvir e ver Philippe Garrel.

Texto de Lúcia Gomes

Arte-Factos

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